Da menina que deixou o interior do Piauí em busca de novas possibilidades à mulher que hoje ocupa um espaço de liderança, Jayane Borges reflete sobre ascensão social, pertencimento, dinheiro e os limites de uma carreira construída sem abrir mão da própria vida.
A engenheira química de 32 anos que se define como “uma menina do interior”, nasceu em Picos, cidade de cerca de 70 mil habitantes no Piauí, onde cresceu em uma família que precisou se movimentar desde cedo para conquistar novas oportunidades. Hoje, como gerente sênior de Estratégia Corporativa da Natura, Jayane Borges olha para essa trajetória entendendo que prosperidade não se resume ao cargo ocupado ou ao dinheiro acumulado, mas ao poder de proporcionar à família a possibilidade de sonhar.
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Aos 23 anos, durante a graduação em Engenharia Química na Unicamp, Jayane passou um período estudando em Manchester, no Reino Unido. Antes disso, havia deixado o Piauí para estudar em Teresina, onde foi morar com uma tia que teve papel importante na trajetória educacional da família.
“Eu queria sair do Piauí. Eu achava que o mundo não estava lá. Eu achava que vindo para São Paulo ia ter mais opções, eu ia conhecer mais coisas, eu ia viver outra coisa”, conta.
Durante o intercâmbio ela viveu experiências que sua família nunca havia presenciado e passou a perceber de maneira mais intensa questões relacionadas à classe social, raça e oportunidade. De volta ao Brasil, Jayane encontrou na consultoria de estratégia uma forma de continuar trabalhando com diferentes negócios e problemas complexos.
Foram quase oito anos no ramo onde aprendeu sobre estratégia, relações profissionais e códigos sociais, mas também desenvolveu a habilidade de questionar quanto de si mesma havia precisado adaptar para ocupar determinados espaços.
Agora, na Natura, ela dá início a uma nova etapa profissional em um espaço onde foi possível adquirir um novo olhar sobre carreira e prosperidade, cultivando relações e preservando espaços da vida que não precisam necessariamente ser produtivos.
Conversamos sobre carreira, dinheiro, pertencimento, planejamento de vida e longevidade.
Quem é a Jayane fora do trabalho? Como você gosta de ocupar seu tempo livre, e o que te diverte?
Nasci numa cidade muito pequena, morei em Campinas, morei em São Paulo e agora moro em Jundiaí. Então gosto dessa coisa de parar no meio do dia, tomar um café, conhecer alguma coisa nova. Acho que tem duas coisas que me recarregam mais. Uma é a cerâmica, que comecei há uns oito meses, mas sou muito apaixonada. Acredito que o barro tem uma vida própria, porque você tenta fazer uma coisa e ele sai outra. Também tenho lido bastante nos últimos três anos, dependendo do meu humor às vezes leio ficção, às vezes história. Eu e meu marido gostamos de assistir séries juntos, documentários. Isso tudo me reenergiza.
De onde você veio e como uma engenheira química foi parar no mundo da estratégia de negócios?
Acho que é uma história que vai muito em linha com a história da minha família. Eu tive uma tia que foi um anjo na minha vida e a primeira pessoa da minha família a se graduar e foi chamando, um a um, os sobrinhos para morarem com ela durante o ensino médio. Eu passei numa prova, ganhei uma bolsa e fui morar com ela e estudar em Teresina. Fazia muita olimpíada de química, física e matemática. Quando chegou o terceiro ano, fiz os vestibulares do Piauí e também o da Unicamp.
Passei em medicina na Federal do Piauí, que era o sonho dos meus pais, mas nunca foi o meu sonho. Na Unicamp, eu percebi que não gostava tanto da rotina industrial. Então me aproximei da empresa júnior e da Liga Empreendedora.
Depois veio a oportunidade de ir para a Inglaterra. Foi um divisor de águas na minha vida, foi lá onde aprendi inglês, vivi experiências que minha família nunca tinha vivido e tive minhas primeiras experiências internacionais.
