Jacarezinho: A realidade das comunidades

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A operação classificada como a mais letal da história expõe o quadro vivido por comunidades em toda parte, onde o Estado só se apresenta de forma armada e nada investe em melhorias para população.
Comunidades em diversas regiões passam o que o Jacarezinho passa. A operação letal expôs o descaso do Estado com a população.

A operação da polícia civil carioca, que resultou na morte de quase 30 pessoas, na comunidade do Jacarezinho foi classificada como massacre, chacina e outros termos que dão a exata noção de que foi um ataque de proporções hollywoodianas. E não é pra menos, afinal, foi a que mais matou e nem se preocupou, sequer, em identificar suas vítimas. Sim, vítimas. Não interessa que tenham se atribuído históricos criminais e passagens pela polícia. Na verdade, nem se divulgou identificações dos mortos. Não foi confronto, foi uma perseguição para matar. “Ain, Saga, você defende bandido”. Não. Defendo a lei e que esta seja aplicada de forma igual e justa pra todos. Não defendo crime de forma alguma, mas algumas questões precisam ser avaliadas até a sociedade saciar seu desejo de ver sangue de preto e favelado correndo morro abaixo.

Motivações

Vamos abstrair o pensamento inicial de que a motivação da polícia pra subir uma favela seja, genericamente, pra ‘esculachar’. Vamos mais a fundo (UIA!) nisso. A desculpa razão apresentada seria uma espécie de repressão ao recrutamento de jovens pelo tráfico. Então, vamos lá: Quem eles mataram seriam parte desse público a ser salvo, né? Ou seja, mataram pra prevenir que outros entrassem… pra serem mortos? E a grande pergunta: Se foi tão bem sucedida essa operação, onde o comando da polícia alegou que se trataria de bandidos mortos, deu certo? Podemos dormir tranquilos sabendo que nossas crianças não estão sendo recrutadas diariamente e crescendo – quando sobrevivem – tendo o maior contato com as forças públicas na base do tiro? O tráfico foi vencido?

Resultados

Com tantos mortos e motivações que só agradam ao pessoal do ‘bandido bom é bandido morto’, o que mais foi feito? Que tipo de prevenção ao tráfico, ao recrutamento de crianças e uso de armas e drogas como forma de sobrevivência foi implementado na comunidade? Só tiro não evita nada. Só mata. Só morte. Fica evidente que a preocupação não era com a população, era um pretexto pra retaliar contra a morte de um policial atingido enquanto retirava uma barricada.

Então, deixo claro que não defendo bandido, até porque não foram apresentadas grandes provas disso, além de, por ser negro, a gente se acostuma desde pequeno a ser tratado como ‘suspeito’ só por ser. Ou seja, pra ganhar ficha criminal é um pulo, na boca da violência segurança pública. Levou um tiro, o histórico já nasce antes do corpo cair no chão.

Olha como vive o Morro

Olha como vive o Morro é o título de uma canção de um cantor e compositor – amigo meu, com orgulho – Leandro de Jesus, o Leandrinho Partideiro, onde ele destaca toda essa questão e suas raízes. O também professor, conta as mazelas que a população de comunidade vive todo dia, como falta de investimentos em saneamento, segurança, educação, enfim, em tudo. E essa distância do Estado com essa grande parte da sociedade, além de ser histórica –  lembrando da escravidão, no pós-abolição, a reforma do Bota-Abaixo até os dias de hoje – influencia diretamente na relação daquela parcela da população com a política. Quando não há abstenção nas eleições – por falta de fé no sistema – qualquer pequena reforma numa praça ou numa rua já serve de moeda de troca por voto. Uma gratidão enganosa a quem tem a obrigação de fazer muito mais.

Tudo isso fica muito esmiuçado na belíssima melodia e forte letra da canção. E tudo ganha um significado mais interessante com o fato de que Leandro é cria do Jacarezinho, onde sua família fundou a Acadêmicos do Jacarezinho, escola de samba da região, com sede na entrada da comunidade, à via principal. Vou disponibilizar o vídeo com a música e subsequente entrevista a cerca das questões sociais abordadas na música logo abaixo. Se a letra já diz tudo, depois a conversa ilustra um pouco mais e pra muito antes e – infelizmente – muito além do Jacarezinho, você vai ter uma noção de como vive o morro.

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