Dia10 de outubro é o Dia Mundial da Saúde Mental e eu quero começar por uma pergunta. Já parou para pensar, você que me lê agora, quanto da sua energia do dia foi gasta antes mesmo de você chegar no trabalho? No cálculo de qual roupa usar para não ser confundido, nas horas de ônibus num dia de chuva, no metrô ou no trem lotado que de repente deixou de funcionar, na frase que você ensaiou doze vezes antes de falar na reunião, no sorriso que você abriu para desarmar uma sala que já tinha decidido alguma coisa sobre você, na agressão que você aguentou em silêncio ontem e que dói até hoje.
Notícias Relacionadas

Nada disso tem código no sistema de saúde, nada disso entra em prontuário, e mesmo assim consome. Consome, e ainda assim tem manejo, então eu te apresento hoje ferramentas para lidar com esse peso de um jeito positivo, e vale ler até o fim.
A palavra crise vem do grego krisis, que quer dizer decisão, e vem do verbo krinein, separar, julgar, escolher. Na medicina antiga, a crise era o dia em que a doença virava, o momento em que o corpo decidia para que lado ia. Guarde isso, porque é a melhor notícia que eu tenho para dar hoje: crise, na origem da própria palavra, é ponto de virada e não sentença.
Pois bem, no relatório Saúde nas Américas 2026, que a Organização Pan-Americana da Saúde publicou em 29 de setembro de 2026, os transtornos mentais aparecem como a principal causa de anos vividos com incapacidade em todo o continente. Não é a terceira, não é a quinta, é a primeira. E no agrupamento de países onde o Brasil está, os transtornos mentais são a terceira maior causa de perda de saúde, atrás apenas das doenças cardiovasculares e dos cânceres. O mesmo relatório mostra que a parcela da carga de doença que vem de anos vividos com limitação, em vez de morte precoce, subiu de 38% em 2000 para 44% em 2023. Quer dizer que o adoecimento do continente deixou de ser principalmente aquilo que mata rápido e passou a ser cada vez mais aquilo que limita devagar.
Tem um dado nesse mesmo documento que eu li três vezes para ter certeza. Ao listar o que faz as pessoas não procurarem atendimento, a OPAS cita a qualidade percebida do cuidado, a burocracia, as experiências anteriores e a discriminação, e completa dizendo que são justamente as coisas que as pesquisas quantitativas costumam não capturar. Está escrito lá, num relatório técnico de 148 páginas: a discriminação afasta gente do cuidado, e a gente não sabe medir isso direito.
O preço de chegar lá
Quem já tinha medido, quarenta e cinco anos atrás, foi uma psiquiatra negra brasileira. Em 1981, no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Neusa Santos Souza defendeu uma dissertação que virou o livro Tornar-se Negro, publicado em 1983 e reeditado pela Zahar. Ela entrevistou dez pessoas negras em ascensão social, cruzou Freud com Frantz Fanon, e descreveu com precisão clínica o que custa subir.
A formulação dela que mais me atravessa é a do ideal de ego. O discurso racista é introjetado, passa a operar por dentro, e a pessoa negra acaba elegendo o branco como modelo daquilo que deveria ser, numa meta que por definição não se alcança. O resultado que ela descreve tem nome técnico e sintoma concreto: sofrimento melancólico, perda de autoestima, culpa, insegurança, retraimento e ansiedade, nascidos da distância entre o que se é e o ideal impossível que se persegue. E ela observa uma coisa que eu reconheço em muita gente da minha geração, inclusive em mim: o racismo internalizado empurra a pessoa a querer ser a melhor em tudo, o tempo inteiro, porque ser apenas boa parece insuficiente para justificar a presença.