Quando voltei, encontrei por acaso uma palestra de uma consultoria. Gostei da ideia de resolver problemas complexos e trabalhar com negócios diferentes. Foi assim que fui parar na estratégia.
O que a consultoria estratégica te ensinou sobre ocupar espaço? E o que você precisou desaprender depois?
A consultoria foi uma escola para mim. Aprendi muito sobre trabalho, sobre códigos sociais, sobre como me tornar adulta. No começo da minha carreira, se eu fosse esperar ter alguém parecido comigo, ou a maioria das pessoas parecidas comigo, para criar relações, alianças e aprender, eu perderia trocas muito ricas. Então sempre procurei mentores diferentes de mim, pessoas que tinham outras experiências.
No lugar de onde venho, não existiam códigos nem regras não ditas para se trabalhar ou alcançar a posição que tenho hoje. Então eu fui aprendendo esses códigos com quem sabia. Mas acho que também houve um processo de entender o que era adaptação e o que era identidade.
Ainda olho para trás para essas experiências para entender o que era eu e o que era a projeção que eu fiz de mim mesma. Precisei separar quem eu sou da minha produtividade. Quem é você quando não está gerando “valor monetário” para a sociedade?
Eu construí durante muito tempo uma autoestima muito relacionada à ideia de inadequação: inadequação regional, do lugar onde eu estava. Depois percebi que precisava entender quem eu era para além do trabalho.
Você chegou à Natura há poucos meses, com uma trajetória sólida no mercado. O que te faz querer construir uma carreira longa aqui?
Minha decisão de vir para a Natura foi muito consciente. Eu sou uma fã da Natura. Os benefícios são muito bons. Quando olho para o pacote de previdência privada e para o bônus de longo prazo, eles são construtores de patrimônio e muito relevantes quando você pensa em uma carreira mais longa. Mas tem uma coisa que eu queria adicionar: o berçário. Para planejamento de vida e planejamento de família, isso tem um valor muito grande para mim, porque eu não tenho rede de apoio aqui.
Tem uma metodologia muito legal, tem cuidado e fica do lado do prédio, o qual eu sou apaixonada. É um benefício que é difícil colocar preço. Acho que isso conversa com a ideia de carreira longa porque você precisa pensar em uma vida inteira, não só no próximo cargo.
Você trabalha na estratégia global de uma empresa cujo modelo de negócio gera renda para milhões de consultoras, muitas delas mulheres negras. Do seu lugar na estratégia, como você enxerga o papel da Natura na prosperidade dessas mulheres?
Eu venho de uma família cheia de microempreendedores e entendo o papel transformador que isso tem. A economia brasileira foi construída em cima disso. Isso é uma coisa que venho aprendendo aqui: não ver a venda direta como uma estratégia de ganho a curto prazo. Eu vim com as minhas visões de ter trabalhado em consumo, em consultoria, sobre eficiência, números, produtividade. Mas a venda direta é um negócio de pessoas, é um negócio de relações. Ela tem outras moedas. Pelas experiências que vivi e pelas pessoas próximas à minha família, é muito claro para mim o impacto que isso traz para a renda das pessoas.
Como você pensa prosperidade e planejamento de vida pra você? O que aprendeu sobre dinheiro que gostaria de ter sabido antes?
Quando você está ascendendo socialmente, é muito fácil olhar o dinheiro como uma coisa utilitarista, materialista. Demorou anos para eu conseguir separar e entender que existiam pedaços de mim que eu não podia mais valorar por dinheiro. Meu corpo, estar em paz, tem valor. Não é só mandar dinheiro para minha família comprar uma coisa. É sentar com eles e ajudá-los a sonhar. Meus pais têm um quintal muito grande, uma casa no interior. Minha mãe queria uma cozinha externa. E eu fiquei pensando: “eu podia dar isso, dar aquilo”. Mas quando eu sentei do lado deles e peguei um aplicativo e desenhei o que seria um quintal todo completo, eu entreguei para eles um sonho.
