“O mercado americano entendeu há muito tempo que mulheres negras não produzem só o commodity da representatividade. Nós produzimos linguagem, audiência, franquias, dinheiro”. A cineasta, roteirista e diretora Luh Maza desabafou sobre um grande incômodo na indústria do streaming nacional: as plataformas continuam excluindo mulheres negras e pessoas trans dos cargos de showrunner (liderança criativa e de gerenciamento de séries) e dão as costas para o modelo de sucesso bilionário dos Estados Unidos.
Roteirista de sucessos dos streamings como ‘Os Quatro da Candelária’ e ‘Da Ponte Pra Lá’, Maza utiliza a própria história das matrizes norte-americanas dessas plataformas para expor o atraso do mercado brasileiro. Nos EUA, nomes que moldaram a história da televisão e do streaming são mulheres negras que ditaram — e ainda ditam — regras de mercado, audiência e faturamento.
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A cineasta relembra referências incontestáveis que provam o valor comercial e cultural de ter narrativas diversas chefiadas por quem as vivencia:
- Shonda Rhimes: Uma das maiores e mais lucrativas showrunners da história da TV mundial.
- Oprah Winfrey: Pioneira que desbravou a função e fundou impérios de mídia.
- Issa Rae, Michaela Coel e Lena Waithe: Roteiristas e criadoras contemporâneas que transformaram a cultura pop global e geram franquias de sucesso.
- Janet Mock: A primeira mulher trans e negra a ocupar o cargo de showrunner e diretora na TV americana.
Enquanto a indústria global fatura alto apostando na genialidade dessas mulheres, Maza aponta que, no Brasil — um país de maioria negra e majoritariamente composto por mulheres —, o cenário é de completo apagamento. “Nós não temos sequer acesso real à possibilidade de contar as nossas histórias, porque os nossos projetos já chegam tortos para essas executivas”, afirma.
A crítica de Luh Maza toca em um ponto sensível sobre a divisão do poder no audiovisual brasileiro. Ela chama a atenção para o fato de que a maior parte das cadeiras de tomada de decisão nas plataformas é ocupada por mulheres brancas. No entanto, a escolha delas para a liderança criativa recai quase sempre sobre o mesmo perfil.
“A maioria esmagadora dos showrunners, que são os líderes criativos das séries que elas escolhem, são homens — homens brancos e cisgêneros”, pontua a diretora. “Até a proporção de mulheres brancas nessa função é irrisória. Mulheres negras, nenhuma. Mulheres negras e trans, menos ainda.”
Diante dessa barreira, a cineasta questiona diretamente a postura das profissionais brancas que gerenciam esses fundos de produção. “Eu não sei se elas não entenderam qual deveria ser as suas funções ou se estão exercendo exatamente o papel para o que foi designado a elas, agindo como se fossem porteiras de um prédio de alto padrão, julgando quem pode entrar, quem pode permanecer e quem ameaça demais o ambiente do edifício”, desabafa Maza.
A diretora sublinha que a branquitude que lidera esses processos é diretamente responsável pelo estado criativo, financeiro e psicológico das profissionais negras e trans que tentam sobreviver no mercado. Ela deixa, ainda, um alerta sobre a volatilidade dos cargos corporativos: “Vocês são funcionárias, não as donas dessa cobertura. E na dança das cadeiras da indústria, uma hora também vai faltar para vocês se sentarem.”
Ao revelar que sua trajetória é marcada por histórias absurdas de constrangimento, manipulação e apagamento — “como se o lugar reservado para mim já estivesse delimitado antes mesmo de eu chegar” —, Luh Maza enfatizou que começará a expor essas vivências publicamente.
O objetivo, segundo ela, é mostrar que o problema não é uma insatisfação individual, mas sim uma engrenagem estrutural que sabota o progresso de profissionais negros. Ao abrir o canal para que outras pessoas compartilhem suas experiências, a cineasta convoca o mercado a romper a demagogia e as desculpas.
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