As vozes e as mãos negras que sustentam a tradição doceira de Pelotas (RS) ganham novo destaque no ambiente digital. A produção do projeto “As Mulheres Por Trás dos Doces” está disponível gratuitamente para o público no YouTube. O lançamento audiovisual coroa a iniciativa das fotógrafas Andressa Santos e Gabriela Cunha, que busca reparar uma lacuna histórica e dar rosto às verdadeiras guardiãs desse patrimônio imaterial.
Embora o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) tenha reconhecido as tradições doceiras de Pelotas em 2018, a narrativa oficial frequentemente apaga o protagonismo negro. Se a origem dos doces é portuguesa, a execução e a sobrevivência das receitas no século XIX passaram, obrigatoriamente, pelas mãos de mulheres negras escravizadas nas cozinhas das charqueadas e casarões.
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Um caso emblemático é o do Quindim, uma releitura da “Brisa do Lis” portuguesa que só se tornou o pilar da identidade gaúcha após receber o toque ancestral do coco pelas mãos africanas.
O projeto rompe o silêncio entre o centro e a periferia ao registrar o cotidiano e a memória afetiva de seis mulheres fundamentais para essa engrenagem cultural:
- Claudete Lessa, Sônia Mara Farias e Marli Bandeira: Lideranças do Kilombo Urbano Ocupação Canto de Conexão, onde coordenam a “Cozinha das Mais Velhas” — espaço que une o preparo do alimento ao combate à insegurança alimentar e ao repasse de saberes aos jovens.
- Lígia Maria Ribeiro: Uma das fundadoras da Cooperativa dos Doceiros de Pelotas na década de 1980 e peça-chave na criação da Fenadoce e da consolidação da Rua do Doce.
- Cibele e Cíntia Costa: Representantes da continuidade familiar à frente da marca Doces Vô Jordão, fundada nos anos 1960.
O registro vai além da culinária; é um manifesto sobre resistência e memória afetiva, documentando como essas técnicas foram preservadas em cozinhas domésticas e quintais distantes, muitas vezes à margem das certificações oficiais que priorizam o capital em detrimento da tradição oral.
Além do fotolivro — lançado fisicamente no Museu do Doce da UFPel —, o documentário de 30 minutos agora cumpre sua missão de democratização do acesso. Ao disponibilizar a obra na maior plataforma de vídeos do mundo, a produção garante que a história contada a partir da perspectiva de quem preservou a tradição oral e a economia criativa de Pelotas alcance o reconhecimento global que a história oficial tentou ocultar.
O documentário completo pode ser acessado diretamente no YouTube, no canal oficial da produtora fuzzz lab.