A farinha de mandioca não é só um ingrediente para Joélho Caetano. É memória, é território, é política. Para quem cresceu no quilombo de Conceição dos Caetanos, no interior do Ceará, a mandioca sempre esteve no centro da vida comunitária. O que mudou é que agora ela também está no sorvete, reposicionando um saber ancestral dentro da gastronomia contemporânea.
Com 23 anos, Joélho é gastrólogo por formação, pesquisador de culturas alimentares e empreendedor criador da Sorvete Caetanos, marca que pensa sorvetes de verdade com ingredientes da terra, valorizando os saberes e sabores do seu povo. A trajetória não começa na faculdade nem no empreendimento: começa na cozinha de dona Bibiu, sua avó e matriarca do quilombo, e nas mulheres que ele cresceu observando.
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“O que me motivou a seguir na gastronomia foi a beleza que eu via nas cozinheiras que cresci vendo, como minha mãe, e a possibilidade de atuar como voz na minha comunidade através da cozinha e da cultura alimentar, porque comer é um ato político e um ato cultural lindo”, diz Joélho.
Foi ao revalorizar a Farinhada, prática coletiva ancestral do seu território, que Joélho ganhou destaque e visibilidade. A partir daí, criou um sorvete com base de mandioca que incorpora também farinha de mandioca e outros elementos que representam a cultura alimentar do seu quilombo. Mais do que uma receita, o produto é uma declaração: o que a comunidade produz tem valor gastronômico, cultural e comercial.
Ao trazer esse universo para o TikTok, Joélho explicita o quanto a cultura alimentar quilombola carrega sofisticação e ciência própria, desafiando a ideia de que gastronomia é um território que pertence a outros. A casca de banana, presente nos vídeos da campanha, aparece como extensão dessa lógica: o aproveitamento integral dos alimentos não é tendência nova, é prática que comunidades como a sua já conhecem há gerações.
É exatamente esse tipo de conhecimento que a campanha #IngredientePrincipal veio amplificar. Escolhido pelo TikTok para inaugurar a campanha global, o Brasil recebe um projeto que une tecnologia, educação e impacto social para democratizar o acesso à informação sobre alimentação saudável. O Mundo Negro, com o suporte do Guia Black Chefs, entra como parceiro estratégico, produzindo conteúdo com 20 profissionais negros que são referência na gastronomia e nutrição brasileira. Joélho Caetano é um deles.
Para quem vem de um contexto em que as oportunidades chegam de forma desigual, transformar esse legado em negócio e em narrativa pública tem peso adicional. Joélho sabe disso e fala diretamente para quem se identifica: “As oportunidades nem sempre são iguais para todos, mas sonhar é o caminho mais fácil para chegar nas oportunidades.”
Comer bem, no universo de Joélho Caetano, é voltar ao quilombo. É reconhecer que a farinha de mandioca que sempre esteve na mesa da sua avó é também gastronomia, é ciência, é identidade.