Com 28 filmes identificados pela temática no catálogo oficial, festival reúne produções que abordam memória, racismo, identidade, biografia e resistência em diferentes perspectivas cinematográficas.
A 50ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, realizada entre 15 e 29 de outubro, reúne produções de diferentes países e amplia o contato do público com histórias, culturas e perspectivas diversas. Entre os destaques da programação estão os filmes identificados como“narrativas negras”, que atravessam diferentes seções do festival e abordam temas como racismo, ancestralidade, memória, desigualdade social e construção de identidades.
Notícias Relacionadas

De acordo com o catálogo oficial, 28 filmes estão associados à temática das narrativas negras. As produções não estão concentradas em uma seção exclusiva, mas distribuídas por diferentes categorias, como Mostra Brasil, Competição Novos Diretores, Perspectiva Internacional e Apresentação Especial. A organização temática permite ao público localizar obras relacionadas à experiência negra sem restringir essas narrativas a um único gênero ou formato cinematográfico.
A diversidade de abordagens evidencia como o cinema pode contribuir para a discussão de questões históricas e contemporâneas. Enquanto alguns filmes investigam os efeitos do colonialismo e do racismo, outros exploram experiências individuais, relações familiares, juventude, afetividade e manifestações culturais. As obras também demonstram que as narrativas negras não se limitam à denúncia da violência racial: elas abrangem diferentes formas de representar a vida, a memória e as possibilidades de existência.
Veja 10 filmes com narrativas negras presentes na 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo:
A Margem do Rio
O desejo, o mistério e a religiosidade atravessam “A Margem do Rio”, drama queer dirigido por Matheus Farias e Enock Carvalho, que integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ambientado no Recife, o longa acompanha Izaquiel (Caique Copque), auxiliar de serviços gerais que busca encontros secretos no mangue durante a noite. Sua rotina muda ao conhecer Jeremias (Ítalo Martins), um pescador enigmático e magnético que o conduz por uma jornada pelas profundezas do manguezal, enquanto uma ameaça externa traz violência à região.
A produção chega à Mostra após conquistar cinco prêmios no Festival do Rio, incluindo Melhor Longa-metragem de Ficção e o Prêmio Felix de Melhor Filme Brasileiro, dedicado a obras com narrativas LGBTQIAPN+. O filme também recebeu o Prêmio Especial do Júri no Festival de Locarno, na Suíça. Com estreia comercial prevista para 7 de janeiro de 2027, no Brasil, a obra explora as relações entre desejo, identidade e território em uma narrativa que tem os rios e manguezais recifenses como parte fundamental de sua atmosfera.
- 23 de outubro, às 20h45: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca — Sala 1. Sessão com a presença de representantes da equipe.
- 24 de outubro, às 20h30: Reserva Cultural — Sala 1.
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Feito Pipa
O afeto familiar, a infância e os desafios das relações entre pais e filhos estão no centro de Feito Pipa, drama dirigido por Allan Deberton que integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ambientado no sertão do Ceará, o longa acompanha Gugu (Yuri Gomes), um menino de 12 anos apaixonado por futebol, criado pela avó Dilma (Teca Pereira), uma professora aposentada que lhe proporciona uma vida marcada por liberdade, segurança e carinho. Esse universo acolhedor, porém, é colocado à prova quando surge a possibilidade de o garoto ir morar com o pai, Batista (Lázaro Ramos), com quem mantém uma relação marcada por ausências e sentimentos não expressos.
Desde sua estreia no Festival de Berlim, onde conquistou o Urso de Cristal e o Grande Prêmio do Júri da mostra Generation Kplus, Feito Pipa vem acumulando reconhecimento internacional. A produção também foi premiada em festivais como os de Gramado, Cartagena e Guadalajara e foi escolhida para representar o Brasil na disputa por uma vaga na categoria de Melhor Filme Internacional do Oscar. Ao retratar a infância e os vínculos familiares no interior nordestino, o filme constrói uma narrativa sensível sobre pertencimento, amadurecimento e as diferentes formas de amar.
- 21 de outubro, às 21h: Cultura Artística. Sessão com a presença de representantes da equipe.
- 29 de outubro, às 17h: CineSesc.
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Amadeo e o Hipotético Mundo Novo
A história, a ciência e o amor se encontram em Amadeo e o Hipotético Mundo Novo, longa-metragem brasileiro de animação dirigido por Brenda Lígia, Edu Felistoque e Everton Amorim, que integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo e da Mostrinha. Ambientado no Brasil do século XIX, o filme acompanha Amadeo, um jovem africano sensível e genial que inventa a câmera fotográfica antes dos europeus. Seu talento, porém, esbarra em uma sociedade marcada pela escravidão. Ao se apaixonar por Linda, uma jovem idealista fascinada pela ciência e pela arte, Amadeo encontra na invenção uma maneira de lidar com as dores de um amor proibido.
