Professora emérita da UFPA e fundadora do Cedenpa, Zélia articulou a política de cotas raciais e representou o Brasil na ONU, em Durban, em 2001.
A professora, pesquisadora e ativista Zélia Amador de Deus morreu nesta terça-feira (8), aos 74 anos, em Belém, após passar mal e ser levada a um hospital na tarde do mesmo dia. Segundo familiares, ela fazia tratamento contra um câncer de mama, mas a causa da morte não foi divulgada. O Governo do Pará decretou luto oficial de três dias no estado, e o velório começou às 22h no Teatro Waldemar Henrique, na capital paraense.
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Professora emérita da Universidade Federal do Pará (UFPA), Zélia construiu ao longo de mais de quatro décadas uma das trajetórias mais relevantes do movimento negro brasileiro. Fundadora do Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará (Cedenpa), do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros e do Grupo de Estudos Afro-Amazônicos (GEAM-UFPA), ela presidiu a Associação Brasileira de Pesquisadores Negros e participou diretamente das articulações que resultaram na criação do sistema de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras. Em 2001, integrou a comissão brasileira na Conferência Mundial contra o Racismo da Organização das Nações Unidas, realizada em Durban, na África do Sul, um dos encontros que mais influenciaram a agenda de políticas afirmativas no país nos anos seguintes.
Do Marajó à universidade
Zélia nasceu em uma fazenda na Ilha do Marajó e ainda no primeiro ano de vida mudou-se para Belém, onde foi criada pelos avós. Sua mãe engravidou aos 15 anos e trabalhou a vida inteira como empregada doméstica. Em entrevista ao g1 em 2018, a professora atribuiu à educação a virada de rumo em sua história e recordou uma frase da avó que carregou como princípio: “tu és preta, mas não baixa tua cabeça”.
Aluna da rede pública em Belém, Zélia dava aulas para colegas em troca de dinheiro para pagar as passagens de ônibus. Formou-se, concluiu doutorado e tornou-se professora da UFPA, instituição à qual dedicaria o restante da carreira acadêmica. A militância começou ainda na juventude, com participação em manifestações políticas, e se consolidou no fim da década de 1970, período em que acompanhou de perto a reorganização do movimento negro no Brasil.
Em 1980, ajudou a fundar o Cedenpa, marco que, segundo ela, representou uma mudança de estratégia do movimento. A partir daquele momento, a militância deixou de se concentrar apenas na denúncia do racismo e passou a formular propostas concretas de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades raciais.
A construção das cotas e a atuação internacional
A defesa das ações afirmativas tornou-se um dos eixos centrais do trabalho de Zélia. Ela participou das articulações políticas que levaram à adoção de cotas para pessoas negras nas universidades públicas brasileiras, hoje política consolidada em instituições federais e estaduais de ensino superior em todo o país. Em 2001, esteve entre os representantes do Brasil na Conferência de Durban, experiência que descreveu como decisiva para a mobilização nacional que se seguiu.
“Éramos um grupo forte, articulado, que retorna ao Brasil para cobrar diversas políticas, entre elas o sistema de cotas nas universidades públicas”, afirmou em entrevista ao g1.
Zélia também se tornou uma das principais vozes nos debates sobre as desigualdades específicas enfrentadas pelas mulheres negras no Brasil, tema que atravessou boa parte de sua produção acadêmica e de sua atuação política. “A população negra acumula desde então desigualdades em todas as esferas: saúde, educação, perspectiva de vida, absolutamente todas”, disse.
Território quilombola e formação de novas gerações
Zélia também teve atuação decisiva na luta pelo reconhecimento e pela titulação de territórios quilombolas, pauta que se tornou um dos pilares de sua militância ao lado da defesa das ações afirmativas e da ampliação do acesso da população negra à educação. Na UFPA, sua produção acadêmica não se limitou à pesquisa: através do Cedenpa e do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros, formou gerações de pesquisadores e militantes que hoje seguem atuando na pauta racial em diferentes frentes, dentro e fora da universidade.
Reconhecimento em vida
O trabalho de Zélia recebeu reconhecimento formal em diferentes momentos da carreira. Em 2019, a UFPA concedeu-lhe o título de professora emérita. Em 2021, ela foi homenageada pelo Prêmio de Direitos Humanos da BrazilFoundation, organização internacional voltada ao combate à desigualdade social no Brasil, em cerimônia realizada em Nova York da qual participou de forma virtual. No mesmo ano, sua trajetória inspirou o documentário “Amador, Zélia” e virou tema de samba-enredo da escola de samba Os Colibris, de Belém.
Uma das últimas homenagens ocorreu em 18 de agosto deste ano, menos de um mês antes de sua morte, quando a UFPA plantou um baobá em sua honra no Campus Guamá, em Belém. “Esse baobá representa muito para mim, porque fala de ancestralidade, de memória e daqueles que vieram antes de nós. Estou muito emocionada e só tenho a agradecer por esta homenagem”, disse Zélia na ocasião.
Até o fim da vida, ela manteve a educação como referência central de sua luta. “Falta empatia. Se colocar no lugar do outro. Conhecer verdadeiramente a história do país. Entender nossa identidade. E isso vem através da educação, com o que trabalho pela vida inteira”, afirmou ao g1.
O Ministério da Igualdade Racial manifestou solidariedade à família, à comunidade acadêmica e ao movimento negro, destacando que a trajetória de Zélia permanece como referência para a luta por igualdade racial no país. O velório segue no Teatro Waldemar Henrique, em Belém, e o Governo do Pará mantém o luto oficial de três dias em homenagem à professora.
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