Mundo Negro

Por que a mulher negra precisa de musculação mesmo trabalhando o dia inteiro?

FMulher negra fazendo musculação em casa (Foto: IA)

Por Caroline Araujo Amorim 

Você chega em casa acabada todo dia. Isso não quer dizer que o seu corpo esteja ficando mais forte, e eu quero te explicar por quê. 

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Pensa no seu dia. Você levanta cedo, encara condução, trabalha em pé ou carregando peso, sobe escada, faz faxina, cuida de gente, chega em casa e ainda tem o que resolver dentro dela. Você deita à noite acabada. E aí alguém te diz que você não precisa de exercício, porque você já se movimenta o tempo todo. Talvez você mesma já tenha pensado isso. 

Eu trabalho com isso há oito anos e preciso te dizer com todo o cuidado do mundo: cansaço e treino não são a mesma coisa. O seu esforço diário constrói coisa real, e eu vou te explicar exatamente o que ele constrói. Mas tem uma capacidade do seu corpo que ele não desenvolve, e é justamente a que vai definir se aos setenta anos você vai levantar da cadeira sozinha. 

Deixa eu começar pelo começo, porque acho que essa palavra virou outra coisa no caminho. 

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Força é uma capacidade física. Não é traço de personalidade, não é herança de família e não é característica de raça nenhuma. Na Educação Física a gente define força como a capacidade do sistema neuromuscular de produzir tensão para vencer ou resistir a uma carga, e ela não mora só no músculo: depende de como o seu cérebro conversa com os seus nervos e com as suas fibras. Tanto que, nas primeiras semanas de treino, boa parte do que a pessoa ganha vem de adaptação neural, ou seja, do corpo aprendendo a usar melhor o músculo que já tem, antes de mudar qualquer coisa no espelho. 

Guarda essa palavra: aprendendo. Ninguém nasce sabendo agachar, e nenhum corpo, de nenhuma cor, ganha força sem receber estímulo pra isso. Eu sou atleta de powerlifting e já perdi a conta de quantas vezes ouvi que esse era o esporte certo pra mim porque mulher negra já é forte de nascença. Não existe isso. O que existe são anos ajustando respiração, posição do pé e carga, com semanas em que a barra não saiu do chão e eu tive que voltar e recomeçar mais leve. 

Então por que o seu trabalho, que exige tanto do corpo, não faz esse serviço? 

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Porque existe um princípio na ciência do exercício chamado especificidade: o corpo se adapta exatamente ao estímulo que recebe, e não a outro. Esforço repetido, de baixa intensidade, que dura horas e não tem pausa pra recuperar, gera adaptação pra resistir. E resistir é uma conquista, viu? O seu corpo aguenta hoje o que derrubaria muita gente. Só que essa é a capacidade de tolerar desgaste, não a de produzir força. São vias diferentes dentro do seu corpo, com resultados diferentes.

Carregar sacola pesada todo dia por vinte anos te deixa mais resistente ao cansaço. Não te deixa mais forte. 

E força é o que segura autonomia com o passar dos anos. É levantar do sofá sem se apoiar, subir escada sem parar no meio, pegar neto no colo, continuar morando sozinha porque quer e não porque não sobrou opção. 

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Tem um estudo que me tirou o sono sobre isso. Pesquisadores da USP acompanharam 978 moradores de São Paulo durante dez anos. Na primeira coleta, 51% dos homens brancos com escolaridade alta praticavam atividade física no tempo livre, contra 29% do grupo mais vulnerável. Dez anos depois, foi pra 65% e 39%: todo mundo melhorou, e a distância entre os dois grupos aumentou. E quem era o grupo mais vulnerável? Mulheres pretas, pardas, amarelas ou indígenas com menos anos de estudo. Agora repara na outra ponta: quando os pesquisadores olharam pra caminhada como deslocamento, aquela de ir a pé pro trabalho, a vulnerabilidade social não fez diferença nenhuma, e a prevalência mais alta apareceu justamente entre pessoas jovens, pretas e pardas. 

Ou seja, a gente é quem mais se movimenta por necessidade e quem menos se movimenta por cuidado. 

E antes que alguém leia isso como falta de vontade, o próprio estudo aponta o motivo: trabalho doméstico mal dividido, salário menor, falta de segurança pra usar espaço público, bairro sem praça e sem iluminação. Quem sai de casa às cinco da manhã e volta às dez da noite não está escolhendo não treinar. Isso é falta de condição, não é falha de caráter, e nenhum texto sobre saúde deveria te fazer sentir culpa por uma coisa que nunca dependeu só de você. 

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Mas eu preciso que você saiba de uma coisa: aquilo que constrói força é mais simples e mais barato do que te venderam. 

