Em entrevista ao Mundo Negro, atriz e diretora reflete sobre sua personagem em “Habeas Corpus”, a trajetória do Grupo Clariô, a espiritualidade e a importância de aprender a respeitar os próprios limites.
Por Karina Pereira
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Naruna Costa construiu sua trajetória artística entre o teatro e o audiovisual, com trabalhos que colocam em cena histórias negras e periféricas. Em outubro, a atriz e diretora pode ser vista em diferentes produções, entre elas a série Habeas Corpus, da Netflix, e o espetáculo Casa do Norte, do Grupo Clariô de Teatro, em cartaz no Sesc Consolação, em São Paulo. A artista também integra o elenco de Pele de Rinoceronte, filme pelo qual recebeu o Kikito de Melhor Atriz Coadjuvante, e de Amadeo e o Hipotético Mundo Novo, presente na programação de festivais de cinema.
Em Habeas Corpus, Naruna interpreta Eliane, uma mulher que está presa há oito anos e cuja história se entrelaça com a busca da filha, Marina (Any Gabrielly), por justiça. A personagem conduz o público por pautas sociais relacionadas à maternidade, ao sistema judicial, às desigualdades e às estratégias que uma mulher desenvolve para proteger quem ama.
Em entrevista ao Mundo Negro, Naruna fala sobre a construção dessa personagem, a experiência de crescer em Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, e o encontro com o teatro ainda na adolescência. A atriz também reflete sobre a espiritualidade presente em sua história familiar, o autocuidado e os aprendizados de mais de duas décadas de atuação coletiva na cena teatral negra paulista.
Eliane é uma liderança política
A trajetória de Eliane em Habeas Corpus desafia as primeiras impressões do público. À medida que a história avança, suas escolhas ganham novas camadas de significado, revelando uma mulher que age a partir de uma compreensão própria das circunstâncias em que vive.
Para Naruna, entender a personagem exigiu reconhecer sua capacidade de articulação e sua visão estratégica. “Eu acho que a Eliane é uma liderança”, afirma. Segundo a atriz, as atitudes da personagem não podem ser interpretadas somente pelo medo: elas também expressam uma forma de proteger a família e avaliar os riscos de cada decisão.
“Ela não toma uma atitude emocionada, ela toma uma atitude estratégica”, explica. Essa dimensão política, para Naruna, torna Eliane uma personagem que pensa sobre os caminhos possíveis para garantir a vida e a dignidade, mesmo quando precisa rever suas escolhas.
A atriz também destaca a complexidade da personagem diante de representações historicamente recorrentes no audiovisual. Ao ler o roteiro, percebeu que Eliane poderia, inicialmente, parecer próxima de estereótipos associados às mulheres negras e pobres submetidas à violência. O que a interessou, porém, foi a profundidade que a narrativa permite alcançar.
Eliane é mãe, mulher, liderança e sujeito de escolhas pessoais e políticas. Sua trajetória envolve ainda questões relacionadas à luta agrária e racial. Para a artista, essa construção impede que a personagem seja reduzida às violências que atravessam sua história.
Naruna revela que a experiência de interpretá-la também trouxe uma reflexão sobre a própria atuação dentro de um contexto no qual mulheres negras precisam desenvolver estratégias para enfrentar o racismo e preservar a própria dignidade.
“A gente tá em luta o tempo todo. Nossa comunidade negra num país que infelizmente é um país racista, de alguma maneira a gente tá sempre combatendo coisas ou em embate, porque as nossas presenças estão sempre sofrendo violências, mesmo que sejam violências pequenas. […] Ela defende a dignidade, mas, a partir de um momento, ela entende que a vida é mais importante. Então ela escolhe pela vida, mas não abaixa a cabeça”, diz Naruna.
O encontro com o teatro na periferia
Nascida e criada em Taboão da Serra, na região metropolitana de São Paulo, Naruna cresceu entre experiências que contribuíram para formar seu olhar artístico. De um lado, havia a convivência com a terra e os animais, já que seu pai criava bichos; de outro, a violência policial vivenciada por comunidades periféricas durante sua infância e adolescência.
A atriz lembra que a região carregava estigmas associados à violência, embora sua experiência também tenha sido marcada pela riqueza das relações comunitárias e das referências culturais de pessoas vindas de diferentes partes do Brasil.
Seu pai era mineiro, sua mãe, alagoana, e ela cresceu próxima dos avós pernambucanos. Essa convivência com diferentes origens contribuiu para formar sua identidade e seu repertório cultural. Ao refletir sobre o que leva dessa história para o trabalho, Naruna identifica o encontro entre a poesia do cotidiano e a necessidade de denunciar as violências vividas pela comunidade.
O contato com o teatro aconteceu na adolescência, por meio do projeto Ademar Guerra, que oferecia formação e experiência teatral para jovens. Depois, Naruna passou pelo Senac e pela Escola de Arte Dramática da Universidade de São Paulo (EAD-USP), dando continuidade à sua formação profissional.
A artista conta que cresceu cercada de riqueza cultural, mas teve pouco acesso à arte como linguagem e possibilidade de formação. Foi no teatro que encontrou um caminho profissional e também um espaço para elaborar suas próprias referências.
“Eu devo tudo ao teatro”, afirma. Ao longo da entrevista, ela explica que a experiência teatral contribuiu para sua educação, para a compreensão das tradições familiares e para a possibilidade de questionar costumes e construir novas formas de se relacionar com a cultura, a espiritualidade e os afetos.
