Nanã, a orixá mais velha do candomblé, ensina através de seus itans que esperar não é ficar parado, mas confiar no tempo próprio de cada conquista
O sató, ritmo grave e vagaroso reservado a Nanã, obriga o corpo a desacelerar antes mesmo de o transe começar. Os passos são curtos, os punhos cerrados, as mãos estendidas à frente, uma sobre a outra, como quem apoia um bastão e ampara um corpo cansado de uma longa jornada. Não há pressa nesse movimento porque não há pressa em Nanã, e quem já viu essa dança entende, antes de qualquer explicação, que está diante da orixá mais antiga do panteão.
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Nanã chegou ao culto iorubá vinda de mais longe do que a maioria dos orixás que hoje dividem terreiro com ela. De origem jeje, do antigo reino do Daomé, na região que corresponde ao atual Benin, seu culto é anterior à própria formação do panteão nagô-iorubá, e pesquisas de Pierre Verger indicam que, nas terras onde ela era originalmente cultuada, ocupava um posto hierárquico próximo ao de Olorum, a divindade suprema. Quando os povos nagôs entraram em contato com o Daomé, Nanã foi incorporada à mitologia iorubá sem perder o peso que já carregava, e é exatamente essa antiguidade que a tradição preserva quando a chama, com carinho e reverência, de avó.
Foi Nanã quem entregou a Oxalá o barro primordial retirado do fundo das águas paradas, e foi com esse barro que os primeiros corpos humanos foram moldados. Antes de sermos gente, fomos lama, e é para essa lama que a tradição afirma que retornamos ao fim da vida. Não por acaso, Nanã é chamada de senhora da morte em muitas casas de candomblé, mas o ensinamento que os terreiros guardam não trata a morte como interrupção brusca. Trata-a como continuidade, o fechamento de um ciclo que abre espaço para outro começar, da mesma lama de onde tudo partiu.
Essa relação entre origem e retorno explica por que Nanã é tão associada às águas que não correm, os pântanos, os mangues, os lagos profundos, os lugares onde nada se move depressa. Um rio corre porque busca o mar. Um pântano simplesmente é, e permanece sendo, guardando em silêncio o que se decompõe em sua superfície até que a decomposição vire, de novo, matéria de vida.
Um dos itans mais conhecidos sobre Nanã narra o dia em que os orixás se reuniram para decidir qual deles era mais indispensável à humanidade. Ogum, senhor dos metais, reivindicou o posto, e a maioria concordou, já que o ferro havia trazido caça, ferramenta e progresso a todos. Nanã foi a única que discordou, e Ogum a desafiou a provar que conseguiria viver e realizar seus rituais sem nada do que ele fabricava. Ela aceitou. A partir daquele dia, Nanã declarou que jamais usaria o que vinha de Ogum, e seus filhos, caçadores, passaram a abater os animais destinados a seu culto com facas de madeira em vez de metal, prática que os terreiros mantêm até hoje.
O que essa disputa ensina não é apenas sobre resistência, mas sim, sobre a diferença entre o que parece indispensável no momento e o que de fato sustenta alguém no tempo. Ogum ofereceu velocidade, o corte rápido, a ferramenta eficiente. Nanã escolheu o caminho mais lento, o pedaço de madeira lascado à mão, e não perdeu poder algum por isso. Ao contrário, seu culto segue firme séculos depois, provando que aquilo que se constrói sem pressa não precisa da urgência de ninguém para se manter de pé.
O culto a Nanã atravessou o Atlântico dentro da tradição jeje, distinta da nagô que trouxe a maioria dos orixás mais populares no Brasil, e por isso Nanã costuma ocupar um lugar mais discreto nos terreiros urbanos, cultuada com a mesma seriedade, mas sem o alarde que cerca outros nomes do panteão. Seu emblema é o ibiri, um cetro de palha da costa entrelaçado com talos de dendezeiro e búzios, usado para afastar espíritos e energias que atrapalham a passagem entre um estado e outro. No Brasil, seu culto foi aproximado de Sant’Ana, avó de Jesus na tradição católica, e as duas são celebradas na mesma data, 26 de julho, uma coincidência de calendário que os terreiros transformaram em ponte entre duas ancestralidades femininas.
Numa sociedade que mede valor pela velocidade de quem chega primeiro, pedir a Nanã é pedir o oposto do que se costuma pedir aos orixás mais aclamados. Não se pede a ela um atalho, porque atalho não é da natureza de quem escolheu o bastão em vez da faca afiada, o passo curto em vez da corrida. Pede-se paciência, e paciência, na tradição que Nanã representa, não significa ficar parado esperando que a vida aconteça. Significa acalmar o coração o suficiente para reconhecer o próprio tempo das coisas, seja uma carreira que se constrói alicerce por alicerce, seja um relacionamento que amadurece porque duas pessoas resistiram à pressa de queimar etapas.
O barro que Nanã entregou a Oxalá não virou gente da noite para o dia; ele precisou de tempo para secar, tempo para tomar forma, tempo para receber o sopro que o transformou em vida. É esse mesmo tempo que a tradição pede a quem chega até ela, não a certeza de que tudo vai dar certo rápido, mas a confiança de que o que é de fato seu vai até você, no momento em que estiver pronto para sustentar o peso do que pediu.
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