Quando falamos sobre treinamento resistido, a musculação é a forma mais conhecida dele, mas não é a única. A definição é bem menos glamourosa do que a academia faz parecer: é qualquer exercício em que o seu músculo trabalha contra uma resistência. Pode ser peso de máquina, pode ser halter, pode ser elástico, pode ser garrafa de água, pode ser o peso do seu próprio corpo. Sentar e levantar da cadeira devagar, sem impulso, é treinamento resistido. Subir escada de forma controlada é. Agachar segurando na parede é. Empurrar a parede com força é. 

O que transforma isso em treino, e não em movimento solto, são três coisas: constância, esforço suficiente pra ser difícil nas últimas repetições, e aumento progressivo ao longo das semanas. Isso é a sobrecarga progressiva, o segundo princípio que eu queria te apresentar hoje. Se você faz sempre a mesma coisa, do mesmo jeito, o corpo se acostuma e para de responder. Ele precisa de motivo pra continuar se adaptando.

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Eu vou te dar um exemplo que eu acompanho de perto. Minha mãe tem mais de 60 anos, se trata pelo SUS e teve um infarto recentemente. Antes disso ela já treinava, e quem direciona sou eu, com liberação médica. Nada sofisticado: sentar e levantar da cadeira, agachamento, exercício com elástico e caminhada. Ela faz na sala da casa dela, sozinha, sem mensalidade e sem equipamento nenhum. 

O infarto veio mesmo assim, porque exercício não impede infarto e eu não vou escrever aqui que impede. Mas a volta dela tem sido outra, e os exames já mostram melhora perceptível na glicemia, nos níveis de insulina e no quadro geral, porque ela conseguiu manter constância e seguir com direção aquilo que precisa ser feito depois de um evento cardíaco. E olha que isso não contraria a medicina, pelo contrário: o posicionamento científico da American Heart Association sobre treinamento resistido concluiu que ele é pelo menos tão seguro quanto o exercício aeróbio pra pessoas com e sem doença cardiovascular, recomendando duas sessões por semana, sempre com liberação e acompanhamento médico. 

Um caso não é evidência, e eu faço questão de dizer isso. Mas o que a história da minha mãe mostra é outra coisa. Ela não tem plano de saúde. O que ela tem é uma filha profissional da saúde que senta com ela e explica com calma o que está acontecendo dentro do corpo dela, por que o exercício importa e por que não pode parar justamente quando começa a melhorar. O privilégio dela não é dinheiro. É explicação. 

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E é por isso que eu escrevi esse texto. Porque eu sei quantas mulheres negras de sessenta, setenta anos estão sendo atendidas nos mesmos postos, recebendo a mesma orientação corrida de dois minutos, e voltando pra casa sem ninguém pra traduzir. 

Então, se você chegou até aqui, começa pequeno. Duas vezes por semana, dez a quinze minutos, com o que você tiver em casa. Senta e levanta da cadeira devagar até ficar difícil, agacha segurando na parede, usa um elástico ou uma garrafa cheia. Anota o que você fez, não pra se cobrar, mas pra enxergar o que está construindo. Quando ficar fácil demais, aumenta um pouco, porque é aí que o corpo continua respondendo. E se puder ter orientação profissional, peça, e peça também que te expliquem o que está acontecendo com você. Se não entender, pergunta de novo. Isso não é ser chata, é ser cuidada. 

Você já é forte. Ninguém tira isso de você, e não é disso que eu estou falando. Eu estou falando de uma capacidade física específica, que o seu corpo desenvolve quando recebe o estímulo certo, e que vai decidir a sua autonomia daqui a vinte, trinta anos. 

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Você carrega muita coisa há tempo demais. Dez minutos, duas vezes por semana, é pouco pra pedir de volta. 

Caroline Araujo Amorim é formada em Educação Física há oito anos, com pós-graduação em ortopedia e reabilitação pelo Hospital Albert Einstein. Atleta de powerlifting, é criadora do projeto Hip Hop Workout Collective e do aplicativo APPCAH. Integra o time Nike. Instagram: @carolinepersonall 

Referências 

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Paluch AE, Boyer WR, Franklin BA, et al. Resistance Exercise Training in Individuals With and Without Cardiovascular Disease: 2023 Update — A Scientific Statement From the American Heart Association. Circulation, 2024;149:e217–e231. 

Holtermann A, Krause N, van der Beek AJ, Straker L. The physical activity paradox. British Journal of Sports Medicine, 2018;52(3):149–150. 

Estudo longitudinal sobre atividade física e vulnerabilidade social em São Paulo, conduzido por pesquisadores da USP e divulgado pela Agência FAPESP em julho de 2026.

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