Existe um poder extraordinário em apenas sermos nós mesmos. Uma luz contagiante quando estamos com as pessoas certas! É esta energia que “Feito Pipa” exala na conexão entre Gugu (Yuri Gomes) e Dilma (Teca Pereira). Juntos, o neto de 11 anos e a avó aproveitam intensamente a vida no sertão cearense e nos tiram ótimas gargalhadas ao longo da obra.

Apesar de toda a beleza que há na relação deles, ainda existem dores causadas por uma sociedade que limita os sonhos e a liberdade. É o caso de Batista (Lázaro Ramos), um pai que não aceita o próprio filho por ele ser afeminado. Um homem homofóbico preocupado em como a criança e ele estão sendo julgados pelos moradores da região, tentando impor um comportamento heteronormativo para não serem alvos de críticas.
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Neste novo projeto, Lázaro nos lembra por que é considerado um dos melhores atores do nosso cinema. Muito querido pelo público por todo o seu carisma, ele se transforma por completo quando entra em cena ao viver o antagonista do filme — que traz a complexidade de um pai que ama e se preocupa com a família, mas que tenta impedir o filho de ser feliz ao usar maquiagem e outros adereços considerados femininos.
Enquanto isso, Yuri Gomes é uma grande preciosidade revelada no cinema, com um personagem autêntico que dança e joga futebol, tudo com muito estilo. O ator tem uma excelente versatilidade para transparecer tanto sentimentos de felicidade quanto de raiva, frustração e tristeza. É uma delícia assistir ao menino Gugu, livre dos estereótipos da masculinidade tóxica, do racismo ou da sexualização infantil, ao mesmo tempo em que só gostaríamos de protegê-lo do mundo para que não apaguem o seu brilho.
Já a nossa veterana Teca Pereira exala o poder negro e feminino em cena: ostentando o cabelo crespo e grisalho natural, vive um romance com Valmir (Carlos Francisco), dança muito no forró e faz uso de maquiagens com tons fortes e adereços que combinam com os do neto, fugindo do estereótipo de como deve agir uma mulher idosa. Depois, na mesma intensidade, retrata o drama de uma pessoa que convive com o Alzheimer, emocionando o público ao começar a sofrer com esquecimentos frequentes e ao relembrar momentos traumáticos do passado que envolvem a sua filha Elaine, mãe de Gugu.
Dilma e Gugu formam uma das melhores duplas já representadas no cinema nacional! A avó e o neto são verdadeiramente amigos um do outro, parceiros, leves e engraçados. Mas quando ela recebe o diagnóstico da doença, Gugu precisa morar com o pai e a família dele, formada pela esposa e por uma filha que tem a vida e o cuidado que ele também teria se não fosse o preconceito.
Além do drama familiar, Gugu conta com seu grupo de amigas inseparáveis. Elas também são a sua fortaleza dentro e fora da escola, enquanto ele precisa lidar com um colega preconceituoso e uma turma homofóbica. Apesar de estarem na mesma faixa etária, eles já se comportam de forma perigosa na sociedade. Neste caso, o preconceito também revela uma certa inveja, já que a perseguição contra Gugu começa por não aceitarem o seu talento no futebol.
Dirigido por Allan Deberton e roteirizado por André Araújo, o longa foi filmado em Quixadá e cidades vizinhas do interior do Ceará, passando-se às margens da barragem de Araújo Lima. O roteiro e a fotografia enriquecem toda a beleza do sertão nordestino, destacando o lazer, a diversidade, a alegria, os desafios e uma política pouco citada, mas que está presente no cotidiano e no passado de todos de forma muito sensível.
A trilha sonora também é uma grande riqueza ao enaltecer a variedade de gêneros musicais. A música-tema da obra é “Time After Time”, de Cyndi Lauper: “Se você estiver perdido, pode procurar e vai me encontrar através dos tempos”, diz um trecho da canção que emociona o público ao embalar essa dupla tão querida.
Selecionada para representar o Brasil em busca de uma indicação ao Oscar na categoria de “Melhor Filme Internacional”, a obra já acumula diversos prêmios importantes em festivais nacionais e internacionais. Essa indicação seria um grande feito para ampliar mundialmente os debates sobre a proteção às infâncias negras e LGBT+, a liberdade e a saúde das mulheres negras, além da valorização da cultura nordestina.
No entanto, como disse o próprio Lázaro Ramos na pré-estreia do longa na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, “o maior prêmio é o reconhecimento dentro de casa”.
O filme estreia nos cinemas dia 5 de novembro, mas anunciou sessões antecipadas no Festival de Cinema Brasileiro, que acontece entre os dias 29 de outubro e 4 de novembro.
Viva a pluralidade do cinema nacional!