Existe uma violência antiga na maneira como o Brasil olha para pessoas negras. Durante muito tempo, nos foi permitido aparecer, desde que alguém escolhesse o enquadramento. Podíamos estar na fotografia, no palco, na televisão, no cinema. O problema começava quando queríamos decidir a luz, o silêncio, o conflito, a narrativa. É por isso que a chegada de “Nosso Segredo”, primeiro longa metragem dirigido por Grace Passô, merece ser celebrada com atenção.
Grace não está simplesmente ocupando a cadeira de direção. Ela chega ao cinema depois de construir uma trajetória própria no teatro, na dramaturgia e na atuação. Chega trazendo consigo uma experiência de criação que nunca dependeu da autorização de um olhar dominante. Sua estreia no longa metragem, portanto, não acontece como quem bate à porta de uma casa desconhecida. Ela entra no cinema carregando uma linguagem que já existia. E isso muda tudo.
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“Nosso Segredo” acompanha uma família negra que tenta reconstruir a própria rotina depois de uma perda. Cada integrante atravessa o luto de uma maneira, enquanto o filho caçula guarda um segredo capaz de tocar as raízes daquela dor. A premissa poderia parecer simples. Não é. Porque uma família negra raramente foi autorizada pelo imaginário brasileiro a ser simplesmente uma família. Sobre nós, frequentemente recaem símbolos, diagnósticos, estereótipos, estatísticas e expectativas. Somos transformados em representação de alguma coisa antes que nos seja permitido ser contraditórios.
Grace Passô parece partir de outro princípio: pessoas negras não precisam carregar uma tese nas costas para que suas vidas tenham importância. Uma família pode sofrer uma perda. Pode esconder alguma coisa. Pode não saber conversar. Pode amar de maneira imperfeita. Pode guardar aquilo que não consegue dizer. Pode existir. Essa existência cotidiana também é política.
Há uma dimensão profundamente filosófica nisso. Quem somos quando ninguém está nos explicando? O que permanece de uma família quando a dor retira as palavras que organizavam a rotina? Que segredos herdamos sem perceber? E o que acontece quando aquilo que escondemos deixa de ser apenas uma lembrança individual e passa a revelar uma ferida compartilhada?
É justamente aí que a negritude de “Nosso Segredo” pode ser percebida com mais força. Ela não parece precisar de uma placa dizendo “isto é um filme negro”. Está na família, nos afetos, nos artistas reunidos, na experiência de uma cineasta negra assumindo a autoria de sua própria narrativa. Isso é muito diferente de simplesmente colocar pessoas negras diante da câmera. Representação também é poder de invenção.
Durante muito tempo, a cultura brasileira foi pródiga em representar pessoas negras como força de trabalho, como sofrimento, como violência, como folclore, como problema social. O que ainda estamos aprendendo a reconhecer é o direito de sermos mistério. E talvez o cinema seja um dos lugares mais interessantes para essa conquista. O mistério de uma pessoa não precisa ser resolvido para que sua humanidade seja reconhecida.
“Nosso Segredo” chega com um elenco que reúne Robert Frank, Ju Colombo, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert, Gláucia Vandeveld e Juan Queiroz. Também estão no filme dois nomes que carregam uma enorme força simbólica em suas próprias trajetórias: Mateus Aleluia, referência fundamental da música brasileira e integrante dos Tincoãs, e Tássia Reis, uma das grandes vozes da música brasileira contemporânea.
A música original é de Amaro Freitas, artista que construiu uma obra singular a partir do encontro entre o jazz contemporâneo e tradições musicais afrobrasileiras.
Nada disso parece gratuito. Existe uma inteligência na escolha dos artistas que atravessam esse filme. E existe beleza na possibilidade de diferentes linguagens negras se encontrarem no cinema sem precisar pedir licença para existir.
Grace Passô conhece o valor do silêncio. Por isso é importante observar que seu cinema nasce também de uma trajetória marcada pela palavra. Como dramaturga, ela foi reconhecida pela APCA, pelo Prêmio Leda Maria Martins e pelos Prêmios Shell do Rio e de São Paulo, tornando-se a primeira dramaturga negra brasileira a receber o Shell. Como atriz, recebeu duas vezes o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio e duas vezes o Candango no Festival de Brasília. Em 2018, foi eleita melhor atriz no Festival Internacional de Cinema de Turim.
No audiovisual, dirigiu “República”, premiado no Festival de Brasília, no Kinoforum e no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, além de receber reconhecimento pelo roteiro. Também dirigiu “Vaga Carne”, adaptação de sua própria peça teatral, codirigida com Ricardo Alves Jr., selecionada para a Berlinale.
“Nosso Segredo” é seu primeiro longa metragem. É importante dizer isso sem transformar a informação em celebração vazia. O que interessa é compreender o que existe por trás dessa estreia. Existe uma artista negra que passou anos construindo repertório, linguagem e pensamento antes de chegar a um formato que ainda concentra muito poder simbólico e econômico. Chegar ao longa é também atravessar uma fronteira. E quando uma mulher negra atravessa essa fronteira, outras pessoas passam a enxergar uma possibilidade que antes parecia distante.
Não porque Grace tenha a obrigação de representar todas as mulheres negras. Nenhuma artista deveria carregar esse fardo. A potência está justamente no contrário. Quanto mais autorias negras existem, menos precisamos procurar uma única obra para explicar uma experiência inteira. Uma cineasta não precisa falar por uma comunidade. Ela precisa ter liberdade para falar a partir de si. Essa diferença é fundamental.
Por isso, prestigiar “Nosso Segredo” não significa assistir ao filme porque ele é dirigido por uma mulher negra. Significa entender que uma obra merece encontrar público também porque sua existência amplia o campo do que podemos imaginar no cinema brasileiro. E existe uma urgência nisso.
E quando uma artista como Grace Passô coloca sua visão diante de uma tela grande, existe uma pergunta que também se dirige a nós, espectadores: estamos dispostos a assistir ao cinema brasileiro quando ele deixa de nos entregar aquilo que já sabemos e nos convida a enxergar de outro lugar?
“Nosso Segredo” teve sua estreia mundial na Berlinale e passou por festivais na França, no Uruguai, na Argentina e na Jordânia. Agora chega ao Brasil, primeiro pelo Festival de Gramado e, em 27 de agosto, às salas de cinema pela Sessão Vitrine Petrobras.
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