Mundo Negro

Dia do Trabalhador: É hora de cobrar reparação histórica e compromisso com a população negra

Foto: Tânia Rego/Agência Brasil

Texto: Luciano Ramos

O 1º de Maio é, tradicionalmente, uma data marcada por discursos de valorização da classe trabalhadora, celebração de conquistas históricas e renovação das lutas por direitos. No entanto, em um país como o Brasil, onde a exclusão racial estrutura o acesso ao trabalho, essa comemoração precisa vir acompanhada de uma reflexão profunda: quem está, de fato, incluído nesse “mundo do trabalho”? E quem continua do lado de fora, lutando apenas por uma chance?

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Notícias Relacionadas


Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) do IBGE (2023), pessoas negras representam mais de 65% dos trabalhadores informais no Brasil. A taxa de informalidade entre pretos e pardos é de 43,3%, enquanto entre brancos é de 34,5%. No desemprego, a desigualdade também é gritante: a taxa de desocupação entre pessoas negras é de 10,2%, frente a 6,3% entre os brancos.

Mais que números, esses dados revelam uma estrutura de exclusão que não é acidental, mas resultado direto do racismo histórico e institucional. Desde a abolição da escravidão, em 1888, o Estado brasileiro não garantiu o acesso à terra, à educação e ao trabalho formal para a população negra. A ausência de políticas reparatórias consolidou um mercado de trabalho onde os cargos mais precários, insalubres e mal remunerados seguem ocupados, majoritariamente, por pessoas negras.

Mesmo quando acessam o mercado formal, os obstáculos não cessam. De acordo com o Dieese (2023), trabalhadores negros recebem, em média, 59,2% da remuneração dos trabalhadores brancos, mesmo ocupando funções semelhantes e com níveis equivalentes de escolaridade. No topo das empresas, a exclusão é ainda mais evidente: apenas 4,7% dos cargos de liderança em grandes companhias são ocupados por pessoas negras, segundo levantamento do Instituto Ethos.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Esses números escancaram o que o Dia do Trabalhador muitas vezes mascara: o trabalho digno, com carteira assinada, salário justo e direitos garantidos, ainda não é uma realidade para a maioria negra no Brasil.

É preciso transformar o 1º de Maio em um ato político de enfrentamento ao racismo no mundo do trabalho. Isso significa adotar políticas públicas que não apenas aumentem o emprego, mas que o façam com intencionalidade racial: cotas raciais em concursos públicos e processos seletivos, incentivos fiscais para empresas que promovem equidade racial, ampliação de programas de formação profissional voltados à juventude negra e à população periférica, entre outras ações afirmativas urgentes.

Mais do que celebrar conquistas restritas a uma parcela da população, é hora de cobrar reparação histórica e compromisso com a inclusão real da população negra no mercado de trabalho formal. Sem isso, o 1º de Maio seguirá sendo um dia de silêncio para milhões que seguem trabalhando à margem — e à sombra — da dignidade.

PUBLICIDADE
PUBLICIDADE

Notícias Recentes

Participe de nosso grupo no Telegram

Receba notícias quentinhas do site pelo nosso Telegram, clique no
botão abaixo para acessar as novidades.

Comments

Sair da versão mobile