A interpretação de Elza Soares também ocupa um lugar importante na sua trajetória artística. Para Naruna, as narrativas biográficas têm força para atravessar gerações e continuar provocando novas reflexões. “Eu gosto muito de biografias, gosto de contar histórias de pessoas que precisam ser contadas por muitos anos”, afirma.
Teatro negro: construir caminhos e aprender a revezar
A relação de Naruna com o teatro também passa pela trajetória do Grupo Clariô, coletivo do qual faz parte e que completa 21 anos de atuação na periferia de São Paulo. Ao recordar o início desse percurso, a atriz destaca a mobilização de grupos que contribuíram para fortalecer uma nova fase do teatro negro paulistano.
Ela cita coletivos como Os Crespos, Coletivo Negro, Os Inventivos e Capulanas como parte desse movimento. Naquele período, segundo Naruna, havia poucas referências acessíveis para orientar o trabalho de uma geração que precisava abrir caminhos e criar condições para que novas produções fossem realizadas.
“Para vingar as coisas mesmo, a gente teve que preparar um terreno, a gente teve que plantar, a gente teve que regar, a gente teve que rezar e teve que colher”, afirma.
A imagem do plantio traduz o esforço coletivo dedicado à construção de espaços, repertórios e oportunidades para artistas negros. Agora, ao observar a presença de novas gerações, Naruna identifica a possibilidade de compartilhar responsabilidades e reconhecer que outras pessoas também podem dar continuidade ao trabalho.
“Hoje muitas pessoas já colheram e assim conseguem ter repertório para poder plantar também”, diz.
Autocuidado exige reconhecer a hora de parar
Com uma rotina que envolve atuação, direção, teatro e cinema, Naruna reconhece que cuidar de si ainda é um aprendizado. Ela se descreve como alguém que costuma assumir muitas tarefas e seguir em frente, mesmo diante de uma agenda intensa.
A atriz destaca a terapia, que passou a integrar sua vida há alguns anos, e os momentos dedicados à espiritualidade como práticas especiais da sua rotina. Para ela, esses espaços ajudam a encontrar equilíbrio e a cuidar das dimensões mental, física e espiritual.
A saúde física, conta, é a área que mais acaba ficando em segundo plano. Por isso, tem tentado reorganizar a rotina e reconhecer os próprios limites. Naruna relaciona a dificuldade de desacelerar à experiência de uma geração que precisou investir muita energia na construção de espaços para artistas negros. Depois de anos dedicados a fazer projetos acontecerem, ela começa a considerar outras possibilidades de atuação, nas quais dividir responsabilidades também faz parte do processo.
Aprender a revezar, nesse sentido, é uma forma de reconhecer que o trabalho coletivo pode continuar sem exigir que as mesmas pessoas sustentem todas as frentes o tempo inteiro.
Ancestralidade e espiritualidade no cotidiano
A espiritualidade acompanha Naruna desde a infância. Seu pai era benzedeiro e praticava o candomblé, embora também incentivasse os filhos a frequentar a Igreja Católica. A atriz cresceu, assim, em contato com diferentes expressões de fé e com práticas de cuidado ligadas às tradições familiares.
Ao falar sobre sua relação com o candomblé, Naruna destaca a conexão com a natureza e com os ancestrais. Para ela, a espiritualidade não está restrita a uma ideia abstrata, mas se manifesta na relação com a terra, as águas, o corpo e as forças que sustentam a vida.
A atriz também preserva práticas cotidianas, como acender velas em casa, visitar o terreiro quando possível e reservar momentos para conversar com seu pai e com seus ancestrais. A tradição católica popular, presente na vivência de sua mãe, também integra esse repertório.
“Para mim é importante relacionar a espiritualidade com algo vivo, com algo para além do imaginário. […] Eu, sendo natureza e me relacionando com a natureza, de alguma maneira estou me relacionando com a minha espiritualidade e ancestralidade. E eu acho que politicamente também é muito importante para mim a relação de contato com uma espiritualidade ou uma religiosidade que tem a ver com os meus ancestrais que sofreram violências como o meu pai sofreu, de não terem o espaço, um espaço de dignidade, de poder expressar o que sente”, afirma a atriz.
A arte de contar histórias que precisam permanecer
A construção de caminhos para o teatro negro exigiu de Naruna Costa e de sua geração dedicação para criar espaços. Depois de mais de duas décadas nesse percurso, a atriz começa a reconhecer que o trabalho também pode ser compartilhado com quem veio depois.
Essa mudança de perspectiva está ligada a uma aprendizagem pessoal. Naruna conta que tem buscado respeitar os próprios limites após enfrentar questões de saúde, entre elas a endometriose e problemas na coluna. Aos 43 anos, ela reflete sobre a importância de dividir responsabilidades e reivindica para si o direito de fazer escolhas que considerem seus limites, e permitam que outras gerações cultivem os caminhos que ajudou a abrir.
Atualmente, Naruna também está em cartaz com “Casa do Norte”, espetáculo do Grupo Clariô de Teatro no Teatro Anchieta, do Sesc Consolação, em São Paulo. Com dramaturgia de Jhonny Salaberg e direção de Naruna, a montagem mistura humor, música e brega para contar a história de uma mercearia frequentada por famílias migrantes do Norte e do Nordeste, onde o desaparecimento de uma caixa de correio comunitária desencadeia uma investigação.
O espetáculo fica em cartaz até 1º de novembro de 2026, com apresentações de quinta-feira a sábado, às 20h, e aos domingos, às 18h. A temporada também conta com sessões extras em 23 de outubro, às 15h e às 20h. A classificação indicativa é de 16 anos, e os ingressos estão disponíveis na programação oficial do Sesc São Paulo.