Aliás, como cirurgião que mede rosto para viver, tem uma frase do livro que eu carrego para a sala de cirurgia: é a autoridade da estética branca que define o belo e, por consequência, define o feio. Fanon, em Pele Negra, Máscaras Brancas, de 1952, já tinha mapeado essa mesma engrenagem por outro caminho, mostrando como a pessoa negra aprende a se olhar com os olhos de quem a colonizou, e como a máscara que se veste para ser aceita vai ficando pesada até virar sintoma. A saída que a Neusa aponta no fim do livro não é mística nem é fácil, é desidentificar-se daquele ideal e construir uma identidade negra positiva, o que se faz com apoio, com gente ao redor e, muitas vezes, com ajuda profissional.
O silêncio, a raiva e o amor
Audre Lorde, poeta e ensaísta negra americana, escreveu uma frase que virou patrimônio: seu silêncio não vai te proteger. Está em Irmã Outsider, reunião de ensaios e conferências dela publicada no Brasil pela Autêntica, na tradução de Stephanie Borges, e vale ler inteiro. Lorde escreve sobre a raiva de quem sofre racismo sem pedir que essa raiva seja engolida, e isso importa especialmente para a mulher negra, que é diariamente convocada a ser forte e serena enquanto segura o que ninguém vê. A proposta dela é que a raiva seja informação e combustível, direcionada para mudança, em vez de ficar apodrecendo por dentro e cobrando depois a conta no corpo. No mesmo livro ela trata do outro lado dessa moeda, que é a capacidade de sentir alegria e prazer como fonte de força, e não como luxo de quem não tem problema.
Então a primeira indicação prática de hoje é a mais barata que existe e também a mais difícil: fale. Diga em voz alta para alguém que você confia que a semana está pesada. Verbalizar não resolve sozinho, mas tira o problema do lugar onde ele cresce melhor, que é na solidão do silêncio.
Os pratos
Eu gosto de pensar a saúde como aquele equilibrista de pratos girando em varetas. Em nenhum momento da vida todos os pratos estão perfeitos ao mesmo tempo, e tudo bem, o truque é que quando um começa a bambear você não larga os outros, você segura os outros com mais firmeza justamente para ter tempo de voltar naquele. Quando o prato que balança é o da cabeça, os três que você precisa segurar são estes.
Movimento. Qualquer atividade física, na intensidade que couber no seu dia, inclusive caminhada. Vinte a trinta minutos, de preferência com luz do dia batendo em você, que ajuda a regular o relógio biológico junto.
Comida. Três refeições de verdade, com comida que você reconhece, e atenção especial ao álcool, que alivia duas horas e piora a ansiedade e o sono nas vinte e duas seguintes.
Sono. Quantidade e qualidade, as duas coisas. Horário parecido para deitar e levantar, quarto escuro, tela longe da cama. Sono ruim não é consequência da ansiedade apenas, ele também alimenta a ansiedade, e esse é um dos poucos ciclos que a gente consegue quebrar sem receita.
E tem um quarto prato que não é individual, que é a sua gente. Família, amigos, roda de samba, time, terreiro, igreja, grupo de corrida, o que for seu. Ambiente saudável e rotina preservada não são detalhe de bem-estar, são fator de proteção, e isso vale especialmente agora, porque o país acaba de atravessar um domingo de eleição e vive dias de tensão coletiva, com notícia o tempo todo, discussão em mesa de almoço e gente dormindo mal. Período assim é gatilho conhecido para crise de ansiedade e para piora de quadro depressivo, em qualquer pessoa e em qualquer opinião. Se você percebeu que está mais irritado, mais acelerado ou mais apagado nestes dias, não é fraqueza sua, é resposta previsível do organismo a um ambiente tensionado, e ela passa melhor com rotina mantida, com convivência e com menos tempo de rolagem de tela.
Um porquê
Viktor Frankl era neurologista e psiquiatra em Viena quando foi levado para os campos de concentração nazistas. Ele sobreviveu, voltou e escreveu Em Busca de Sentido, onde conta o que observou ali sobre quem resistia e quem desistia. A conclusão dele, que ele resume citando uma frase de Nietzsche, é que quem tem um porquê para viver suporta quase qualquer como. Frankl não romantiza o sofrimento em nenhuma linha, e é exatamente por isso que o livro funciona: ele diz que a dor não escolhe quem visitar, e que a única coisa que resta sob nosso controle, quando nada mais resta, é a atitude que se toma diante dela.