É muito fácil desmerecer coisas mais simples porque você batalhou tanto para ganhar dinheiro. Mas isso tem muito valor. E tem uma outra coisa que ninguém te conta antes de você ascender: a culpa que vem junto. A culpa por viver coisas que sua família não viveu, por ter oportunidades, por conseguir alguma coisa enquanto alguém próximo não conseguiu.
Foram vários anos conversando sobre isso em terapia. Hoje eu entendo que vou ajudar, mas também não preciso pegar tudo que tenho e dividir em 50.
O que a Natura oferece que faz diferença no seu plano de futuro, e por que a equidade salarial entre gênero e raça importa pra quem está construindo patrimônio a longo prazo?
Em relação a equidade, dificilmente uma pessoa senta e fala: “Eu vou olhar para você e te pagar mais barato”. É resultado de relações, de proximidades que alguns grupos têm entre si e de outras coisas que, se você não coloca para discussão, elas vão se auto justificando e se autoperpetuando. E a gente está aqui para quebrar isso. Quando você pensa em patrimônio de longo prazo, essas diferenças se acumulam. Então não é só uma questão de salário naquele mês. É o que aquele salário permite construir ao longo da vida.
A Natura tem a meta de 30% de pessoas negras em cargos de liderança. Na sua chegada, como foi encontrar outras pessoas negras em posições de decisão, com trajetórias parecidas com a sua? O que muda no dia a dia quando você não é a única na sala?
Se a gente for esperar ter todo mundo parecido com a gente para constituir relações, fica muito difícil. Você tem que ter trocas muito ricas com pessoas que são diferentes de você. também. Ser negro no Brasil, especialmente quando você ascende e vem de uma origem multiracial como eu, também significa entender a história da sua família, entender de onde você vem, como você se localiza e como você é percebido. É muito rico ter pessoas nessa trajetória também, com quem você consegue ter uma troca mais simples, mais fluida. É uma experiência que me faz sentir um sentimento de pertencimento que eu acho que nunca senti.
Longevidade também é saúde. Num cargo de tanta pressão, como você cuida do corpo e da mente pra ter uma carreira longa?
É um aprendizado. Eu nunca fui uma pessoa particularmente esportista. Sempre fui muito racional e estudei muito. Em determinado momento, seu corpo cobra. Quando seu corpo está mal, você também está mal. Moro hoje no interior porque entendi que queria uma cidade que coubesse na minha cabeça. Eu adoro o período que vivi em São Paulo, mas São Paulo não cabia na minha cabeça. Só isso já tira uma pressão muito grande.Também tenho buscado cada vez mais colocar exercícios na minha rotina.
Eu percebi depois de muito tempo que sou uma pessoa meio perfeccionista. Então, às vezes, chego às seis horas da tarde e penso: “O que eu tenho que fazer a mais aqui? É porque eu quero fazer a mais ou realmente preciso fazer isso?” Se você não se questionar sobre o porquê de estar fazendo as coisas, vai entrando no automático. O mundo corporativo pode te levar para esse lugar de “eu vou vestir essa armadura”. Só que essa armadura pesa. Ela pesa muito.
Antes de entrar na Natura, tirei seis meses de sabático. Li muito, comecei a fazer cerâmica, ouvi música e desenhei. A cerâmica tem um jeito de aterrar a gente que é muito forte. Quando faço cerâmica na segunda-feira à noite, quando chego lá, eu estou só lá. A peça pode demorar três meses para ficar pronta. Mas tudo bem, eu posso ter isso na minha vida que não é produtivo.
Ao longo da minha carreira, aprendi a sonhar. O mundo do trabalho é muito relevante para mim e acho que não é só uma forma de ganhar dinheiro. Todo mundo quer se sentir útil. Mas, se você centraliza sua vida ao redor disso, tem muita coisa que não consegue controlar. Então eu gosto de pensar que preciso ter “continentes” para me aterrar. Minha casa é um continente. Minha cerâmica é um continente. As músicas que escuto também. E acho que, nessa era de inteligência artificial, fica cada vez mais relevante pensar no que torna a gente humano.
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