Elvis Presley e a Apropriação Cultural do Rock

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O verdadeiro rei é quem tem a criatividade de criar. quem apenas pega pronto e coloca seu privilégio branco pra render é só alguém que encontrou a chance e se aproveitou.

Apropriação cultural é o processo de um grupo dominante pegar algo de um grupo oprimido, moldar do jeito que achar mais promissor pro seu retorno financeiro e prestígio social e, com isso, tomar o lugar do grupo originário. Didaticamente, é sobre o negro lançar a moda e o branco impor seus limites e faturar no seu lugar. Isso esvazia a propriedade de quem criou e banaliza, ou melhor/pior, comercializa a coisa de modo que quem criou continua à margem, muitas vezes nem podendo mais exercer sua cultura. Sério, já vi muita gente dizendo – inclusive pra mim – que procurasse um pagode, pois “rock não é coisa de preto”. Isso, eu falo de uma fase minha na juventude quando fui baixista de uma banda de rock, lá o início dos anos 2000.

Então, amizades, o rock foi muito apropriado pelo branco estadunidense sim. Não só nos EUAses, mas também na Inglaterra, outro polo muito produtivo na arte de pegar o que tinha de bom na cultura negra e fazer como se tivessem inventado. Veja bem, é diferente do futebol, que eles criaram, mas os daqui elevaram a um patamar de arte. O lendário futebol arte do Brasil pode ter ofuscado seu país criador por um tempo, mas nunca o impediu de fazer a sua parte. O rock, inclusive, chegou a ser apontado como música de baderna, um barato que logo, logo, não ia durar. Mas durou o suficiente pra crescerem olhares sobre o potencial lucrativo.

Uma cena curiosa é o clássico momento em que Marty McFly (De Volta Para o Futuro), quando viajou para o passado e conheceu seus pais ainda adolescentes. Ele pega a guitarra e toca Johnny B. Goode (de Chuck Berry). O que era pra ser uma piada, se torna um ponto bem problemático se… er… problematizarmos a sequência. É que trata-se de um garoto branco, classe média e roqueiro dos anos 1980. Ele canta a canção e deixa todos chocados, por sua performance deveras enérgica E por ser uma música diferente de tudo que sua classe social tinha visto até aquele momento (1955). Aí, os únicos negros de todo elenco, a banda que toca no baile da escola, tem um integrante que vai para os bastidores, liga para Chuck Berry, se identificando como seu primo e o põe para escutar, por parecer com a música estava buscando fazer.

Queria dizer que De volta Para o Futuro é uma das franquias que sempre mais gostei, pela questão de viagem no tempo e referências pop, etc. Mas sempre que assisto a esse momento, dá aquela pontinha de militância eternamente em modo ON: Pô, os caras acharam que era engraçado insinuar que Chuck Berry plagiou um garoto branco pra compor seu maior sucesso? Tem noção de como a apropriação cultural se moveu de forma invertida? Eu até gosto de paradoxos temporais, ficção científica e tals, mas como foi só uma piada isolada, sem ninguém pra questionar, ficou muito vago. Muito a cara de quem não se importa em pegar tudo que acha na prateleira sem perguntar se está à venda. A ironia é que o filme foi muito lucrativos. Tendo a canção de Berry na trilha sonora como um dos pontos mais altos.

Outro exemplo cinematográfico é o excelente Dreamgirls. Temos um momento em que o produtor e empresário sem muitos escrúpulos (Jamie Fox) propõe passar uma música que era sucesso na voz das meninas para um cantor branco. Ao se deparar com a revolta delas, ele explica que é preciso lançar a música por um canal que dê maior visibilidade. E um branco, obviamente, vende mais que um grupo de mulheres negras, saca? Aí, ele dá o exemplo que sempre me crepita os genes: Hound Dog. Essa música, eu conhecia desde pequeno como sucesso na voz de Elvis Presley. Até eu descobrir que foi Big Momma Thornton (artista, mulher e preta) quem gravou primeiro. Mas como eu não soube disso na mídia e muito mal por material especializado de música, sobretudo de rock? A história das vitórias negras, se não pesquisar bem, jovem, não acha.

Resposta simples e direta: Porque a mídia não se importa. Elvis foi alçado como o ‘rei do rock’ e ninguém reclamou. Diz-se que inclusive, o investimento nele foi porque sua voz encorpada emularia o timbre negro, já que a TV era muito menos visada do que o rádio. O que é até indiferente, a arte toda já tava ali pronta e envolvente. Não foi porta-voz, pegou o brilho pra protagonizar. Mas isso gera um efeito cascata e vai desaguar na criação de um nicho onde todo produtor vai querer seu próprio Elvis. Lembre aí a quantidade de artistas que surgiram nos anos de 1950/1960. Elvis só foi o maior expoente, mas a apropriação foi muito mais longe. Lembre que em 1950/1960 as tensões raciais eram ainda maiores do que hoje (e muito menos televisionadas, num mundo sem internet relatando tudo em tempo real).

E o resultado é que, para o mundo, o rock já veio branco e pop (sim, a roupagem ritmica se manteve, mas muito suavizada pro branco médio consumir sem medo de parecer aquele som de preto que ouviam por aí). Veja como o negro foi apagado do rock no cenário que lhe seria mais rentável e produtivo. Tomemos o Brasil como exemplo. O que chegou aqui e o que nasceu dali foi um sem número de artistas e bandas brancos, com pouquíssimos negros envolvidos. Pelo menos em relação à proporção de brancos. Assim como acontece com tudo no mundo dominado por você sabe quem, eles pegaram um jovem com a cara do galã que queriam ensinar o mundo a amar.

E a coisa deu tão certo pra eles que quando, recentemente, Quincy Jones declarou que Elvis era racista, colunas e youtubers mundo afora contestaram isso. Como o maior ícone do rock mundial teria algum defeito? Temos que ter ciência que assumir um mérito em lugar de outrem sem apontar seus próprios holofotes, é sim, um apagamento, portanto, uma atitude que corrobora com o racismo. Peca por omissão. Um bom exemplo de como a apropriação funciona é o lindo This Is America, de Childish Gambino (que pra mim sempre será Donald Glover, de Community, rá). No clipe, repleto de simbologias sobre como a ‘America’ trata os negros, há um gesto recorrente de Childish – personificando o país – que fica frequentemente olhando jovens negros dançando e reproduz seus passos, enquanto mata negros de formas variadas e violentas. Isso é a América, não dê bobeira. Mas esse é um rap, papo pra outro texto.

https://www.youtube.com/watch?v=wxoGvBQtjpM

O que eu acho?

A América e o mundo ainda não deram conta de reparar nem a apropriação histórica, que dirá apenas o recorte musical do rock. Esse tema vai longe. Faço a seguinte citação:

“Meu amigo Chuck Berry é o rei do rock. Presley era apenas um príncipe que lucrava com o talento real de um governante soberano investido de tremenda criatividade. Se Berry fosse branco, ele poderia ter assumido corretamente o trono de [Presley] e usado bem sua coroa”.

Chicago Defender (jornal afroestadunidense).

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