Consciência Negra pra todos e por todos

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Eu sabia que mais hora, menos hora, acabaria por recorrer a essa caneta virtual que, na verdade, é meu velho teclado de teclas gastas. Eu só não esperava que fosse tão de ‘bate-pronto’, todo ano planejo fazer uma espécie de retrospectiva do racismo, mas acabo me envolvendo em outras frentes e não me ligo em ir captando os fatos à medida que acontecem. Mas, chegou a hora de parar de divagar e entrar de vez no assunto. Pois bem, dia 20 de novembro é dia da Consciência Negra, mas já foi estendido para o mês todo (tipo maio com as mães e dezembro para as compras de natal para o nascimento do menino Noel… não pera…). Enfim, já falei sobre como editaram maldosamente a fala do ator estadunidense negro Morgan Freeman, para que parecesse que ele estava defendendo o silenciamento negro para que o racismo sumisse e outras bossas.

Agora, vou pegar algumas dessas situações que pipocam a todo momento para lembrarmos – de novo e de novo – o porquê de um mês da consciência negra. Vamos lá, Solange Couto, a atriz, eterna Dona Jura da novela O Clone (e passista do sinhozinho “mulatólogo” Sargentelli), só recentemente se deu conta de que seus quase 40 anos de profissão foram recheados de personagens de “menor valor social”. Veja bem, não estou desmerecendo as representações da vida real que ela encarnou, mas o valor dado a uma atriz negra na hora de oferecer-lhe trabalhos. Eu mesmo, afora a figuração em Lado a Lado, não fui mais chamado pra quase nada. O que me faz lembrar de outro tópico: A beleza do negro. Já ouvi muita mulher dizer sobre José Mayer que “ele nem é tão bonito assim, mas tem um charme…”. Aí, Lázaro Ramos surge com um papel de um publicitário bem sucedido e mulherengo e o que se fala? “Ah, vá, ele não me convence como galã”. Achei que a pauta fosse convencer pela atuação, mas envolveram racismo só pra gente ficar mordido.

Imagem do projeto: Senti na pele

Dizem até que não há atores negros bonitos, ou seja, levaram tão ao pé da letra a colonização européia ao redor do mundo, que passaram a defender seu padrão de ‘beleza’. Inclusive, isso vem de muita gente excluída desse perfil estético. É a síndrome do negro da casa grande, tipo Pelé, que aconselhou o goleiro Aranha, xingado de macaco pela torcida do Grêmio, que sorrisse e deixasse o assunto de lado. Juro que esperava até que o atleta do século passado dissesse algo como ‘eu já fui preto, sei como é’, mas estou divagando, igual quando penso que COLONização me remete (UIA!) a um ato de violência quase sexual por parte dos invasores dessas e tantas outras terras. Eu sei, eu sei, não estamos muito longe da verdade com essa frase.

Prossigamos. Teve também Taís Araújo e Maju ofendidas, pra falar das famosas, além de nossas mães, irmãs, amigas, primas, colegas de trabalho, enfim… há muito que se fazer ainda sobre o racismo nosso de cada dia.

Aliás, Taís Araújo chegou a falar algo que ouço bastante de uma amiga. Não lembro a frase exata, mas a ideia é assim: “Se não tem história de racismo sofrido pra contar, não é preto”. Crescemos ouvindo de crianças, que ouviram de adultos, que ouviram de seus pais, quando crianças e assim vai. Já diz Gabriel O Pensador em sua infalível Lavagem Cerebral: “…e de pai pra filho, o racismo passa em forma de piadas, que teriam bem mais graça se não fossem o retrato da nossa ignorância, transmitindo a discriminação desde a infância. E o que as crianças aprendem brincando é nada mais, nada menos do que a estupidez se propagando…”. Quem acha que Consciência Negra é assunto apenas do negro está fomentando coisas como essas citadas. Ainda sobre Taís Araújo, ela foi ofendida enquanto atuava em uma peça sobre Martin Luther King Jr. A mesma peça cuja uma versão estrangeira esteve pra ser feita com um ator branco no lugar de um negro. Como diria a autora (mulher e negra), não é que ela tenha deixado em aberto a etnia do ator que interpretasse, mas, oras bolas, estamos falando de Martin Luther King Jr, catzo!

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Outras peças também trouxeram à baila essa bizarrice de apropriação. Se a peça sobre Luther King, até na Russia, demandou esforços para acharem atores negros, como explicar uma peça no Brasil sobre Madame Satã ter um branco pintado de preto? Não sabe? Nem eu. Ou melhor, sabemos todos, mas gostamos da retórica irônica. E teve o Exhibition B, aquela exposição bizarra que visa mostrar os horrores da escravidão com atores negros. Oras, se não fazem isso com judeus na segunda guerra, não vi valor em fazer isso com negros, muito menos no país mais negro fora de África, o mesmo cujo governo – e boa parte da sociedade – fizeram com que fosse o último – ou um dos – a largar o osso negro do trabalho forçado de nossos ancestrais pra trabalhar com industrialização. Deram abolição por pressão, então sua retaliação foi soltar a negada toda sem eira nem beira no mundo, da senzala diretamente para a favela. E tem gente que reclama que cotas são inadequadas, que são favorecimento, blá, blá, blá, mimimi, bobobó… Gente que não sabe, ou finge não saber, de história. Aliás, gente míope que vê o que quer pela janelinha da TV, pois tá rolando até hoje essa ideia de carne mais barata do mercado.

Exhibit B at the Barbican, London, September 2014

E, pra arrematar, vou cair num clichê tão besta, mas tão besta, que já até peço desculpas: Consciência negra tem que ser todo dia, mas, mais importante, tem que ser de todos TODOS. Negros, brancos, índios, árabes, poloneses, etc. Não adianta a gente ficar gritando do nosso canto e aquele que se diz amigo tenta nos silenciar, porque sabe que é só questão de tempo até mostrar que só nos respeita enquanto não se fala no assunto, se entregando no racismo introjetado dentro em pouco. Aliás, um mea culpa, já fui muito o ‘negro de estimação’, aquele que traz consigo uma espécie de senzalismo/mucamismo, uma sensação por pura pressão de que precisa se fazer de burro ou bobo pra que o branco não fique desconfortável com seus privilégios sociais. Já fiz muita piada auto-depreciativa, mas percebi há anos que isso só era uma tentativa de me bater com a chibata antes que me batessem, pra parecer que eu lidava bem com isso. A língua é o chicote do corpo e esse tipo de ofensa não atinge só a um, mas a todos.

Consciência negra é responsabilidade de todos nós. Evitar o assunto como quem quer fazer ele sumir não muda nada, seria como olhar pro lado achando que uma fratura exposta iria se curar. Não temos band-aids suficientes pra sarar todas as fraturas da sociedade, mas temos voz pra levar aos coleguinhas que se unem e até aos que ainda não acordaram. Sobre isso, vou terminar aqui com uma canção de Antonio Candeia Filho, um gigante do Samba e da cultura negra e popular em geral. A canção se chama Dia de Graça:

“Negro acorda é hora de acordar

Não negue a raça

Torne toda manhã dia de graça

Negro não se humilhe, nem humilhe a ninguém

Todas as raças já foram escravas também…” 

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