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Dia do Químico: as descobertas de cientistas negros que mudaram a história da química

Foto: divulgação

No Dia do Químico, conheça 11 pesquisadores negros cujas descobertas salvaram vidas, derrubaram fraudes e reescreveram a ciência, e que os livros ignoraram

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Todo ano, em 18 de junho, o Brasil celebra o Dia do Químico, data que marca a criação do Conselho Federal de Química pela Lei nº 2.800, de 18 de junho de 1956 e reconhece a atuação de profissionais que trabalham na intersecção entre a matéria e a vida. São eles que desenvolvem os medicamentos que chegam às farmácias, os processos industriais que produzem combustíveis, os métodos de análise que identificam fraudes em alimentos e os materiais que sustentam a eletrônica contemporânea. A química está presente em cada comprimido engolido, em cada fibra sintética usada, em cada litro de água tratada distribuído nas cidades.

A profissão, regulamentada nessa mesma lei, consolidou um campo que já produzia pesquisadores de alto nível muito antes de ser formalmente reconhecida pelo Estado. O país conta hoje com mais de 100 mil profissionais registrados nos conselhos regionais, atuando em laboratórios de análise, indústrias petroquímicas, hospitais, universidades e órgãos de vigilância sanitária. A data serve, portanto, não apenas como celebração corporativa, mas como oportunidade de olhar para quem construiu esse campo e para quem, dentro dele, enfrentou barreiras adicionais para exercê-lo.

A história da química, como a da maioria das ciências exatas, foi registrada ao longo do século XX de maneira seletiva. Os manuais escolares e os livros de história da ciência repetiram por décadas um cânone predominantemente europeu e branco, apagando ou minimizando as contribuições de pesquisadores africanos, afro-americanos e afro-brasileiros. Esse apagamento não foi neutro. Ele produziu efeitos concretos sobre quem se via representado na ciência, quem tinha acesso às universidades e quem recebia financiamento para pesquisa.

Em homenagem ao Dia do Químico e ao legado que precisa ser contado com mais rigor e frequência, o Mundo Negro selecionou 11 profissionais negros cujas descobertas, inovações e realizações mudaram concretamente a vida de pessoas em todo o planeta. A escolha não pretende esgotar esse universo, que é vasto e ainda subexplorado pela historiografia, mas trazer ao centro nomes que merecem figurar em qualquer discussão séria sobre ciência.

George Washington Carver (EUA, 1864–1943) foi o cientista que transformou a agricultura do sul dos Estados Unidos num período de colapso econômico e ambiental. Filho de pessoas escravizadas, Carver assumiu em 1896 a direção do departamento de agricultura do Instituto Tuskegee, no Alabama, e encontrou solos destruídos por décadas de monocultura do algodão. Seu diagnóstico foi preciso e sua solução foi radical para a época. Identificou que o amendoim e a batata-doce fixavam nitrogênio no solo e propôs a rotação de culturas como método sistemático de regeneração da terra. Para criar mercado para as toneladas de amendoim que os agricultores passaram a produzir, Carver desenvolveu mais de 300 produtos derivados da leguminosa, entre tintas, plásticos, borracha sintética, sabonetes e cosméticos. O mesmo processo foi aplicado à soja e à batata-doce. Sua contribuição é considerada pela USDA a base conceitual do que hoje se chama de bioquímica industrial, e a American Chemical Society declarou seu trabalho um Marco Histórico Nacional da Química em 2005. Em sua época, era chamado de “o Thomas Edison negro”.

Foto: Getty Images

Percy Lavon Julian (EUA, 1899–1975) acumulou ao longo da vida três descobertas que teriam sido suficientes, individualmente, para garantir um lugar na história da ciência. Em 1935, sintetizou em laboratório a fisostigmina, composto presente no feijão Calabar que até então só podia ser extraído da planta, tornando o tratamento do glaucoma mais acessível. A American Chemical Society classificou essa síntese em 1999 como um dos 25 maiores feitos da história da química americana. Em 1942, desenvolveu a partir de proteína de soja um fluido extintor de incêndios, o AeroFoam, usado pela Marinha americana em porta-aviões durante a Segunda Guerra Mundial para apagar chamas de gasolina e óleo. Em 1949, desenvolveu um processo para sintetizar cortisona a partir do esterol de soja, eliminando a dependência de glândulas suprarrenais de bois e reduzindo o custo do medicamento de centenas de dólares por grama para centavos, colocando o tratamento da artrite reumatoide ao alcance de milhões de pessoas. Julian acumulou mais de 130 patentes ao longo da vida. Neto e filho de pessoas escravizadas, teve sua casa em Chicago atacada com bomba incendiária duas vezes, em 1950 e 1951.

