O Carnaval brasileiro é, em sua gênese, uma tecnologia de liberdade e um prolongamento dos terreiros para o asfalto. Muito antes de ganhar as telas, ele foi gestado no silêncio dos Abaçás e na resistência dos corpos negros que se recusavam à invisibilidade. É uma celebração que herda e reencena a cosmogonia dos Orixás: a dança é o Alujá de Xangô, a beleza é o Abebé de Oxum que reflete a dignidade reconquistada, e a força é o Iruquerê de Oxóssi que garante a propagação da nossa cultura.
A avenida, nesse sentido, é o Xirê em escala monumental. O samba é a orquestração do Ogã, onde o rufar dos tambores, o atabaque que se fez bateria, convoca a ancestralidade para o tempo presente. É dentro dessa liturgia de tambor e suor que a figura da Globeleza se insere. Ela não é meramente uma personagem da cultura de massas, mas uma entidade estética que ocupou, por décadas, o lugar de anúncio visual de um “estado de espírito” nacional.
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A história é viva, e como todo organismo vivo, ela exige que as narrativas amadureçam. A TV Globo entendeu que o olhar sobre a mulher negra na mídia precisava mudar de tom: sair do espetáculo visual para o reconhecimento do legado. O projeto “Nobreza Globeleza” é o desdobramento natural desse processo de escuta. É o momento em que a imagem ganha voz, corpo e ancestralidade, transformando a campanha em um marco de memória e continuidade cultural. Em um diálogo com o portal Mundo Negro, ficou nítido que, para essas mulheres, o corpo nunca foi apenas imagem, mas um território de afirmação política.
Em um diálogo com o portal Mundo Negro, ficou nítido que, para essas mulheres, o corpo nunca foi apenas imagem, mas um território de afirmação política.
Falar de Valéria Valenssa é falar de um Brasil que aprendia a se olhar. Ela foi a pioneira que, com um sorriso, rompeu o silêncio de uma tela que raramente celebrava a pele negra com tamanha majestade. Ao revisitar sua história, Valéria transborda uma emoção profunda ao abraçar a jovem que, aos 18 anos, colocou o corpo à disposição de um país inteiro, consciente de que “quando eu gravava, eu sabia justamente que tinha milhões de pessoas do outro lado da câmera. Então o meu olhar, o meu sorriso… tinha todo esse histórico de identidade e ancestralidade”. Para ela, aquela Valéria jovem teve a coragem necessária para ocupar um lugar de fala que hoje representa todas as meninas que ela vê.
Aline Prado trouxe ao posto uma doçura magnética no olho do furacão de um Brasil que começava a questionar as formas de representação. Sua força vinha da preservação da criança que via o Carnaval como casa, escolhendo proteger a alegria como sua maior ferramenta de resistência. Aline recorda com saudade da “inocência com que eu sempre encarei o Carnaval… era uma parte comum da minha vida”, admitindo que, por causa dessa pureza, inicialmente não enxergava as problemáticas da hipersexualização, pois “a personagem que eu criei, a minha Globeleza, era a alegria do Carnaval chegando” — uma pauta que hoje ela amadurece com amor e afeto.
Nayara Justino é o brilho da noite carnavalesca. Sua eleição foi um grito de vanguarda que forçou o país a encarar a potência de sua imagem. Há uma força quase visceral em sua trajetória; Nayara sentiu os desafios de ser um marco estético e político. Hoje, com a autoridade de quem venceu barreiras invisíveis, ela deixa um recado que é puro fôlego para as meninas que o mundo tenta silenciar: “O que eu digo para as meninas pretas é que não desistam. Sei o quanto é difícil em todas as áreas pra gente… pra mulher preta é muito difícil, mas para nós é muito mais difícil. Então, pode parecer clichê, mas é verdade: não desistam, se esforcem o dobro. […] Não deixem de sonhar nunca”.
Érika Moura é a síntese da mulher contemporânea que pisa firme. Vinda do chão sagrado da escola de samba, trouxe para a tela o suor e a técnica de quem entende que a nobreza não é um presente, mas uma conquista diária. Ao despir-se do glamour, Érika revela a vulnerabilidade e o esforço monumental por trás do brilho, provando que seu sorriso é um gesto de bravura: “O pessoal vê todo o glamour, né? Mas não vê as horas de gravação… a gente ali fica ansiosa, nervosa, pensando que tem que entregar o melhor. No samba a gente chora, a gente briga, mas a gente esconde: sorri, entrega o carisma, o carão. O sorriso entrega a força mesmo no samba”.
A força desse encontro revela que a Globeleza nunca foi uma imagem estática, mas um território de poder ocupado por mulheres que fizeram de sua presença uma afirmação cultural. O “estado de espírito” que hoje celebramos não é uma abstração; ele pulsa na memória e no afeto de quem sustentou a majestade negra diante de um país inteiro.
Ao olharmos para a trajetória de cada uma delas, a gente entende que cada sorriso ali na frente das câmeras foi, na verdade, um gesto de generosidade e um jeito de dizer “eu estou aqui”. Este é um tributo à ancestralidade que caminha e à alma de mulheres que não apenas deram vida a um ícone, mas que fundaram a nossa identidade afetiva, provando que a verdadeira nobreza do Carnaval nasce do respeito profundo a quem abriu os caminhos e nos ensinou a sonhar.
Tudo isso ganha um sentido ainda mais profundo quando a gente olha para quem está no comando desse movimento. Samantha Almeida, diretora de marketing da Globo, traz para o projeto não apenas a liderança, mas a própria pele e a memória de quem cresceu assistindo a essas mulheres. Para ela, o “Nobreza Globeleza” não é sobre diversidade como pauta, mas sobre a verdade de quem sabe que essas trajetórias fundaram a nossa autoestima.
É um reconhecimento que vem do coração e que Samantha resume com a força de quem se enxerga em cada uma delas:
“Para muitas mulheres, especialmente mulheres negras como eu, elas foram referência de beleza, orgulho e pertencimento em um tempo em que diversidade ainda não era pauta. Hoje, elas fazem parte dessa roda de bambas, dessa memória afetiva coletiva, sendo homenageadas não como passado, mas como símbolos vivos da nossa história cultural. Nesta campanha, existe um reconhecimento muito genuíno com o público, porque eu não me sinto falando com ele, eu me sinto sendo esse público.”