Em Father Time, Kendrick Lamar expõe a crença que afasta homens negros da terapia e o que essa resistência cobra ao longo de uma vida inteira
A abertura de “Father Time”, terceira faixa de “Mr. Morale & The Big Steppers”, lançado em maio de 2022, é uma cena construída com material real. Whitney Alford, noiva de Kendrick Lamar e mãe de seus dois filhos, gravou a narração do álbum, e foi ela quem emprestou a voz para a mulher que, nos primeiros segundos da música, diz ao companheiro que ele precisa ir à terapia. A resposta de Kendrick está ali como ele a descreveu ao Spotify no mesmo ano, palavra por palavra, como a única resposta que conhecia para aquela pergunta: “Um cara de verdade não precisa de terapia, que porra cê tá falando?”
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Os versos da faixa descrevem como a resistência à terapia se constrói antes que a criança entenda que está sendo formada. “Uma criança que cresceu acostumada, levantando rápido quando arranhava meu joelho / Porque se eu chorasse por causa disso, ele diria que era pra eu parar de ser fraco.” O pai que aparece na música aprendeu que dor não interrompe nada, que quando a própria mãe morreu voltou ao trabalho no dia seguinte porque, como disse ao filho: “Essa é a vida, as contas não vão parar de chegar.” Essa frase chegou a Kendrick como instrução, e ele a carregou como quem carrega algo que não sabe que pesa até tentar colocar no chão.
O psicanalista Cleubecyr Brito, que atende predominantemente homens negros e periféricos, descreveu em entrevista ao portal Desenrola e Não Me Enrola em 2024 o que acontece quando esse homem chega ao consultório, quando chega. “Quando nós estamos falando de masculinidade, nós estamos falando dessa ideia de precisar ser forte, viril, potente, desse cara que não sente, e em análise é completamente o oposto. Você vai ser o tempo todo estimulado a interagir com as suas fragilidades.” Brito acrescenta que a maioria dos homens que inicia um processo terapêutico é levada pelas parceiras, exatamente como aconteceu com Kendrick, e que essa resistência começa antes da vida adulta, nos meninos que desde cedo aprendem que pertencimento e força são a mesma coisa.
A Pesquisa Nacional de Saúde de 2019, realizada pelo IBGE, mostrou que homens negros representavam apenas 14,8% dos pacientes em atendimento psicológico no Brasil, o menor percentual entre todos os grupos pesquisados, número que coexiste com uma taxa de homicídios de 37,8 por 100 mil habitantes entre brasileiros negros, contra 13,9 entre não negros, e com o dado de que a cada dez jovens que se suicidam no país, seis são negros, segundo levantamento do Ministério da Saúde em parceria com a Universidade de Brasília. São corpos que adoecem e morrem sem ter tido acesso ao que Kendrick descreve na música como um passo completamente novo numa geração completamente nova.
Kendrick é pai de dois filhos, e “Father Time” carrega esse peso em cada verso, especialmente quando ele rapa: “Minha galera cresceu sem pai, cresceram compensando de outros jeitos / Aprenderam porra nenhuma sobre ser um homem e fantasiaram isso sendo gângsteres”, descrevendo o que acontece quando a formação emocional não acontece dentro de casa e o menino busca referência onde encontra. O verso final da faixa fecha sem culpa e sem solução: “É crucial, eles não podem nos parar se acharmos os erros”, uma frase que aponta para os filhos que ainda estão aprendendo o que é ser homem e para o que será repassado a eles.
Para homens negros que não chegam ao consultório por falta de dinheiro, de tempo ou de um profissional preparado para uma escuta que considere raça e contexto, a arte tem funcionado como uma primeira abertura, e os dados sustentam essa observação. A plataforma Pra Preto Psi, fundada pelas psicólogas Bárbara Borges e Francinai Gomes, surgiu para conectar pacientes negros a terapeutas treinados para o que pesquisadores chamam de clínica racializada, um atendimento que entende o racismo não como pano de fundo, mas como parte constitutiva do adoecimento. Com o crescimento das consultas online, a distância entre se reconhecer numa música numa madrugada e marcar uma sessão no dia seguinte ficou menor do que em qualquer momento anterior.
Numa declaração publicada no Instagram em 2022, Kendrick resumiu o que a música representou na sua própria construção: “O rap ajudou de verdade na expansão do meu eu, para além da percepção de quem eu acreditava ser. Música é ar para um jovem preto naquele ponto da vida.” “Father Time” é onde essa afirmação se torna visível dentro de sua própria obra, numa faixa que existe porque alguém decidiu que nomear em público valia mais do que continuar guardando tudo dentro, e que a música podia ser o lugar onde isso acontecesse.
Evandro Fióti, irmão do rapper Emicida e figura conhecida no cenário cultural negro brasileiro, tomou um caminho parecido ao decidir compartilhar publicamente sua experiência com a terapia e os dilemas racializados que enfrentou ao longo dela. Em entrevista ao Correio Braziliense em 2024, ele disse que homens negros precisam enxergar a própria vulnerabilidade e ser ouvidos, e que falar sobre isso abertamente se tornou, para ele, uma forma de referência para outros homens que acompanham sua trajetória.
O que Fióti descreve e o que Kendrick grava em “Father Time” apontam para o mesmo movimento, o de homens negros que voltam à criança que aprendeu de um jeito e entendem que esse aprendizado não precisa ser a última palavra sobre quem são. Conversar, nomear, procurar um consultório ou uma tela de computador numa sessão online, são gestos que a comunidade negra começa a tratar com menos silêncio e mais seriedade, ainda que em ritmo lento diante do tamanho do problema. Os dados do IBGE de 2019 mostram que homens negros seguem sendo o grupo que menos acessa atendimento psicológico no Brasil, mas iniciativas como a plataforma Pra Preto Psi e a clínica racializada indicam que a estrutura para receber quem decide chegar está sendo construída. O que falta, muitas vezes, é a primeira decisão de ir.
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