Joey Caruso, a alegoria do privilégio branco

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Cena de Todo Mundo Odeia o Cris - (Reprodução)

Sempre que assisto a uma reprise de Todo Mundo Odeia o Chris é um turbilhão de emoções. Primeiro, eu era o Chris brasileiro da infância e adolescência (apesar de que o personagem mais aproximado de mim na época era o Cirillo, da primeira versão de Carrossel). Isso significa que, hoje, com décadas de experiência de vida, é complicado assistir um protagonista que mesmo quando faz tudo certo, acaba se dando mal no final. Mas, entendo a ironia de Chris Rock. E uma outra coisa que me incomoda sempre, num primeiro momento de audiência, é que, com o passar dos anos/temporadas, os atores mirins vão crescendo e fica desigual demais as estaturas de Chris e Caruso (lembra, o menino ruivo e parrudo que sempre agredia ou ofendia de forma racista o protagonista).

Sempre me pergunto “Oxi, como o Chris ainda se deixa intimidar por esse rapaz bem mais baixo que ele?”. E, claro, existe um motivo básico que é o roteiro. Se Chris fosse reagir, a série perderia o sentido, já que um protagonista reativo não sofre metade do que ele sofre calado, ou pelo menos não da mesma maneira. Mas tem outro fator. Esse, de um ponto de vista sociológico. Caruso poderia ser valente e agressivo por qualquer motivo, mas em se tratando da série baseada na vida de um negro, acho muito válido pensarmos que ele pode simplesmente ser o branco racista que tem certeza da impunidade de agredir um negro. E defendo meu ponto alegando que outros garotos não sofrem o mesmo que Chris. Claro, Chris é o personagem que mais vemos na série, sendo natural que pareça ser o que mais apanha, mas é só nele que as agressões são motivadas por algo mais do que a “fraqueza”. Chris é preto e Caruso sempre usa isso pra rebaixá-lo.

Agora, vamos ver a vida real. Procure na internet. Eu mesmo já vi em vários lugares, listas de pessoas brancas depondo sobre o momento que perceberam que eram privilegiadas só por serem brancas. Momentos de duras policiais convertidas em paternais conselhos, revistas em blitz onde o branco fica ao lado dos policiais vendo os amigos negros enfileirados na parede e até o simples, porém afiado como um canivete no peito, “olha, nem tem cara de bandido”. Isso é inversamente proporcional. Ao passo que o privilégio branco joga o branco mais pra cima, até quando pela lendária meritocracia, não mereceria, o racismo direto contra o negro nos joga mais pra baixo. Aí, tudo se inverte: Nossos pertences são apontados como fruto de roubo, somos tratados como suspeitos de tudo, levamos tiro por portarmos qualquer objeto de celulares a pedestais de microfones e a frase certeira “tinha que ser preto”. O tempo todo eu vejo gente se afastando, olhando e torcendo pra eu não sentar ao seu lado no ônibus, tenho que fazer cara de inocente, mesmo sem ser culpado quando passa uma viatura e essas bossas.

E tudo isso, eu ilustro com uma passagem da minha própria biografia. Certa vez, eu e dois amigos participamos de um evento no Clube Renascença (Andaraí, Rio de Janeiro, RJ) e, na volta, fomos até o carro de um deles, pra esticarmos pra outro samba. Ao nos aproximarmos do carro, policiais nos viram naquele canto pouco iluminado da rua (muito comum na capital carioca, depois que anoitece) e, pelo meu histórico de abordagens apenas por ser negro desde a juventude, fiquei parado com as mãos em lugar visível, pernas afastadas e imóvel. Achei que era o normal, que não seria o momento de falar nada que não tenha sido perguntado. Já meus amigos, foram retrucando a abordagem dos policiais, alegando que o modo como foram se aproximando era abusivo e que não estavam fazendo nada de mais. Que eram cidadãos e possuíam direitos.

Amigues, eu juro que nessa hora, eu achei que os policiais iriam partir pra agressão, mas, pra minha surpresa, não teve nada. NADA! Apenas perguntaram o que estávamos fazendo, diante da resposta de que o carro era de um de nós e estávamos de saída, os caras voltaram pra onde estavam, na loja de um posto de gasolina e meus amigos ainda resmungando do abuso dos “polícia”. Eu já tava era bem feliz só de não ser acusado de ser o sequestrador dos meus amigos e eles se sentindo ultrajados. Ò praí! Na hora, achei que maravilhoso deveria ser esse mundo deles onde o tapão na cara, no pescoço ou no tórax não é uma opção cogitada ao questionar a truculência da PM. Isso tem uns 3 ou 4 anos e eu ainda não tinha percebido como o privilégio branco funcionava na prática. Logo eu, que num grupo de 10 brancos era sempre o único revistado, em fins de adolescência a caminho da Lapa, a ponto de quando eu não era abordado, ganhava até aplausos da “tchurma”.

É isso, Caruso pode ter crescido menos que Chris, mas cresceu muito mais confiante, só por não ter sido acostumado a chegar devagar nos lugares pra não ser visto como um criminoso, um revoltado ou um selvagem por sua cor. Um grande amigo, braço forte nas lutas, um dia exemplificou a diferença entre mim e um conhecido nosso, branco, ao chegar em seu estabelecimento pela primeira vez, há anos. Enquanto eu cheguei na porta, perguntei pelo dono e se podia entrar até ser convidado, o outro rapaz já entrou na certeza de que seria adorado e já defendendo um humor ácido ao notar ser minoria branca num ambiente de quilombismo. Não estou julgando se a abordagem foi de um “sinhozinho” ou apenas um “engraçadinho”, mas a autoconfiança racial faz muita diferença.

O privilégio branco é a base da sociedade racista. Se fosse só o ódio à ascensão do negro, estaríamos em guerra ideológica. O que desequilibra pro lado deles é o privilégio. Seria como uma luta ou uma partida em que os dois times vão competir, mas um tem o equipamento de primeira qualidade enquanto o outro porta farrapos. Vejamos que eu, desde a infância, num lar nada militante, mas consciente da realidade, aprendi que deveria ser 150% em tudo, porque sendo negro, só os básicos 100% já me deixariam abaixo de qualquer branco 10%. Essa é a prática da meritocracia. A mesma que soltou os negros das senzalas para os curtiços e favelas, sem nem um programa de inclusão social, mas é contra cotas raciais, alegando que escravidão já é passado e que só deve ser beneficiado quem faz por merecer.

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