O seu porquê pode ser pequeno e ainda assim sustentar. Um filho, uma mãe que depende de você, um projeto, um time, um diploma que você vai ser o primeiro da família a pendurar na parede. Não precisa ser grandioso, precisa ser seu.
Três livros para ler em outubro
Irmã Outsider, de Audre Lorde, pela Autêntica, na tradução de Stephanie Borges. Para entender a raiva como informação e o silêncio como risco.
Em Busca de Sentido, de Viktor Frankl. Para os dias em que você precisa lembrar que ter um porquê muda o que se suporta.
Na Minha Pele, de Lázaro Ramos, pela Objetiva. Para se ver escrito, que é uma das formas mais rápidas de deixar de se sentir sozinho.
Se quiser um quarto, que é o mais técnico dos quatro, Tornar-se Negro, de Neusa Santos Souza, pela Zahar.
Fecho com o Lázaro Ramos. Em Na Minha Pele, publicado em 2017 pela Objetiva, ele não escreve do alto de quem resolveu, escreve de dentro dos próprios dilemas, do ator que foi chamado de exceção, do homem negro que atravessou portas que não foram feitas para ele e descobriu que atravessar também cobra. É um livro generoso, de alguém que escolheu contar as dúvidas em vez de exibir só o resultado, e é por isso que ele cura alguma coisa em quem lê. Porque o primeiro alívio, quase sempre, é descobrir que aquilo que você achava que era defeito seu era experiência compartilhada.
Primeiro o diagnóstico, depois o tratamento e se possível, sempre a prevenção. O diagnóstico de hoje é que carregar sozinho custa caro e que o custo aparece anos depois, em consultório. O tratamento é falar, aceitar ajuda e procurar profissional, seja médico, psicólogo, nutricionista ou educador físico, porque todos eles são ponte. E a prevenção é a mais negligenciada de todas: manter os outros pratos girando enquanto um balança.
Procure ajuda, aceite ajuda e, se estiver com alguma sobra de força hoje, pergunte para alguém como essa pessoa realmente está, e espere a segunda resposta, que é sempre a verdadeira. Diferentemente do que pregam, uma vela não perde nada ao compartilhar sua chama com outra vela.
Escrevo do negro para o negro.
Se você está em sofrimento agora, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188, por chat e por e-mail no site cvv.org.br. No SUS, procure a unidade básica de saúde do seu bairro ou o CAPS mais próximo, que é o serviço público especializado em saúde mental e atende sem encaminhamento.
Eu sou Dr. Lucas Diniz, cirurgião plástico facial pela USP, CRM-SP 194459, RQE 111712, pesquisador de Inteligência Artificial para Cirurgias Craniofaciais da perspectiva da população negra.
Este texto é informativo e educativo e não substitui consulta, diagnóstico ou tratamento médico formal.
Não sou psiquiatra, e nada aqui serve como autodiagnóstico.
REFERÊNCIAS
FANON, Frantz. Pele negra, máscaras brancas. Tradução de Sebastião Nascimento com colaboração de Raquel Camargo. São Paulo: Ubu, 2020.
FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Vozes; São Leopoldo: Sinodal, 1991.
LORDE, Audre. Irmã outsider: ensaios e conferências. Tradução de Stephanie Borges. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DA SAÚDE. Health in the Americas 2026: prioritizing avertable disease burden to maximize impact. Washington, D.C.: OPAS, 2026. Disponível em: doi.org/10.37774/9789275131565. Acesso em: 30 set. 2026.
RAMOS, Lázaro. Na minha pele. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.
SOUZA, Neusa Santos. Tornar-se negro: ou as vicissitudes da identidade do negro brasileiro em ascensão social. Rio de Janeiro: Zahar, 2021.
Notícias Recentes