Com uma narrativa que combina ficção histórica, romance e reflexão sobre as desigualdades raciais, a animação propõe um olhar sobre o protagonismo negro na produção do conhecimento e na construção da história. A obra estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Xangai e também passou por eventos como o Festival de Brasília e o Festival do Rio. Com distribuição da Downtown Filmes, o longa tem lançamento nos cinemas brasileiros previsto para dezembro de 2026.
- 22 de outubro, às 15h: Circuito Spcine CEU Butantã.
- 23 de outubro, às 12h: Itaú Cultural — Sala Itaú Cultural.
- 24 de outubro, às 11h: Espaço Petrobras de Cinema — Sala 3.
- 28 de outubro, às 10h: Circuito Spcine CEU Barro Branco.
- 28 de outubro, às 10h: Circuito Spcine CEU Pinheirinho.
- 28 de outubro, às 10h: Circuito Spcine CEU Tremembé.
- 28 de outubro, às 10h: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca — Sala 4.
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Yellow Cake
A ciência, a ameaça de uma epidemia e os limites éticos da pesquisa científica se encontram em Yellow Cake, longa-metragem de ficção científica dirigido por Tiago Melo, que integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ambientado em Picuí, no sertão da Paraíba, o filme acompanha a física nuclear Rúbia Ribeiro (Rejane Faria), integrante de uma equipe internacional de cientistas envolvida em um experimento secreto que utiliza urânio extraído da região para tentar erradicar o mosquito Aedes aegypti, transmissor da dengue. A iniciativa busca esterilizar os insetos e conter a disseminação da doença, mas coloca em cena os riscos e as contradições de uma intervenção científica de grandes proporções.
Estrelado também por Tânia Maria, o longa combina ficção científica e questões sociais a partir de um cenário marcado pelas particularidades do sertão nordestino. Dirigido por Tiago Melo, conhecido pelo filme Azougue Nazaré, Yellow Cake estreou mundialmente no Festival Internacional de Cinema de Roterdã e foi selecionado para eventos como o Sitges Film Festival e o Olhar de Cinema. Ao aproximar ciência, território e saúde pública, a produção propõe uma reflexão sobre as consequências de projetos científicos que prometem solucionar problemas coletivos, mas envolvem dilemas éticos e ambientais.
- 22 de outubro, às 18h40: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca — Sala 1. Sessão com a presença de representantes da equipe.
- 27 de outubro, às 18h30: Cine Tutu.
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Elza
A voz rouca, a improvisação e a capacidade de se reinventar marcaram a trajetória de Elza Soares, uma das artistas mais importantes da música brasileira. Essa história é revisitada em Elza, documentário dirigido e roteirizado por Eryk Rocha, que integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Na produção, a própria cantora narra sua história em um diário que reúne memórias, desejos e reflexões conduzidos pela música e entrelaçados a imagens de filmes históricos do cinema brasileiro.
Ao percorrer quase um século de vida da artista, o longa também apresenta um retrato das transformações sociais e culturais do Brasil. Reconhecida pela potência vocal e pela postura transgressora, Elza construiu uma carreira marcada pela reinvenção artística e pela capacidade de transformar experiências pessoais em expressão musical. O documentário resgata essa trajetória a partir da perspectiva da própria cantora, valorizando sua voz, sua memória e seu protagonismo na cultura brasileira.
- 26 de outubro, às 21h25: Espaço Petrobras de Cinema — Sala 1.
- 28 de outubro, às 16h45: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca — Sala 1.
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Vicentina Pede Desculpas
O luto, a culpa e a busca por respostas conduzem Vicentina Pede Desculpas, longa-metragem de ficção dirigido e roteirizado por Gabriel Martins, que integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. A trama acompanha Vicentina (Rejane Faria), uma professora aposentada de 75 anos que perde o filho Wesley, motorista de ônibus envolvido em um acidente fatal em Belo Horizonte. Após a tragédia, imagens de câmeras de segurança levantam suspeitas de que ele teria provocado o acidente intencionalmente, hipótese que transforma o caso em notícia nacional.
Devastada e sem saber como seguir em frente, Vicentina decide procurar as famílias das vítimas para pedir desculpas. A jornada, porém, revela-se difícil, e as respostas que ela procura nem sempre correspondem ao que encontra pelo caminho. Com 148 minutos de duração, o filme aborda as consequências de uma tragédia para quem fica, explorando temas como memória, relações familiares e saúde emocional. A produção foi exibida nos festivais internacionais de Toronto e San Sebastián e tem distribuição da Netflix.
- 17 de outubro, às 20h: CineSesc.
- 22 de outubro, às 17h: Reserva Cultural — Sala 1.
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Vitória da Paz
A história de uma mulher negra que arriscou a própria vida para denunciar o crime organizado e a corrupção policial é o tema de Vitória da Paz, documentário dirigido por Ricardo Calil, Dudu Levy e Fábio Gusmão, que integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. O filme acompanha a trajetória real de Dona Vitória, uma brasileira de 80 anos que, em 2003, decidiu registrar as atividades criminosas que presenciava da janela de seu apartamento em Copacabana, no Rio de Janeiro.
