Mundo Negro

Helen Borgens é a primeira aprovada no Brasil pela cota quilombola para diplomata

Foto: reprodução/arquivo pessoal

Goiana da comunidade do Retiro, em Simolândia, ficou com a única vaga para quilombolas no concurso do Itamaraty e se formou em Relações Internacionais na UFG

A goiana Helen Jaine Gomes Borgens, integrante da comunidade quilombola do Retiro, em Simolândia, no nordeste de Goiás, é a primeira pessoa quilombola aprovada no concurso de admissão à carreira de diplomata no Brasil. O resultado final foi publicado em 23 de junho de 2026, no edital de homologação do concurso organizado pelo Instituto Rio Branco, em que Helen aparece em primeiro lugar entre os candidatos quilombolas, com nota 528,93. Formada em Relações Internacionais pela Universidade Federal de Goiás (UFG), ela ocupou a única vaga destinada ao grupo, em uma seleção que pela primeira vez reservou postos para indígenas e quilombolas.

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O concurso de 2026 ofereceu 60 vagas para o cargo de terceiro-secretário, porta de entrada da carreira diplomática, com salário inicial de R$ 22.558. Do total, 39 vagas foram destinadas à ampla concorrência, 15 a pessoas negras, três a pessoas com deficiência, duas a indígenas e uma a quilombolas. O edital com essa divisão foi publicado em janeiro pelo Ministério das Relações Exteriores, e as provas foram aplicadas pelo Cebraspe.

Os candidatos inscritos nas vagas para indígenas e quilombolas passaram por uma etapa de verificação documental, conduzida por uma comissão formada em sua maioria por integrantes de comunidades tradicionais. A definição de quilombola adotada pelo concurso segue o Decreto nº 4.887, de 2003, que considera a autodeclaração, a trajetória histórica própria do grupo, a relação com o território e a ancestralidade negra. Helen teve o pertencimento confirmado nessa etapa e também consta na lista final de candidatos considerados negros.

A comunidade do Retiro integra a Associação de Comunidades Quilombolas Castelo, Retiro e Três Rios, em Simolândia, município onde Helen cresceu e fez a educação básica, embora tenha nascido em Goiânia.

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Preparação foi feita sem cursinho, no interior

Em entrevista ao Jornal UFG, Helen contou que o interesse pela diplomacia começou em 2017, por incentivo de João Daniel, professor de História no cursinho preparatório para o Enem que ela frequentava. Depois de concluir a graduação na UFG, em 2025, ela voltou para Simolândia e se preparou sozinha para o concurso, considerado um dos mais concorridos do país.

A distância dos grandes centros dificultou o acesso a cursos especializados, e a cidade não tinha professor de inglês preparado para o nível exigido pela prova, o que levou Helen a estudar o idioma e os demais conteúdos por conta própria. Para medir o próprio desempenho, ela imprimiu a prova aplicada em 2023 e passou a resolvê-la como simulado. Durante a preparação, também lidou com períodos de ansiedade que, em alguns momentos, interromperam os estudos. “Era eu e Deus”, resumiu à universidade.

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A avó é citada por Helen como sua principal inspiração. “Eu estudo por ela também”, afirmou. Sobre ocupar a vaga, ela disse considerar uma honra representar a população quilombola na carreira diplomática e declarou que quer “representar esse Brasil que é pouco representado”.

A reserva de vagas para indígenas e quilombolas no concurso de diplomata foi anunciada pelo Itamaraty em janeiro de 2026, dentro das regras da nova Lei de Cotas. Até então, o concurso tinha reserva apenas para pessoas negras e pessoas com deficiência. A carreira diplomática é historicamente marcada pela baixa presença de pessoas negras e de origem popular, e as políticas de ação afirmativa no Instituto Rio Branco começaram em 2002, com a criação de bolsas de estudo para candidatos negros, antes da adoção das cotas no próprio concurso.

Com a aprovação, Helen inicia o curso de formação no Instituto Rio Branco, em Brasília, que tem duração de três a quatro semestres e inclui, na etapa final, um estágio prático no Itamaraty. Ao concluir a formação, ela passa a atuar como terceira-secretária, primeiro degrau de uma carreira que pode chegar ao posto de embaixadora, cargo que Helen afirmou à UFG ser seu objetivo de longo prazo.

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