Sete em cada dez meninas grávidas no Brasil são negras. O dado está entre os muitos números e relatos reunidos pela jornalista Joyce Ribeiro em “Nem Cresci e Já Sou Mãe: Relatos sobre gravidez na adolescência”, lançado pela Geração Editorial.
Resultado de uma investigação que reúne histórias reais, entrevistas com especialistas e dados de pesquisas nacionais e internacionais, o livro analisa os efeitos da gravidez na adolescência na educação, na saúde, na autonomia e nos projetos de vida de meninas brasileiras.
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Em conversa com o Mundo Negro, Joyce Ribeiro explica que a motivação para escrever a obra surgiu após décadas acompanhando o tema como jornalista.
“Ao longo de mais de 25 anos de jornalismo, apresentei inúmeras reportagens sobre gravidez na adolescência. Mesmo com maior acesso à informação, os impactos continuam profundos quando essa gravidez acontece”, afirma.
Entre os relatos apresentados no livro estão histórias de adolescentes que enfrentaram abandono familiar, interrupção dos estudos e dificuldades para acessar redes de apoio. A obra também destaca que a gravidez precoce não pode ser compreendida apenas como uma escolha individual, mas como um fenômeno atravessado por desigualdades sociais, acesso à informação, violência e falhas na proteção de crianças e adolescentes.
Um dos episódios mais marcantes narrados na publicação foi compartilhado pela obstetra Larissa Cassiano. A médica relata o atendimento a uma menina de 11 anos que chegou a um hospital sem saber que estava grávida.
“Ela estava em trabalho de parto e gritava pela mãe”, relembra a profissional, em um caso que evidencia a urgência de fortalecer mecanismos de proteção à infância e adolescência.
Segundo Joyce Ribeiro, os desafios não terminam após o nascimento do bebê. A evasão escolar aparece como uma das consequências mais recorrentes, impactando diretamente a continuidade dos estudos e a inserção profissional dessas jovens.
A autora também chama atenção para a importância do apoio familiar e da educação sexual baseada em informação e diálogo.
“Todas as entrevistadas reforçaram que conseguiram seguir adiante porque tiveram suporte familiar, especialmente das mães”, conta.
Outro aspecto abordado no livro é a participação dos meninos e de suas famílias diante de uma gravidez não planejada. Para Joyce, a responsabilização não pode recair exclusivamente sobre as adolescentes.
“Orientar, conversar, ensinar e acolher também deve fazer parte da formação dos meninos”, afirma.
Ao longo da obra, a jornalista defende que escolas, famílias, profissionais de saúde e gestores públicos atuem de forma articulada na prevenção da gravidez na adolescência e na proteção de meninas e meninos.
A obra procura não oferecer aos leitores respostas definitivas relacionadas ao assunto, mas sim propor um debate acerca da responsabilidade coletiva, acesso à informação, proteção e oportunidades concretas para adolescentes enxergarem a possibilidade de trilhar caminhos diversos.
Ao refletir sobre a experiência de escrever o livro, Joyce Ribeiro afirma que encerra esse processo com uma percepção ampliada sobre os desafios enfrentados por meninas e jovens mães.
“Saio desta imersão com um olhar mais amoroso e protetor, especialmente em relação às nossas meninas. Espero que o livro seja ponto de partida para muitas conversas e reflexões”, conclui.
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