Foto: Francis Miller/Acervo de fotos The LIFE/Getty Images

Alice Augusta Ball (EUA, 1892–1916) morreu aos 24 anos sem publicar os resultados da pesquisa que revolucionou o tratamento da hanseníase. Em 1915, sendo a primeira mulher e a primeira pessoa negra a obter mestrado em química pela Universidade do Havaí, Ball foi procurada por um médico do Hospital Kalihi que buscava uma forma eficaz de administrar o óleo de chaulmoogra, único tratamento disponível para a doença mas inutilizável em injeções por sua viscosidade extrema. Em menos de um ano, Ball desenvolveu um processo de esterificação que transformou os ácidos graxos do óleo em ésteres solúveis em água, possibilitando a injeção sem os efeitos colaterais que tornavam o tratamento anterior insuportável. O Método Ball, como foi chamado pelo médico Harry Hollmann em publicação de 1922, permaneceu como principal terapia global contra a hanseníase por mais de duas décadas, até o surgimento dos sulfonamidas. Após a morte de Ball, outro pesquisador publicou os resultados como se fossem seus. O reconhecimento formal só veio em 2000, quando a Universidade do Havaí instalou uma placa em sua homenagem.

Foto: reprodução

Alma Levant Hayden (EUA, 1927–1967) foi a primeira cientista negra da Food and Drug Administration dos Estados Unidos e a responsável por uma das operações de análise química mais importantes da história da saúde pública americana. Em 1963, médicos chamados Stevan Durovic e Andrew C. Ivy comercializavam o Krebiozen, um composto vendido por centenas de dólares por ampola e apresentado como cura para o câncer. A substância tinha seguidores fervorosos e havia gerado enorme polêmica política nos Estados Unidos. Quando a FDA conseguiu amostras do composto, Hayden coordenou a análise usando espectrofotometria infravermelha, comparando as imagens espectrais do Krebiozen com um arquivo de 20 mil substâncias catalogadas. O resultado foi encontrado na letra C. O suposto milagre oncológico era creatina, um aminoácido comum presente naturalmente no corpo humano, sem qualquer atividade anticancerígena. Três equipes independentes, incluindo cientistas do MIT, confirmaram a análise. Os promotores do esquema foram a julgamento criminal. O relatório de Hayden foi incluído no Congressional Record dos Estados Unidos. Ela morreu de câncer em 1967, aos 40 anos.

Foto:Flickr

James Andrew Harris (EUA, 1932–2000) entrou para a história da química ao co-descobrir dois elementos que hoje estão na tabela periódica. Depois de enfrentar discriminação racial ao tentar ingressar no mercado científico após a graduação, Harris conseguiu uma posição no Laboratório Lawrence Berkeley, na Califórnia, onde chefiou o Grupo de Produção de Isótopos Pesados. Seu trabalho era desenvolver técnicas de purificação para preparar os alvos atômicos que seriam bombardeados no acelerador de partículas. O renomado químico nuclear Albert Ghiorso descreveu o trabalho de Harris como “o melhor alvo já feito para pesquisa de elementos pesados”. O resultado foi a co-descoberta do rutherfórdio, elemento 104, em 1969, e do dúbnio, elemento 105, em 1970, tornando Harris o primeiro americano negro a participar da descoberta de elementos químicos. Recebeu doutorado honorário em 1973.

Foto: Wikipedia

Cheikh Anta Diop (Senegal, 1923–1986) foi físico, químico e historiador senegalês que construiu no continente africano uma infraestrutura científica inédita para datação arqueológica. Formado em física e química em Paris, Diop retornou ao Senegal e fundou em 1966, na Universidade de Dakar, o primeiro laboratório de datação por carbono-14 da África Negra. O laboratório, instalado no Instituto Fundamental da África Negra, era o segundo de todo o continente, atrás apenas do da Rodésia do Sul. Com ele, Diop passou a datar de forma independente amostras arqueológicas africanas, determinando a antiguidade de sítios do Neolítico senegalês com base em análises de carvão e ossos, e publicando os resultados na revista científica internacional Radiocarbon. Em 1974, publicou “Physique Nucléaire et Chronologie Absolue”, obra que descreveu os métodos de datação arqueológica e geológica desenvolvidos no laboratório de Dakar. Seu trabalho abriu a possibilidade de que a África produzisse cronologias arqueológicas próprias, sem depender de laboratórios europeus.

Foto: reprodução

Marian Ewurama Addy (Gana, 1942–2014) foi a primeira mulher a alcançar o grau de professora titular de ciências naturais em Gana e realizou pesquisa que conectou dois mundos que a ciência ocidental costumava tratar como opostos. Sua área de trabalho era a bioquímica de plantas medicinais usadas por curandeiros tradicionais, e seu objetivo era verificar, com rigor laboratorial, se as alegações desses praticantes tinham base. Ao estudar o Desmodium adscendens, uma erva usada há gerações no tratamento da asma, Addy identificou que o composto ativo pertencia a uma classe de moléculas que a ciência ainda não havia catalogado, as soyasaponinas. A descoberta validou o uso popular da planta e abriu uma linha de pesquisa sobre suas aplicações no tratamento da asma e do diabetes tipo 2. Addy publicou 22 artigos científicos ao longo da carreira, recebeu o Prêmio Kalinga da UNESCO em 1999 pela popularização da ciência e foi eleita membro da Academia de Ciências e Artes de Gana.

