Com azul, branco, vermelho e véu na passarela, a Matières Fécales coloca a mulher negra e imigrante no centro do debate político na Semana de Moda de Paris.
A marca Matières Fécales abriu a Semana de Moda de Paris, na segunda-feira (28), com um desfile na Place de la République, praça que reúne historicamente marchas e manifestações na capital francesa, para apresentar a coleção de verão 2027 “The 99 Percent”. O estilista Steven Raj Bhaskaran, que fundou a marca em Montreal em 2014 com Hannah Rose Dalton, levou 99 looks vestidos por 99 modelos não brancos em torno da estátua de Marianne, símbolo da República Francesa, em um protesto contra o 1% mais rico do planeta e o sistema que concentra riqueza nas mãos de poucos. Foi o primeiro desfile de moda realizado na praça.
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A coleção é a continuação de “The One Percent”, apresentada em março, uma sátira às elites inspirada em dados da Oxfam segundo os quais o 1% mais rico concentra quase metade da riqueza global. Agora, o foco passa para quem sustenta esse topo. Bhaskaran explicou que o elenco reflete as pessoas com quem cresceu em conjuntos habitacionais no Canadá, para onde sua mãe migrou vindo da Guiana. “Uma homenagem às famílias não brancas que perseguem um sonho de liberdade. Uma mensagem de esperança para todos os imigrantes alvos de injustiça todos os dias”, afirmou o estilista.
A imagem que encerrou o desfile resume o tema da coleção: duas modelos, uma de terno branco e outra de vestido de lamê dourado com cauda longa, caminharam curvadas carregando nos ombros manequins que representavam bilionários, uma referência direta à ideia de que a base da pirâmide social sustenta a riqueza de quem está no topo.
Na França, também chamou atenção a passagem de três mulheres negras e musculosas, que atravessaram a praça em vestidos justos nas cores azul, branco e vermelho da bandeira nacional, e a última delas cobria os cabelos com um véu vermelho. A imagem ganhou peso político por aparecer a poucos meses da eleição presidencial francesa, em um momento em que questões identitárias e religiosas dominam o debate público no país. “É um lugar de revolução. Acho perfeito que o primeiro desfile de moda da história na Place de la République seja organizado por um grupo de imigrantes como nós”, disse Bhaskaran sobre a escolha do local.
O desfile foi dividido em três atos, e o primeiro deles homenageou os migrantes que deixaram tudo para trás em busca de um futuro melhor para os filhos, com vestidos e looks monocromáticos que passavam do branco ao preto, ao vermelho e ao azul, e terminou com o próprio estilista e sua família vestidos de branco. O segundo tratou das revoltas e da cultura punk, com jeans destruídos, jaquetas bomber, vestidos rasgados e camisetas com a palavra “Resist”, em meio à fumaça que tomou a praça. O terceiro, ao som de Nina Simone, trouxe vestidos volumosos com rendas, bordados e penas e chapéus inspirados em culturas da África Ocidental.
A cantora Rihanna e o estilista Rick Owens acompanharam o desfile da primeira fila. Parte da renda obtida com a venda da coleção será destinada à associação La Maison d’Allanah, que ajuda refugiados LGBTQIA+ a encontrar moradia na França.
O discurso político faz parte da marca desde o nome, que significa “matéria fecal” em francês e foi escolhido por Bhaskaran e Dalton como crítica a uma indústria da moda que consideravam excludente e voltada ao desperdício. Nos últimos anos, a grife vestiu Lady Gaga no Grammy e Zendaya na divulgação do filme “Odisseia”.
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