Lélia Gonzalez eternizou no pretuguês a prova de que o Brasil é feito por nós. Entenda o conceito e o legado da intelectual, 32 anos após sua morte.
Quem diz “Framengo” no lugar de “Flamengo”, quem troca “dá-me” por “me dá”, quem carrega no vocabulário palavras como moleque, quiabo, dendê e bunda, fala pretuguês, o nome que a intelectual Lélia Gonzalez deu à marca africana estrutural do português brasileiro. Nesta sexta-feira (10), a data resgata esse conceito ao completar 32 anos da morte da autora, que dedicou parte central de sua obra a provar que o Brasil não fala português, fala a língua que o povo negro moldou dentro dele.
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Gonzalez apresenta o conceito de forma mais sistemática no ensaio Racismo e sexismo na cultura brasileira, de 1983, embora já explorasse a ideia em falas e textos anteriores. Para a autora, o português falado no Brasil carrega, na estrutura sonora e gramatical, marcas profundas das línguas africanas trazidas pelas pessoas escravizadas, sobretudo das línguas de origem banta, faladas por populações do Congo, de Angola e de regiões próximas. A pronúncia popular de Framengo, sem o fonema l, ausente em diversas línguas bantas e substituído pelo r, ilustra essa permanência. Gonzalez recusava tratar essa troca como erro de fala e a entendia como o registro vivo de uma gramática africana que sobreviveu à colonização dentro do próprio idioma do colonizador.
A autora observava a mesma dinâmica na sintaxe cotidiana. A construção me dá, comum na fala popular brasileira, inverte a ordem imperativa e hierárquica do português de Portugal, presente em dá-me, e aproxima quem pede de quem recebe em uma relação menos autoritária. Repetições como nhonhô, usadas por pessoas escravizadas para se referir aos filhos dos senhores, seguem um padrão de duplicação silábica típico de línguas africanas, distante da estrutura europeia da palavra senhor. O vocabulário cotidiano conserva ainda centenas de palavras de origem africana incorporadas ao uso corrente, como fubá, caçula, angu, quitute, berimbau, maracatu, cafuné e muvuca, entre outras.
Formada também em psicanálise, Gonzalez associava essa permanência linguística ao papel histórico da mulher negra na criação das crianças no Brasil, incluindo os filhos das famílias brancas para quem trabalhava como ama de leite ou empregada doméstica. Para a autora, era essa mulher, e não a mãe branca, quem efetivamente inseria a criança na cultura e na língua durante a primeira infância, o que torna a fala popular brasileira uma herança direta da voz negra silenciada pela historiografia oficial. Gonzalez definia o racismo brasileiro como uma forma de negação cultural, própria de uma sociedade que absorve amplamente a contribuição negra em sua formação, mas recusa reconhecer essa presença como constitutiva da identidade nacional. O termo, escrito também como pretoguês em alguns registros da autora, funcionava assim como instrumento político, na medida em que reivindicava a legitimidade da fala popular associada às classes mais pobres e majoritariamente negras e disputava a ideia de correção linguística como parâmetro de inteligência ou de valor social.
Lélia Gonzalez nasceu em Belo Horizonte em 1º de fevereiro de 1935, filha de um ferroviário negro e de uma trabalhadora doméstica indígena, e era a penúltima de dezoito irmãos. A família se mudou para o Rio de Janeiro em 1942, depois que um dos irmãos, o jogador Jaime de Almeida, recebeu convite para atuar pelo Flamengo. No Rio, Lélia trabalhou como babá ainda criança, concluiu o ensino médio no tradicional Colégio Pedro II e graduou-se em História e Geografia, além de Filosofia, pela então Universidade do Estado da Guanabara, atual UERJ. Fez mestrado em Comunicação Social e doutorado em Antropologia Política, área em que concentrou pesquisas sobre gênero e etnia. Lecionou na rede pública e, posteriormente, na PUC-Rio, onde chegou a chefiar o Departamento de Sociologia e Política. Foi também uma das fundadoras do Movimento Negro Unificado, em 1978, e do coletivo Nzinga, dedicado às mulheres negras, em 1983.
Gonzalez morreu no Rio de Janeiro em 10 de julho de 1994, aos 59 anos, vítima de complicações cardíacas ligadas a um quadro de diabetes diagnosticado dois anos antes. Mais de três décadas depois, o conceito de pretuguês segue como referência em pesquisas de linguística, antropologia e estudos de gênero, e ganhou reforço recente na cultura popular, incluindo menções do rapper Emicida em produções documentais sobre o tema. Instituições como o Instituto Memorial Lélia Gonzalez, fundado por sua neta Melina de Lima em 2023, e projetos como o Lélia Gonzalez Vive seguem organizando acervos, entrevistas e documentos para ampliar o acesso à obra da autora, cuja produção completa segue sendo compilada e reeditada por pesquisadoras brasileiras.