Elza Soares cantou o que muitas mulheres viviam e o Brasil preferia não ver. Conheça as músicas que se tornaram hinos de resistência feminista e antirracista.
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O registro oficial aponta o nascimento de Elza da Conceição em 23 de junho de 1930, na favela da Moça Bonita, subúrbio carioca de Padre Miguel. A própria cantora, contudo, desconfiava do papel; acreditava ter nascido anos depois. A divergência burocrática escondia uma violência precoce: a adulteração de sua idade pelo pai para forçá-la a um casamento aos 12 anos. O episódio antecipava o Brasil que Elza enfrentaria, um país que frequentemente utiliza seus mecanismos oficiais para chancelar abusos.
A trajetória pessoal da artista confunde-se com a própria crônica das vulnerabilidades brasileiras. Viúva aos 21 anos e mãe de cinco filhos, Elza vivenciou o luto de perder quatro deles ao longo da vida. Conheceu a violência doméstica em dois casamentos e, em 1970, viu sua residência no Jardim Botânico ser metralhada pela repressão da ditadura militar enquanto o companheiro, o craque Garrincha, e os filhos estavam no imóvel. O episódio forçou o casal ao exílio na Itália, onde foram amparados por Chico Buarque.
Elza Soares despediu-se em 20 de janeiro de 2022, aos 91 anos, por causas naturais. Deixou o plano físico dias após concluir as gravações de um novo álbum, mantendo o pacto com o ofício até o último fôlego.
Ao longo de 35 discos e mais de seis décadas de carreira, Elza demonstrou uma lucidez artística precisa. Seu repertório focado em racismo, machismo e violência doméstica nunca foi uma adesão oportunista a pautas sazonais, mas sim o eco de suas próprias cicatrizes. A cantora compreendia o poder de penetração da música, uma arte capaz de furar bolhas intelectuais, ecoar em rádios populares e ocupar as ruas.
Essa postura combativa manifestou-se de forma pioneira no início dos anos 1980. Em uma época em que os maus-tratos domésticos eram confinados ao silêncio das residências, Elza ocupou o sofá do programa TV Mulher, na TV Globo, para pautar o assunto em rede nacional. O gesto corajoso inspirou, décadas mais tarde, o compositor Douglas Germano, que presenciara as agressões sofridas pela mãe na infância, a escrever a canção que se tornaria um dos maiores hinos de resistência da música brasileira contemporânea.
"Cadê meu celular? Eu vou ligar pro 180 / Vou entregar teu nome e explicar meu endereço / Aqui você não entra mais, eu digo que não te conheço."
— Maria da Vila Matilde (Douglas Germano)
Gravada em 2015 para o aclamado álbum A Mulher do Fim do Mundo, quando Elza já contabilizava 85 anos, “Maria da Vila Matilde” transcendeu as plataformas de áudio. O refrão “Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim” virou palavra de ordem em protestos, como as manifestações que tomaram a Câmara Municipal do Rio de Janeiro após o assassinato da vereadora Marielle Franco, em 2018. A urgência da faixa permanece infelizmente atual: dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública revelam que, no Brasil, a maioria expressiva dos feminicídios é cometida por parceiros ou ex-companheiros das vítimas.
A Mulher do Fim do Mundo marcou um ponto de inflexão na discografia de Elza ao ser seu primeiro trabalho composto exclusivamente por faixas inéditas. Sob a produção de Guilherme Kastrup e cercada pela vanguarda musical paulistana, a intérprete reuniu samba, rock distorcido, rap e música eletrônica em um repertório que conquistou o Grammy Latino.
As faixas desse período revelam uma honestidade brutal:
- “A Mulher do Fim do Mundo”: Na faixa-título, o verso “Eu sou e vou / Até o fim cantar” ganha contornos de manifesto existencial, amparado pela densidade de uma voz que sobreviveu ao silenciamento.
- “Língua Solta”: Desmistifica a coragem ao apresentá-la não como uma ausência de medo, mas como uma reação coletiva e hesitante diante do horror.
- “O Que Se Cala”: Faixa de abertura do álbum seguinte, Deus É Mulher (2018), inicia-se a cappella. A voz de Elza surge nua, sem instrumentos, reivindicando para si o direito à narrativa histórica da mulher negra.
- “Dentro de Cada Um”: Rejeita eufemismos literários ao retratar a violência de forma crua, expondo as marcas físicas e psicológicas do abuso.
Outro marco fundamental de sua discografia é a releitura de “A Carne”, gravada originalmente em 2002 no álbum Do Cóccix Até o Pescoço. Composta por Marcelo Yuka, Seu Jorge e Ulisses Cappelletti, a música ganhou contornos definitivos na interpretação de Elza. Ao cantar que “a carne mais barata do mercado é a carne negra”, a artista explicitou a indissociabilidade entre gênero e raça no Brasil. Anos mais tarde, ciente do impacto de sua luta, Elza ressignificou o próprio clássico ao afirmar publicamente que a carne negra já não era a mais barata: “Vale uma tonelada”.
Eleita em 1999 como a “Cantora do Milênio” pela corporação britânica BBC, Elza Soares consolidou uma obra que se recusa a envelhecer como mera peça de museu. Suas canções operam hoje como ferramentas pedagógicas e manifestos sociais, mantendo viva a postura de uma artista que se recusou a dourar a pílula da realidade, transformando a própria biografia em um espelho incômodo e necessário para o Brasil.
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