Ludmilla manda recado: “Respeita nossa cor, respeita nosso cabelo!”

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Anteriormente e agora

No carnaval de 2016, Val Marchiori comparou o cabelo de Ludmilla a uma famosa marca de esponjas de aço. Então, Ludmilla entrou com uma ação judicial contra a subcelebridade por injúria racial. Corta pra 2021, a “justiça” dá o ganho de causa para a branca que emitiu a ofensa. Dias depois da decisão, no BBB21, o participante Rodolffo compara o cabelo crespo de seu colega de confinamento, João Luiz, a uma fantasia de homem das cavernas. João chegou a chorar, ao desabafar com Camila de Lucas, por não ter pensado, até então, que ali, também, estaria na “função” de ter que avisar o óbvio. Que esse tipo de comentário não trem graça, é ofensivo, é crime, etc. Pois é, João, em todo lugar a gente tem que estar de prontidão. Parte do privilégio deles e do nosso fardo compulsório.

Horas mais tarde, a própria Ludmilla foi a atração da casa do reality, onde exigiu respeito à nossa raça e nosso cabelo (também ao funk, incluindo aí, Rick Bonadio). Pronto, adivinha o que acontece quando um grupo historicamente oprimido se levanta contra os privilegiados? Um monte de gente tentando desqualificar a fala da coleguinha. E, nesse meio, até quem, teoricamente, deveria estar do lado oprimido, defende o agressor. Estou falando de Nego Di, o escatológico comediante sem graça, dono da segunda maior rejeição da história do BBB. Diz o rapaz que Rodolffo não foi racista. Disse que isso é coisa de quem não aceita brincadeira e que na escola onde estudou blá, blá, blá… Percebeu, né? A empatia dele foi com quem fez o comentário racista e não com o negro que foi alvo dele, ou mesmo da negra que levantou a voz em defesa do ofendido.

Abrindo um parênteses rapidamente, comediante tem muito essa mania. Não só comediantes, em todas as camadas da sociedade tem isso. Mas por viver do riso, essa é uma categoria que costuma ter uma noção de limites bem elástica. Minha teoria é que muitos começam bem cedo na comédia, quando ainda não têm uma bagagem apurada pra criar. Tendo como base apenas a quinta série mental e aquela coisa de querer ser o engraçadinho da turma, expondo ao ridículo, mesmo sem razão, algum alvo humano. Não é um pensamento generalizado, claro. Há, ainda, os que ficam alegando que têm o direito supremo de fazer ofensa em forma de piada, mas há também muitos que mantêm assumidas posturas de bom senso e respeito. Mas estou divagando, isso é papo pra outra conversa.

A representativa e o anti-representativo

Nego Di também acusou Ludmilla de querer lacrar em cima do tema e tals. Mas, como eu disse no começo do texto, Ludmilla era a pessoa mais indicada pra estar ali e falar o que falou sobre respeito. Ela própria foi vítima, tendo negada a justiça. Mas se o incômodo de Nego Di é sobre Lud defender o respeito ao cabelo e à negritude, de modo geral, tendo cabelo alisado, lace e nariz operado, sinto muito, não funciona. Quantos atores e atrizes, nos EUAses, formam elencos inteiros, negros, em filmes e séries? Não são representativos porque a maioria alisa ou raspa a cabeça? Deixam de ser negros? Perdem o direito à carteirinha e ao negrocard? Pelamor, né… Aliás, com piada, já não tem muito critério, com assunto sério, seria legal estudar pra comentar.

Parece que, talvez, ele quisesse estar sob aquele holofote, depois que seu teatro de lacração “em desconstrução” não foi pra frente no início do BBB21. Ele apagou a postagem. A funkeira deu sua resposta a quem puder vestir a carapuça: “O fato de eu estar usando uma lace lisa não anula as minhas raízes. Meu cabelo é crespo e meu local de fala sobre o racismo que eu sofro continuam. Não sejam ignorantes”. A naturalidade com que tratam as ofensas racistas é desconcertante. E a Globo não fala nada. Tem um belo discurso de que preza pela diversidade, igualdade e respeito, exibe programas engajados, mas, no fim, é a mesma atitude de quem só fala bonito. Que ironia, a Globo também é uma dessas lacradoras do discurso vazio. Rá!

Então é isso, o sistema sendo sistema, o negro não podendo reclamar da ofensa que sofre que brota gente até do bueiro pra dizer que não pode reclamar e seguimos em frente. Nada de novo, mas seguimos na luta. Como eu sempre falo, são mais de 300 anos de violência em todos os aspectos. E “apenas” 132 de uma abolição tão mal feita que ainda tem resquícios de império/escravidão ecoando nas criações de diversas famílias. Ou seja, foi muito mais tempo de escravidão do que de “libertação”. E NUNCA houve um movimento real de inclusão do negro como cidadão e isso se reflete ainda hoje. É por isso que chega um Nego Di da vida e tem mais empatia com o branco que ofende do que com o negro que é ofendido, ou mesmo com a negra que levanta a voz pra protestar pelo nosso povo.

Amor, são 300 anos

É por isso que eu não engulo bem quando falam “não é possível que em pleno século 21…”, porque o sistema está enraizado há séculos e tem que haver um movimento consistente de conscientização pra daqui, a mais séculos, existir um equilíbrio, uma democracia de fato. Porque vai demorar, viu? Ainda tem muita água pra rolar nesse rio, mas esse é o jeito. Porque se fosse pra mudar com uma assinatura ou um decreto estadual, seria fácil demais. Mas além de precisarmos de todas as frentes investindo nessa questão, ainda têm os que deliberadamente se negam a aceitar que a sociedade precisa mudar. É difícil mudar os hábitos de uma pessoa, imagine de um grupo continental como é a população do Brasil, quiçá, do mundo.

Enfim, é só o negro se apresentar que alguém se acha no direito de dizer o que ele pode ou não pode. E estamos aqui pra dizer que nós decidimos por nós mesmos. João ficou nitidamente desestabilizado e é isso que precisamos mudar. Nem que seja algum desaforo pré-ensaiado, precisamos de argumentos pra esses momentos. Por que numa discussão, estamos de guarda alta pra responder qualquer coisa, mas num momento de descontração, também é luta. Manda logo uma resposta atravessada, que se disser que é mimimi, diz que eles é que estão de mumumu e vamos pra cima (risos). O importante é não ficarmos calados, como a Globo tá fazendo a Kátia egípcia e tentando passar de lado.

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