Mundo Negro

Fela Kuti e o Afrobeat, a história do criador e sua maior criação

Foto: reprodução/ Fela Anikulapo Kuti/ Getty Images

Conheça a trajetória de Fela Kuti, o nigeriano que criou o Afrobeat, enfrentou ditaduras militares e recebeu o Grammy Lifetime Achievement Award em 2026.

Fela Anikulapo Kuti nasceu Olufela Olusegun Oludotun Ransome-Kuti em 15 de outubro de 1938, na cidade de Abeokuta, sudoeste da Nigéria. Filho do pastor e educador Israel Oludotun Ransome-Kuti e da ativista feminista Funmilayo Ransome-Kuti, cresceu em uma família que já ocupava lugar central na luta anticolonial nigeriana. Fela é também o grande criador do Afrobeat, gênero musical que reformulou os rumos da música africana a partir dos anos 1970.

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Enviado à Inglaterra em 1958 para estudar Medicina, Fela optou pela música e ingressou no Trinity College of Music. Ali formou a banda Koola Lobitos, com a qual explorava uma mistura de highlife e jazz. O highlife, gênero nascido em Gana da fusão entre música regional do oeste africano e jazz ocidental, funcionou como ponto de partida para o que viria a se tornar o Afrobeat, segundo descreve o African Music Library, plataforma de documentação musical africana.

De volta à Nigéria em 1963, Fela reformulou o grupo, mas foi uma viagem posterior aos Estados Unidos que redirecionou de forma definitiva sua carreira. Em 1969, durante uma turnê de dez meses pelo país com a Koola Lobitos, conheceu em Los Angeles a ativista Sandra Izsadore, integrante do movimento dos Panteras Negras. Izsadore o apresentou aos escritos de Malcolm X e Angela Davis, experiência que Fela descreveu ao New York Times como o momento em que, pela primeira vez, viu a essência do nacionalismo negro. A partir dessa vivência, sua música passou a incorporar de forma sistemática crítica social e política, consolidando a estrutura sonora e discursiva que ficaria conhecida como Afrobeat.

De volta à Nigéria, Fela renomeou sua banda para Africa 70 e passou a atacar diretamente a corrupção e o autoritarismo dos governos militares do país. Em 1970, fundou a comuna Kalakuta Republic, que declarou independente do Estado nigeriano. O espaço reunia estúdio de gravação, casa noturna e clínica de saúde gratuita administrada por seu irmão, o médico Beko Ransome-Kuti.

O confronto com o regime militar atingiu o ponto mais grave em 1977, após o lançamento do álbum “Zombie”, que satirizava os métodos das forças armadas nigerianas. Cerca de mil soldados invadiram a Kalakuta Republic, espancaram seus ocupantes e atearam fogo ao complexo, destruindo instrumentos, fitas e gravações originais. Durante o ataque, a mãe de Fela foi jogada de uma janela do segundo andar, ferimentos que resultaram em sua morte meses depois, segundo reconstitui o portal nigeriano OldNaija a partir de documentos da época. Em resposta, Fela carregou o caixão da mãe até a sede do governo militar em Lagos e gravou o álbum “Coffin for Head of State”.

No ano seguinte, ainda marcando o aniversário do ataque, Fela trocou o sobrenome herdado do colonialismo britânico, Ransome, pelo nome iorubá Anikulapo, traduzido como “aquele que carrega a morte no bolso”. Fundou também o partido Movement of the People e concorreu à presidência da Nigéria em 1979, candidatura que foi recusada pelas autoridades eleitorais. Ao longo da carreira, foi preso repetidas vezes, incluindo uma detenção de vinte meses em 1984 sob acusação de contrabando de moeda.

Fela morreu em 2 de agosto de 1997, aos 58 anos, em Lagos, por complicações relacionadas à Aids. Sua obra levou décadas para receber reconhecimento institucional formal. Em 2025, foi introduzido no Grammy Hall of Fame. Em fevereiro de 2026, tornou-se o primeiro artista africano a receber o Grammy Lifetime Achievement Award, unindo-se a nomes como John Coltrane, Aretha Franklin e Bob Marley na lista de homenageados, conforme noticiou a NPR. Meses depois, entrou para o Rock and Roll Hall of Fame na categoria de influência musical.

A pesquisadora Randal F. Grass, em artigo publicado pela revista acadêmica African Arts e indexado no JSTOR, descreve Fela como o músico mais controverso da África, situando sua obra em um cruzamento permanente entre performance artística e enfrentamento político. Já o pesquisador Adeyemi Oikelome, em estudo publicado no Journal of Arts and Humanities, caracteriza suas apresentações como um conceito de “teatro total”, em que música, dança e elementos visuais se integravam de forma indissociável, com participação direta do público.

A estrutura sonora criada por Fela, marcada por faixas que ultrapassam dez minutos, seções de metais extensas e o chamado “endless groove”, segue influenciando artistas contemporâneos de gêneros distintos, do afrobeats atual ao hip hop internacional. Sua trajetória também inspirou o musical “Fela!”, vencedor de três prêmios Tony na Broadway, e a biografia “Fela: Esta Vida Puta”, do jornalista cubano Carlos Moore.

Seus filhos, Femi e Seun Kuti, seguem à frente de bandas de Afrobeat, mantendo viva a estrutura musical e o discurso político criado pelo pai. O neto Made Kuti também dá continuidade à obra, reforçando que o legado de Fela segue em movimento décadas após sua morte.

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