Fazer piada racista não é racismo?

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Vamos parar com esse papo de que fulano fez, compartilhou ou riu de um comentário, uma piada ou uma situação racista e não é racista. É racista sim. Já dou o papo reto de cara. E pense na seguinte problemática: Se fosse uma pistola e o cara, por brincadeira, atirasse em alguém e matasse? Você diria que não foi um assassinato? A lei diz que mesmo sem intenção, você cometeu um crime sim (homicídio culposo), não é verdade? Então, a noção sobre o racismo, que é crime, é essa. É algo usado pra violentar – em vários sentidos – todo um grupo étnico. Portanto, tão grave quanto o cara que realmente levanta da cama com a força do ódio por etnias diferentes da branca.

E o pior são as argumentações. É um tal de aparecer candengo – sei lá de onde – dizendo tanta coisa, que resolvi separar umas frases. Típicas de quem é, apoia ou faz vista grossa pra racismo. Vamos lá? Bora.

– Ele fez/riu/compartilhou/fez vista grossa pra piada racista, mas não é racista.

O problema dessa frase é diretamente ligado ao primeiro parágrafo do texto. Como você pode simpatizar com algo sem ser? Pra ser, teria que ter alguma credencial? Não. Então, já que não precisa vir assinado no RG – como doação de órgãos – acho que se você achou de boas, você é. Não tem jeito de você presenciar um sequestro, achar engraçado e mandar no grupo do zap como piada e significar que você lacha o assunto sério.

– Ele foi mal compreendido

Se você reparar bem, todas as frases se resumem a um conceito só, que é botar pano quente (que é o que se diz hoje ‘passar pano’, sou da antiga). Essa é um desdobramento do item anterior, só que mais conceitual. Aqui, não se livra a cara de quem publicou o racismo, diretamente. Esse item meio que nos tira como quem tem problemas cognitivos e nos culpa como as pessoas que não entendem as coisas direito. Dizem que a intenção era outra e houve uma reação exagerada. O que nos leva ao item a seguir.

– Era só uma piada

Eu sempre falo, há anos, piada NUNCA é SÓ uma piada. Quem conta uma piadoca aqui e ali, pra descontrair o grupo de amigos ou família, pode não ter feito, mas se compartilha ou ri, concorda com aquele conteúdo, certo? Se achasse errado, deletaria ou faria uma ressalva do quanto achou aquilo errado. Piada é uma peça de comunicação, como um artigo, um filme, uma música, etc. Mesmo que não seja o que você tem em mente todo dia, ainda é algo que você achou que seria legal de fazer ou repassar, portanto, é uma parte do que você pensa sim.

– Não sejamos hipócritas

Essa aqui é a que mais entrega uma mente racista e é até, ironicamente, engraçado perceber como se surpreendem quando eu falo ‘ei, é disso que eu tô falando’. Sabe quando a pessoa perde totalmente o argumento e dá um momento ‘tela azul’ de silêncio absoluto? Também chamado de ‘fazer o Alexandre Garcia’, rá! É isso. Porque quem diz que acusar racismo numa piada ou numa frase é hipocrisia é porque a pessoa realmente acha seu racismo interior naturalizado. Não enxerga como isso poderia ter relação com o racismo estrutural que vemos aí todo dia mais descarado do que velado. Se hipocrisia é pregar algo que não se pratica, então, quem nos chama de hipócritas quer pensar (?!) – ou gostaria – que todos achassem uma piada racista engraçada.

– Não sou racista, tenho amigos/parentes negros

Esse item aqui é um clássico, né? E já respondo: Do pior amigo/parente de todos. Isso é coisa de quem quer parecer próximo pra dar aquela enganada de que fez uma brincadeira sadia por ter confiança na afinidade com o alvo do comentário, da piada. Não tem. Se tem, é aquele tipo que faz amizade com negros, mas tem em mente que é superior e pode fazer o amigo/parente de capacho. É uma síndrome de sinhazinha danada (e quem aceita, saia desse relacionamento tóxico já!). Pergunte se a pessoa diria isso sobre esfaquear alguém. Ela responderia “esfaqueei um negro, mas é porque tenho amigos/parentes negros” e você terá sua conclusão. E nem vou desenrolar sobre quando dizem que queriam ser negros ou que têm alma negra que vai cair no mesmo item, né? É só perguntar se a descrição de amor e amizade pra essas pessoas é o escárnio, abuso psicológico e violência. 

– Ah, eu sou assim mesmo/sou um menino/onde eu cresci se fala assim

Essa é perigosa. Porque tem uma dose de cinismo, mas mexe com o racismo estrutural. O que faz o senso comum pensar (?!) que destratar o negro é engraçado, ou pior, uma forma de carinho. Sabemos bem a diferença entre estar num grupo de amigos, onde um xingamento pode, claramente, ser uma brincadeira. É preciso um baita nível de confiança e intimidade pra isso. Comparações com objetos e animais ou associações à criminalidade nada têm a ver com isso. Diga pro sonso inocente que tá errado e pare de falar com essa pessoa. Ah, e espalhe a notícia. Por prevenção social a algum irmão ou irmã que tope com essa pessoa lá na frente.

Enfim…

 Não citei um único episódio, porque isso acontece o tempo todo na internet – e em grupos de whatsapp (alô tiozão do zap!). Mas deixei links espalhados no texto pra quem quiser conferir os que mais me deixaram inquieto diante do teclado. Claro que têm muito mais de onde esses vieram, mas acho que não precisa, né, minha gente? Não à toa, a maioria – se não todos – dos itens citados são repetidos, com frequência, por pessoas relacionadas a artes, jornalismo e comédia. No geral, é quando o cara quer ser o engraçadão do fundão da sala da quinta-série (que você pode sair dela, mas em muitos caso, não sai de você).

É triste, mas é verdade que muitos usam trabalho como desculpa pra fazer rir. E ainda conseguem. Irrita quando começam a argumentar que isso é só brincadeira. No dos outros é refresco, vovó já dizia. Já pensou, espancar alguém e dizer que a pessoa tem que levar isso na brincadeira, porque não tá doendo em quem bate? Se não pensam aquilo, no barato, confiaram que tem público pra gostar, o que não é tão distante assim do racismo, né? A comparação que me vêm a cabeça é que quem joga o cordeiro pro lobo tem as mãos sujas de sangue como se tivesse atirado com as próprias mãos, entende?

E quem defende é igual, tá? Você não defenderia um pedófilo ou um serial killer, então porque defender racismo sempre é relativizado como uma tentativa sonsa e maldosa ingênua de fazer algo que deu errado por acaso? E que muitos, por concordar à boca pequena, ou apenas corporativismo preventivo, defendem. Preventivo que eu digo, é aquilo errado que alguém defende, porque sabe que pode dar motivos pra ser o alvo no futuro, então, já faz aquele trato esperto de proteção mútua com o errado da vez. Finalizo com uma frase do filósofo Goethe:

Nada descreve melhor o caráter de um homem do que aquilo que ele acha ridículo”. Reflita e leve a refletir.

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