Foto: wikipedia

Oswaldo Luiz Alves (Brasil, 1947–2021) foi o primeiro aluno negro do Instituto de Química da Unicamp, onde se formou em 1973 sem encontrar nenhum outro estudante negro nos corredores da instituição. Em 1979, durante um período de pesquisa na França, entrou em contato com a química do estado sólido e decidiu introduzir a disciplina no Brasil. Voltou a Campinas, criou a primeira disciplina brasileira na área e fundou em 1985 o Laboratório de Química do Estado Sólido na Unicamp, o único do país. Tornou-se também um dos pioneiros da nanotecnologia no Brasil, coordenando o Laboratório de Síntese de Nanoestruturas e Interação com Biossistemas. Publicou mais de 250 artigos científicos e depositou 31 patentes, entre elas uma tecnologia de remediação de efluentes de indústrias papeleiras e têxteis que foi licenciada para o setor produtivo. Presidiu a Academia Brasileira de Ciências entre 1998 e 2000 e recebeu a Comenda da Ordem Nacional do Mérito Científico em 2002. Nos últimos anos de vida, passou a defender publicamente a necessidade de identificar e dar visibilidade aos pesquisadores negros espalhados pelo país nas áreas de ciências exatas.

Foto: Eduardo Cesar

Viviane dos Santos Barbosa (Brasil) cresceu no bairro da Liberdade, em Salvador, estudou em escolas públicas e chegou à Universidade Tecnológica de Delft, na Holanda, onde desenvolveu a pesquisa que a colocou no mapa internacional da química. Trabalhando com catalisadores, substâncias que aceleram e melhoram o rendimento de reações químicas, Barbosa desenvolveu uma combinação de paládio e platina em escala nanométrica capaz de operar em temperatura ambiente, diferindo de forma significativa dos catalisadores então existentes, que exigiam altas temperaturas para funcionar. O material tem aplicação direta na redução da emissão de gases tóxicos e no desenvolvimento de fontes de energia alternativa. Em 2010, o trabalho foi submetido à International Aerosol Conference, em Helsinque, Finlândia, onde competiu com cerca de 800 trabalhos de pesquisadores do mundo inteiro e conquistou o primeiro lugar.

Foto: reprodução / Mundo D’elas

José Custódio da Silva (Brasil, 1897–1933) farmacêutico e químico mineiro que especializou-se em físico-química na Alemanha e construiu no Brasil, num momento em que o país ainda não tinha tradição científica consolidada, uma das primeiras estruturas institucionais da química nacional. Foi o principal responsável pela criação, em 1929, da Revista Brasileira de Chimica, primeiro periódico brasileiro dedicado exclusivamente à publicação de pesquisas em química. A revista funcionou como plataforma de legitimação da ciência química no país em um momento de construção institucional e foi, por anos, o único espaço formal de difusão científica da área. Custódio da Silva permaneceu quase completamente invisível na historiografia da química brasileira até ser resgatado por pesquisadores da Revista Brasileira de História da Ciência em 2023.

Foto: reprodução

Charles Okechukwu Esimone (Nigéria, 1970) tornou-se professor aos 37 anos e é o primeiro professor de microbiologia farmacêutica do sudeste da Nigéria. Entre 2003 e 2005, com uma bolsa da Fundação Alexander von Humboldt, desenvolveu na Alemanha uma técnica de triagem antiviral baseada em vetores de DNA recombinante que revolucionou o rastreamento de compostos anti-HIV em larga escala, permitindo que laboratórios de pesquisa testassem centenas de moléculas candidatas com muito mais velocidade e precisão do que os métodos disponíveis até então. Paralelamente, sua pesquisa resultou na identificação de novos compostos antimicrobianos com atividade antibacteriana, antifúngica e antiviral, derivados de endófitos, líquens, samambaias e plantas medicinais africanas. Com mais de 100 publicações, Esimone foi reconhecido em 2009 com o Prêmio ANDI para o Melhor Pesquisador Inovador da África e integrou como jovem cientista o Fórum Econômico Mundial de Nova Geração de Líderes, em Tianjin, China.

Foto: divulgação

O que essas histórias têm em comum é que foram produzidas sob condições de acesso desigual. Carver não podia dormir nos hotéis das cidades onde ia dar conferências. Julian teve a casa incendiada duas vezes. Ball morreu sem ver seu nome num artigo científico. Harris foi rejeitado em entrevistas de emprego por empregadores que não acreditavam que um homem negro fosse qualificado para trabalhar com química. Alves era o único negro nos espaços por onde passou. Cada um desses pesquisadores construiu sua contribuição científica carregando, ao mesmo tempo, o peso de uma estrutura que os excluía.

O Dia do Químico é uma data adequada para lembrar que a ciência não é uma atividade neutra produzida em condições iguais para todos. Reconhecer quem foram os pesquisadores negros que a fizeram avançar é parte do trabalho de torná-la mais honesta com sua própria história.

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