Mundo Negro

Frank Ocean, o sumido onipresente da comunidade queer

Foto: divulgação

Sem lançar álbum desde 2016, o cantor que contou em 2012 ter amado um homem segue gerando identificação com músicas como Forrest Gump e Chanel

Frank Ocean faz 39 anos hoje, e antes mesmo de tomar café eu já tinha colocado ele para tocar e entrado nas redes para ver se ele tinha postado alguma coisa, como todo bom fã faria, mesmo sabendo que ele não lança um álbum desde “Blonde”, que completou dez anos em agosto. Nesse intervalo, o disco seguiu crescendo sem a ajuda dele, a ponto de “Nights” viralizar em março deste ano e entrar pela primeira vez no top 10 de streaming de R&B e hip-hop da Billboard, alcançando uma geração que ainda era criança quando a faixa saiu. É comum ouvir que Frank fala pouco, que aparece pouco e que entregou pouco nessa década, e eu entendo de onde vem essa impressão, mas quanto mais penso na trajetória dele, mais me convenço de que esse homem passou a carreira inteira se revelando justamente pelo silêncio, e que o pouco que ele disse sobre si foi muito para quem é negro e LGBTQIA+.

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Esse silêncio começou antes mesmo de existir Frank Ocean, quando Christopher Edwin Breaux trocou Nova Orleans por Los Angeles, em 2005, depois que o furacão Katrina destruiu o estúdio onde gravava, e passou a assinar como Lonny Breaux, compositor de outros artistas. Foi com esse nome que ele escreveu duas faixas de “Human”, disco de Brandy de 2008, e participou da composição de “Bigger”, de Justin Bieber, e de “I Miss You”, que Beyoncé gravou no álbum “4”, de 2011. Durante anos, as palavras dele chegavam ao público na voz de outras pessoas, e eu acho isso bonito e um pouco revelador, porque o primeiro lugar artístico de Frank foi o anonimato. Quando finalmente mostrou o rosto, ao entrar para o Odd Future e lançar a mixtape “Nostalgia, Ultra”, em 2011, ele já tinha escolhido outro nome, e em entrevista à Complex daquele ano contou que mudar de nome foi a decisão mais empoderadora que tomou em 2010, porque ninguém é o próprio nome. Em 2015, a Justiça da Califórnia reconheceu o registro de Christopher Francis Ocean, e o nome que ele inventou passou a ser o dele de fato.

O lugar onde Frank decidiu aparecer também diz muito sobre o tamanho do que viria depois, já que o Odd Future era um coletivo de rap de Los Angeles liderado por Tyler, the Creator, conhecido pela provocação e por letras que usavam ofensas homofóbicas com frequência, num hip-hop que por décadas tratou qualquer desvio da masculinidade esperada como fraqueza. No mesmo ano de “Nostalgia, Ultra”, Frank cantou os refrões de “No Church in the Wild” e “Made in America”, no álbum “Watch the Throne”, de Jay-Z e Kanye West. Ele estava no centro do gênero mais masculino da música pop quando, em julho de 2012, poucos dias antes de lançar “Channel Orange”, publicou no Tumblr uma carta contando que tinha se apaixonado por um homem aos 19 anos e que aquele foi o primeiro amor da vida dele.

Essa carta é importante porque foi praticamente a única vez em que Frank falou sobre a própria sexualidade com todas as letras, e mesmo assim ele não usou rótulo nenhum nem voltou ao assunto em entrevistas. Ele contou uma história de amor e deixou que a música cuidasse do resto, tanto que “Channel Orange” chegou às lojas com “Forrest Gump”, uma canção de amor endereçada a um homem, cantada por um artista negro que vinha do hip-hop, algo que o R&B mainstream praticamente não tinha visto até então.

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Daquele disco em diante, a bissexualidade de Frank passou a atravessar a obra dele sem nunca precisar ser anunciada. Em “Good Guy”, de “Blonde”, ele narra um encontro com um homem num bar gay, e em “Chanel”, de 2017, a música abre com ele falando da beleza do namorado, numa faixa que divide espaço no repertório com canções sobre mulheres que ele amou. Em nenhum momento um desses amores aparece como fase, desvio ou exceção, e é isso que mais me toca na forma como ele escreve, porque homens e mulheres ocupam as músicas dele com a mesma ternura e o mesmo peso. Essa liberdade de não caber em uma única leitura também está na estética dos discos, como no próprio “Blonde”, que estampa a grafia “blond” na capa e leva o nome oficial “Blonde”, e em “Nights”, cuja virada acontece exatamente aos 30 minutos de um álbum de cerca de uma hora, quando a batida muda e a faixa se transforma em outra música. Já ouvi “Blonde” incontáveis vezes e essa passagem continua me pegando, porque Frank construiu uma obra que se recusa a ser lida de um jeito só, assim como ele se recusou a caber na expectativa que o hip-hop tinha sobre quem um homem negro podia amar.