Diante da negligência das autoridades, ela comprou uma filmadora e passou dois anos documentando o tráfico de drogas e a participação de policiais no esquema, acumulando mais de 30 horas de gravações. Com a ajuda de um repórter, entrou no programa de proteção a testemunhas e contribuiu para uma investigação que levou à condenação de 48 criminosos, entre eles nove policiais. Para preservar sua segurança, a mulher adotou o pseudônimo Vitória da Paz, enquanto sua identidade verdadeira permaneceu em segredo por 17 anos.
Com 93 minutos de duração, o documentário reúne parte das imagens registradas pela própria protagonista e recupera uma história de coragem, denúncia e defesa dos direitos humanos. A produção também destaca o protagonismo de uma mulher negra na luta contra a violência e a corrupção, trazendo ao debate os riscos enfrentados por quem denuncia estruturas criminosas.
- 23 de outubro, às 18h30: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca — Sala 1.
- 26 de outubro, às 19h: Cine Belas Artes — Sala 1 Leon Cakoff.
- Acessibilidade: o filme conta com recursos de acessibilidade.
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Julián
A animação Julián, dirigida por Louise Bagnall, integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, na Mostrinha e na Competição Novos Diretores. A produção de Irlanda, Luxemburgo, Canadá e Dinamarca acompanha um menino curioso que vai passar o verão com uma avó que mal conhece.
Durante a visita, Julián se encanta com o apartamento cheio de tesouros da avó, descobre suas raízes caribenhas e conhece a vibrante comunidade do Brooklyn, em Nova York. A maior surpresa, porém, é descobrir que ele é, na verdade, uma sereia.
Com 85 minutos de duração, o filme é uma adaptação do livro infantil Julián É uma Sereia, escrito por Jessica Love, e aborda temas como ancestralidade, identidade e pertencimento. A produção tem direção de Louise Bagnall, codireção de Guillaume Lorin e Mark Mullery, roteiro de Juliany Taveras e produção do estúdio Cartoon Saloon.
- 18 de outubro, às 11h: Cinesala
- 20 de outubro, às 15h45: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca, sala 5 — Competição Novos Diretores
- 25 de outubro, às 11h: Espaço Petrobras de Cinema, sala 3
- 29 de outubro, às 11h30: Solar, Sala Petrobras — Competição Novos Diretores
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Atcha Atcha
O documentário Atcha Atcha, dirigido por Mamadou Dia, acompanha dançarinos de diferentes países africanos durante um intenso programa de formação na École des Sables, no Senegal. Sob a orientação da lendária coreógrafa Germaine Acogny, os participantes vivenciam um espaço de transmissão cultural em que os corpos expressam memória, identidade e imaginação coletiva.
A produção também observa as mudanças na paisagem ao redor da escola, sinalizando que aquele cenário, idílico, mas frágil, pode estar prestes a se transformar. A obra propõe uma reflexão sobre a preservação de espaços de formação artística e de intercâmbio cultural no continente africano.
Com fotografia e direção de Mamadou Dia, o filme foi exibido no Festival de Locarno e integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
- 16 de outubro, às 19h10: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca, sala 5
- 22 de outubro, às 16h50: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca, sala 1
- 28 de outubro, às 19h: Cine Satyros Bijou
- 29 de outubro, às 13h30: Espaço Petrobras de Cinema, sala 3
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.
Black Zombie
O documentário Black Zombie, dirigido por Maya Annik Bedward, investiga a origem do zumbi na história do Haiti colonial e como a figura, inicialmente ligada à violência da escravidão, se transformou em um dos monstros mais lucrativos da cultura pop. Antes de ser retratado como um morto-vivo devorador de carne, o zumbi simbolizava a vítima do poder colonial, condenada ao trabalho incessante e privada até mesmo da libertação espiritual associada à morte.
Por meio de imagens de arquivo, registros da história do cinema de terror, cenas observacionais e entrevistas com historiadores, artistas e nomes do gênero, o filme acompanha a transformação dessa representação ao longo do tempo. A produção analisa como o colonialismo, o imperialismo e o capitalismo de consumo afastaram o zumbi de seu significado original.
A obra também aborda como as tradições espirituais negras foram distorcidas, transformadas em espetáculo e apagadas, enquanto um símbolo relacionado à usurpação da liberdade passou a ser associado ao terror. Dirigido e roteirizado por Bedward, o documentário canadense integra a programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
- 15 de outubro, às 15h: CineSesc
- 16 de outubro, às 13h: Reserva Cultural, sala 2
- 21 de outubro, às 20h: MIS — Museu da Imagem e do Som
- 26 de outubro, às 13h: Cinesystem Belas Artes Frei Caneca, sala 1
- Ingressos e informações: Catálogo oficial do filme.