Mundo Negro

Mulheres negras têm 66% mais risco de complicações graves na gestação, aponta estudo no Canadá

Pesquisa publicada analisou quase 1,5 milhão de nascimentos e identificou desigualdade racial na morbidade materna grave/Foto: Canva

Pesquisa publicada no Canadian Medical Association Journal analisou quase 1,5 milhão de nascimentos entre 2012 e 2023 e identificou desigualdade racial na morbidade materna grave

Pessoas negras no Canadá apresentam risco 66% maior de sofrer morbidade materna grave durante a gestação, o parto ou o período pós-parto em comparação com pessoas brancas. É o que aponta um estudo publicado no Canadian Medical Association Journal (CMAJ), que analisou dados de quase 1,5 milhão de nascimentos ocorridos entre 2012 e 2023.

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A pesquisa, intitulada Racial inequities in severe maternal morbidity among Black and White people in Canada: a population-based cohort study, 2012 to 2023, foi conduzida por pesquisadores ligados ao CanHEAL (Canadian network for Health Equity using Advanced Data Linkage) em parceria com o Black Reproductive Health Working Group. O estudo foi publicado em 5 de outubro de 2026.

Para chegar aos resultados, os pesquisadores utilizaram dados do Censo canadense de 2021, registros nacionais de nascimento, hospitalização, imigração e informações tributárias. Foram considerados nascimentos em todas as províncias e territórios do país, com exceção de Quebec. A análise incluiu 108.365 partos hospitalares de pessoas negras e 1.385.810 de pessoas brancas.

Diferença nas complicações

A morbidade materna grave reúne complicações potencialmente graves que podem ocorrer durante a gravidez, o trabalho de parto, o parto ou o período pós-parto. Entre as condições consideradas estão pré-eclâmpsia grave, hemorragia, sepse, problemas cardíacos, ruptura uterina e insuficiência renal.

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Entre as pessoas negras analisadas, foram registrados 47,8 casos de morbidade materna grave a cada mil nascidos vivos. Entre as pessoas brancas, a taxa foi de 27,7 casos a cada mil nascidos vivos. A complicação mais frequente nos dois grupos foi a pré-eclâmpsia grave: 11,1 casos a cada mil nascimentos entre pessoas negras e 6,7 entre pessoas brancas.

Mesmo depois de os pesquisadores ajustarem os resultados para características sociodemográficas e clínicas, a diferença permaneceu. Pessoas negras apresentaram 66% mais risco de morbidade materna grave, com odds ratio ajustado de 1,66 e intervalo de confiança de 95% entre 1,53 e 1,80.

A desigualdade também foi observada em diferentes níveis de renda e entre pessoas imigrantes e não imigrantes. Segundo os pesquisadores, diferenças de renda e de status migratório não explicaram a disparidade encontrada. Os resultados permaneceram consistentes quando foram excluídas pessoas com condições relacionadas à pré-eclâmpsia, doença falciforme e HIV, que apresentam prevalências diferentes entre populações negras e brancas.

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Raça não é considerada causa biológica

Os pesquisadores fazem uma ressalva importante sobre a interpretação dos resultados. O estudo trata raça como uma construção social, e não como um fator biológico que causaria complicações na gravidez.

“Ser negro não é uma causa de complicações graves na gravidez”, afirma Giulia Muraca, epidemiologista perinatal e professora associada da McMaster University, uma das autoras da pesquisa. Segundo ela, os resultados apontam para a necessidade de investigar fatores sociais, estruturais e relacionados ao sistema de saúde que possam contribuir para as desigualdades observadas.

Cynthia Maxwell, especialista em medicina materno-fetal e uma das líderes do Black Reproductive Health Working Group, também destaca que a raça não deve ser considerada um fator biológico de risco para complicações graves na gravidez.

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Para a pesquisadora, o fato de as desigualdades permanecerem entre diferentes níveis de renda, grupos de imigrantes e condições médicas levanta questões sobre os sistemas de saúde e sociais que podem estar produzindo resultados diferentes entre as populações.

Os autores relacionam os resultados a um conjunto mais amplo de evidências sobre fatores estruturais e sistêmicos, incluindo o racismo antinegro, que podem contribuir para desigualdades na saúde materna. Pesquisas anteriores, segundo os autores, já documentaram experiências de negligência, objetificação e atendimento desigual de pessoas negras em diferentes contextos de saúde.

Desigualdade aparece em diferentes regiões

As taxas de morbidade materna grave permaneceram relativamente estáveis ao longo dos anos analisados, mas variaram entre as províncias e territórios canadenses. A maior diferença racial registrada no estudo ocorreu em New Brunswick, onde o odds ratio foi de 2,28, com intervalo de confiança de 95% entre 1,46 e 5,43.

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A pesquisa também identificou diferenças relacionadas à renda. Entre pessoas brancas, a ocorrência de morbidade materna grave diminuiu conforme aumentava a renda familiar. Entre pessoas negras, entretanto, a tendência observada foi inversa: as taxas aumentaram conforme a renda crescia.

Para os pesquisadores, os resultados reforçam a necessidade de políticas voltadas à equidade racial na saúde materna. Entre as medidas sugeridas estão a coleta e utilização responsável de informações sobre raça nos dados de saúde, a divulgação pública de indicadores de saúde separados por raça, mecanismos para acompanhar a evolução das desigualdades, treinamento antirracista e a participação de comunidades negras na elaboração de programas de atendimento durante a gestação e o período pós-parto.

O estudo é observacional e, portanto, identifica uma associação entre raça autodeclarada e morbidade materna grave, mas não estabelece que ser negro cause as complicações. A conclusão dos pesquisadores é que a diferença encontrada exige investigação sobre os fatores sociais, estruturais e institucionais que podem estar por trás da desigualdade nos resultados de saúde materna.

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