Por: Dayane Oliveira
Quando eu era mais nova, acreditava que construir uma carreira dependia apenas de competência.
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Bastava estudar, trabalhar duro, entregar resultados e as oportunidades chegariam.
Com o tempo, descobri que existia uma camada muito mais complexa: também era preciso aprender a ocupar espaços onde eu quase nunca encontrava mulheres negras como referência.
Essa ausência nunca impediu que eu continuasse caminhando. Mas fez com que eu entendesse, muito cedo, que construir uma carreira também significava construir novas referências.
Escrevo este artigo no Julho das Pretas olhando para a minha trajetória, mas principalmente para as mulheres negras que estão começando suas carreiras ou que ainda sonham em ocupar posições de liderança. Porque, por muito tempo, eu também procurei alguém que me mostrasse que aquele caminho era possível.
Sou formada em Publicidade e Propaganda e iniciei minha carreira na Bahia, um estado reconhecido pela potência criativa, mas que ainda está distante do centro das grandes decisões da indústria da comunicação. Durante anos, ouvi que, para crescer profissionalmente, seria necessário estar no eixo Rio-São Paulo. E talvez essa seja uma das primeiras barreiras invisíveis que muitas mulheres negras enfrentam: a sensação de que o lugar onde nasceram, ou de onde vieram, determina até onde podem chegar.
Em vez de esperar que o mercado criasse espaço para mim, decidi construir o meu.
Foi assim que nasceu a Asminas. Mais do que uma agência, ela representava uma inquietação: mostrar que Norte e Nordeste não eram apenas mercados consumidores de campanhas, mas territórios que produzem repertório, comportamento, cultura e inovação. Durante essa jornada, tive a oportunidade de liderar equipes, negociar projetos com algumas das maiores marcas do país, desenvolver estratégias para empresas nacionais, participar do Festival Internacional de Criatividade em Cannes e entender que criatividade também é uma ferramenta de transformação social.
Mas seria desonesto contar essa história apenas pelos resultados.
Também existiram dias de dúvida. Dias em que precisei sustentar uma empresa enquanto lidava com as inseguranças que quase todo empreendedor conhece. Dias em que entrei em salas onde era uma das poucas — ou a única — mulher negra presente. Momentos em que percebi que competência, embora indispensável, nem sempre era suficiente para garantir acesso às mesmas oportunidades.
Foi nesse percurso que compreendi uma diferença importante: entrar em uma empresa não significa, necessariamente, conseguir construir uma carreira.
Nos últimos anos, o debate sobre diversidade avançou de forma significativa. Felizmente, vemos mais mulheres negras sendo contratadas e ocupando espaços que, por muito tempo, lhes foram negados. Mas acredito que a próxima grande conversa precisa ir além da porta de entrada.
Ela precisa falar sobre permanência.
Sobre desenvolvimento.
Sobre liderança.
Sobre quem participa das decisões mais importantes das organizações.
Segundo levantamentos do Instituto Ethos e do Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades (CEERT), mulheres negras seguem amplamente sub-representadas nos cargos de alta liderança das grandes empresas brasileiras. Ao mesmo tempo, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística mostram que elas continuam concentradas nas ocupações de menor remuneração e enfrentam barreiras persistentes para ascensão profissional.
Esses números revelam que o desafio já não é apenas ampliar o acesso. É garantir desenvolvimento de carreira.
Recentemente, tomei uma decisão importante: depois de anos empreendendo, escolhi voltar ao mercado corporativo.
Muita gente poderia interpretar esse movimento como um recomeço. Eu prefiro enxergá-lo como uma expansão.
Estar novamente dentro de uma grande organização me fez perceber que a diversidade precisa ser acompanhada por algo igualmente importante: ambientes capazes de desenvolver talentos, oferecer oportunidades reais de crescimento e formar novas lideranças.
Carreiras não crescem apenas por competência.
Elas crescem por visibilidade.
Por confiança.
Por boas lideranças.
Por pessoas que patrocinam talentos, compartilham conhecimento e indicam profissionais para projetos estratégicos.
Esse talvez seja um dos maiores desafios das mulheres negras no mundo corporativo: transformar presença em influência.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que construir uma carreira não é apenas acumular experiências ou conquistar cargos. É ampliar repertórios, abrir caminhos e desafiar imaginários.
Porque referências mudam perspectivas.
E perspectivas mudam destinos.
Durante muito tempo, achei que meu maior objetivo era ocupar espaços. Hoje entendo que meu maior compromisso é fazer com que outras mulheres negras não precisem chegar nesses mesmos lugares acreditando que estão sozinhas.
Quero que elas saibam que é possível liderar equipes.
Negociar grandes projetos.
Sentar nas mesas onde decisões são tomadas.
Empreender.
Recomeçar.
Mudar de rota.
Construir autoridade.
E, acima de tudo, permanecer.
Se hoje uma jovem profissional consegue olhar para uma mulher negra ocupando uma posição executiva, liderando projetos estratégicos, escrevendo sobre mercado e cultura ou sendo reconhecida por sua capacidade analítica, ela passa a enxergar essas possibilidades também para si.
E talvez esse seja o maior legado que uma carreira pode deixar.
Não apenas os resultados que conquistamos.
Mas as possibilidades que ajudamos outras mulheres a imaginar.
Porque, no fim das contas, construir uma carreira também é construir novas referências.
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