Por isso fico pensando se dá mesmo para dizer que Frank fala pouco, já que ele não deu dezenas de entrevistas sobre ser um homem negro bissexual, mas espalhou esse homem em cada disco que lançou. Um artigo acadêmico recente, “Frank Ocean’s Silent Aesthetic”, defende que o silêncio ocupa um lugar central na estética dele e que funciona como forma de proteger a vida privada numa época em que todo artista é cobrado a se expor o tempo inteiro. A leitura fez muito sentido para mim, porque nunca senti a ausência dele como falta de assunto, e confesso que eu também já cobrei esse disco novo, já ri dos memes que contam os anos sem álbum e já tratei o silêncio dele como dívida com os fãs, o que me deixa com uma pergunta que ainda não sei responder, sobre o que, afinal, a gente acha que Frank Ocean nos deve.

Esse silêncio, aliás, sempre se rompeu na mesma direção, como em junho de 2016, quando, depois do ataque à boate Pulse, em Orlando, que matou 49 pessoas durante uma noite latina LGBTQIA+, Frank escreveu no Tumblr que tinha seis anos quando ouviu o pai ofender uma garçonete trans num restaurante e o arrastar para fora do lugar. O pai, Calvin Cooksey, processou o filho por difamação e pediu US$ 14,5 milhões, e Frank venceu a ação em 2017. Dois anos depois, ele organizou em Nova York a festa PrEP+, que imaginava como teria sido a noite negra e queer da cidade nos anos 1980 se a PrEP já existisse e aquela geração não tivesse sido devastada pela aids. Ele não fez discurso nenhum sobre a festa e se limitou a criá-la, e acho lindo que as poucas vezes em que saiu do silêncio tenham servido para falar dos seus e de quem veio antes dele.

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Outros artistas negros e queer escolheram caminhos mais declarados, como Syd, que dividiu o Odd Future com ele e sempre falou abertamente sobre ser uma mulher negra lésbica, e Lil Nas X, que contou publicamente ser gay em 2019, no auge de “Old Town Road”, e fez da própria sexualidade o centro de “Montero”. No Brasil, a ligação mais bonita que conheço passa por Rico Dalasam, um dos nomes que consolidaram o rap queer no país com o EP “Modo Diverso”, de 2015. Depois da disputa judicial que tirou “Todo Dia”, parceria com Pabllo Vittar, das plataformas digitais e dos ataques que sofreu nas redes, Rico ficou quase três anos sem lançar músicas novas, e voltou em 2019 com “Braille”, faixa que usa um sample justamente de “Chanel” para contar uma história de amor inter-racial pela perspectiva de um homem negro e gay brasileiro. Para mim, nada resume melhor o que Frank representa do que um artista negro e queer brasileiro atravessando o próprio silêncio e encontrando na música dele o caminho de volta.

Tudo o que Frank Ocean disse publicamente sobre a própria sexualidade se resume, praticamente, àquela carta de 2012, e talvez seja justamente por isso que a gente peça tanto a ele. Com tão pouco, se é que dá para chamar assim, ele mexeu no jeito como muita gente negra e LGBTQIA+ entende o próprio amor e lida com o que sente, e quem recebe tanto de alguém que fala tão pouco acaba sempre querendo mais. Os fãs viraram o personagem de “Thinkin Bout You”, passando a noite pensando nele sem nenhuma garantia de que ele esteja pensando na gente, e todo 28 de outubro a cena se repete, com o perfil aberto e a música tocando.

Dessa carta, porém, saíram “Forrest Gump”, “Good Guy” e “Chanel”, uma festa que devolveu à noite negra e queer de Nova York os anos que a aids tirou dela e um rapper negro e gay brasileiro que encontrou numa música dele o caminho para sair de três anos de silêncio, e quem ainda acha que isso é pouco provavelmente nunca precisou procurar a si mesmo numa música de R&B.

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