Em conversa com Oprah Winfrey sobre o audiolivro Em Busca de Mim, a atriz revisita a infância pobre e a menina que era chamada de “a Viola má”
A atriz Viola Davis afirmou, em conversa com a apresentadora Oprah Winfrey, que a criança que ela foi aos seis anos, pobre, chamada de “a Viola má” e acostumada a ouvir que não era bonita, foi quem a salvou. O encontro, gravado para o podcast de Oprah, teve como tema o audiolivro de memórias “Em Busca de Mim” (Finding Me, no original), narrado pela própria atriz, e tratou menos dos prêmios da carreira do que do processo de encarar lembranças que ela passou a maior parte da vida tentando esconder.
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A escrita como recomeço
Viola descreveu a escrita do livro como um “reset”, comparável a desligar e religar o celular quando o aparelho trava. Segundo ela, a sensação de inadequação acompanhou boa parte de sua vida adulta, sobretudo no convívio com pessoas que apresentavam apenas a versão mais favorável de si mesmas. “Quando você cresce com tanta disfunção, tanta pobreza, tanto de tudo, e encontra pessoas na vida, e todo mundo conta a sua melhor história, sejamos honestas, você se sente errada”, disse.
A interrupção imposta pela pandemia de covid-19 foi o que permitiu à atriz olhar para esse passado. “Agora você está imóvel. Você não está correndo de um lado para o outro”, lembrou. Do período de isolamento surgiu o que ela chama de “os dois Cs e o M”, referência a coragem, curiosidade e memória, os três elementos que, segundo Viola, sustentaram o trabalho de escrita.
A Viola de seis anos
O retorno à infância levou a atriz à conclusão que ela apontou como central na entrevista. “O que tem de especial na Viola de seis anos é que ela nunca falhou consigo mesma. Ela não sabia como”, afirmou. Durante anos, Viola tratou essa criança como alguém a ser consertada, lógica comum em muitos processos terapêuticos, até decidir inverter a relação. “Em vez de ficar sempre tentando curá-la, decidi deixar que ela me curasse.”
A atriz foi buscar justamente a menina que fazia xixi na cama, era vista como desarrumada e feia e crescia num ambiente de caos doméstico. “Acho que, em algum lugar, a Viola má era, na verdade, a Viola honesta. A Viola verdadeira”, disse. Em vez de sentir vergonha dessa versão de si, passou a se perguntar se aquela criança teria respostas para a mulher de 54 anos que se dedicou ao livro durante a pandemia. “Foi a curiosidade que me trouxe de volta”, resumiu.
Da Carolina do Sul a Hollywood
Viola Davis nasceu em 1965 em St. Matthews, na Carolina do Sul, e cresceu em Central Falls, Rhode Island, numa casa onde a pobreza extrema, a fome e a violência doméstica faziam parte da rotina. Estudou teatro, passou pela Juilliard School, em Nova York, e construiu carreira nos palcos antes de chegar ao cinema e à televisão.
No teatro, a atriz recebeu dois prêmios Tony, pelas montagens de “King Hedley II” e “Fences”. Em 2015, tornou-se a primeira mulher negra a vencer o Emmy de melhor atriz em série dramática, pelo papel de Annalise Keating em “How to Get Away with Murder”. Dois anos depois, levou o Oscar de atriz coadjuvante por “Um Limite Entre Nós”, adaptação para o cinema da mesma peça que lhe rendera o segundo Tony. O Grammy conquistado em 2023 pelo audiolivro de “Em Busca de Mim” completou o EGOT, sigla para a combinação de Emmy, Grammy, Oscar e Tony, e colocou Viola entre as poucas artistas negras a reunir os quatro prêmios.
Uma história incompleta
A atriz também reconheceu na conversa os limites do próprio relato. Segundo ela, o livro mostra cerca de 30% de quem ela é, porque há memórias que ainda não conseguiu compartilhar, outras de que simplesmente não se lembra e algumas que, admite, guardou de forma equivocada. Viola disse não ver motivo para se desculpar pelas lacunas. “O que eu tinha era o que eu tinha”, afirmou, ao defender que uma história verdadeira não precisa ser completa nem seguir uma linha reta de superação para ter valor.