Ludmilla está errada em reclamar do Multishow?

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Ludmilla está errada em reclamar do Multishow?
A cantora Ludmilla exercendo seu direito de questionar a estrutura que a convda pra cantar, mas não acha que ela merece disputar o prêmio de melhor cantora.

Nos episódios anteriores desse grande espetáculo de terror, comédia e drama que é a vida, vimos Ludmilla levantar a bola pra um problema de estrutura social. Estou falando da recente treta entre Lud e o canal Multishow. Depois de anunciar que não participaria da apresentação no Prêmio Multishow 2021, por se sentir boicotada – ela não foi indicada ao prêmio de melhor cantora – a funkeira ainda foi acusada de criar a polêmica pra atrair atenções para seu documentário, que sairá em breve. O que mais me chamou atenção, mesmo, foi um comentário que li em alguma publicação do Instagram. A pessoa dizia que Ludmilla deveria estar muito satisfeita e agradecida pelo que já conquistou até agora. Será?

É inegável que Ludmilla já chegou muito mais longe do que a maioria. Mas, o ponto é que ela sabe do valor de seu trabalho, da sua arte. Basicamente, o que ela deseja é o reconhecimento. E isso me faz traçar um paralelo entre a fala da cantora, sobre como o sistema nos boicota e a música O Morro Não Tem Vez (Tom Jobim e Vinícius de Moraes). “O morro não tem vez e o que ele fez já foi demais”. Se trocar o morro da letra por negro – eu sei, no sentido social, é praticamente um sinônimo – e, mais especificamente, trocar por Ludmilla, vamos perceber que é o mesmo dilema. A canção apenas ilustra os fatos recentes e vice-e-versa. “As pessoas queriam que eu ficasse no meu cantinho”, já disse a cantora numa outra ocasião.

Seja por exclusão tendenciosa ou por uma incrível “coincidência”, Ludmilla tem todo o direito de reclamar, pelo menos, uma indicação ao prêmio. Não é nem questão de vaidade, é uma coisa de justiça mesmo. Como a própria falou, os números estão aí e não mentem. O trabalho dela está voando alto e não precisa impor limites de até onde ela merece, precisa ou quer chegar. O comentarista que eu citei, apenas, reforçou a ideia da música de Tom e Vinícius, de que o negro que conquista algo com muito trabalho, já pode sentar, relaxar e agradecer. Dadas as circunstâncias, é justo que ela se manifeste insatisfeita. Dizer que ela está chorando de barriga cheia, nesse tom, é quase dizer que ela já alcançou mais do que merecia.

E aí, chegamos na questão da representatividade. Ludmilla, só de estar onde está, já inspira um número gigante de pessoas negras, sobretudo meninas. Será que é pra ela se acomodar e se recolher quietinha pra não aborrecer quem se incomoda com seu sucesso? Faz lembrar aquele autor de novelas que se incomodou com a Beyoncè exibindo um caríssimo diamante, mas não diz um ‘ai’ sobre mais nenhum outro artista. Mas isso é outro tópico, estou divagando. O recado da sociedade é bem claro: Negro, aceite o que você já tem e não incomode ainda querendo respeito. Se dependêssemos da chancela de gente com esse tipo de opinião, onde será que estaríamos agora?

Mas, estamos aí. Ludmilla foi convidada, pelo próprio Multishow, pra colaborar nos próximos prêmios pra que não ocorra com outros o que houve com ela. Porque ela estaria colaborando sendo alguém perfeitamente “indicável” no futuro? Não sei. O fato é que precisamos incentivar esse tipo de comportamento de Lud. Quando escolhemos não reclamar de algo que achamos injusto, não movimentamos o que está errado e não inspiramos outras pessoas a fazerem o mesmo. Acabamos negando um possível apoio numa questão e podemos perder a chance de apoiar outros em outras questões. De atitude em atitude, vamos reforçando o hábito de desviar dessas tentativas de apagamento e silenciamento do nosso valor.

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