Quando pessoas negras viajam, ou frequentam espaços tradicionalmente mais brancos, como lojas, ou restaurantes, elas são lidas quase como impostoras mesmo tendo poder aquisitivo para frequentar tais ambientes. A riqueza de berço, a tradicional, não pertence às pessoas negras pelos motivos que já sabemos, mas em “Coisa de Rico”, um dos livros mais vendidos do Brasil, o antropólogo Michel Alcoforado mostra que até pessoas brancas de classe média podem ser detectadas pelo termômetro da riqueza, pelos símbolos que ostentam para obter a passabilidade como ricas.
Convenhamos que o novo rico é um dos sujeitos mais preconceituosos e racistas, porque busca manter distância de tudo que possa estar relacionado à pobreza e para ele, o corpo negro só pertence a esse lugar.
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Como o próprio Michel disse em entrevistas de divulgação do livro, a pessoa que ascendeu ao status de rico há pouco tempo é justamente a que se incomoda com a presença de pessoas diferentes no avião e que muda de bairro quando começa a ter vizinhos não brancos, alegando que a região já foi melhor.
Michel é fruto de um relacionamento interracial. Seus pais puderam colocá-lo nos melhores colégios, ele aprendeu cinco idiomas e teria credenciais para circular onde quisesse, e até circula, mas como contou no programa Provoca, apresentado por Marcelo Tas na TV Cultura, o imaginário brasileiro “não associa pessoas com a sua aparência ou tom de pele a posições de protagonismo ou poder”. Ele exemplifica com o episódio em que uma ouvinte do seu podcast na CBN comentou “achei que você era branco” quando o programa passou a ser transmitido no YouTube e sua imagem deixou de ser apenas ouvida para também ser vista.
Para o antropólogo, essa é uma experiência comum na trajetória de qualquer homem ou mulher negra das camadas médias no Brasil, resultado de um passado racista e de um presente igualmente racista. Isso aparece em situações cotidianas, como o porteiro pedindo mais documentos, a atendente da fila preferencial do aeroporto questionando sua presença ou o executivo lendo seu currículo com desconfiança antes de uma consultoria. São barreiras invisíveis, mas constantes, para pessoas negras que buscam ascender em espaços tradicionalmente brancos.
A pesquisa de Alcoforado sobre a naturalização da riqueza no Brasil também traz à tona a herança escravocrata. Ele critica a facilidade com que muitos ricos falam sobre a “fazenda de vovó”, como se a fortuna tivesse surgido do nada, sem reconhecer o passado de exploração. Essa narrativa conveniente esconde séculos de escravidão que foram fundamentais para a acumulação de capital de muitas famílias tradicionais do país. A busca por sobrenomes portugueses como sinônimo de berço e de presença “desde sempre” no Brasil é outra forma de apagar origens e consolidar a percepção de uma riqueza natural. Isso relega a um segundo plano a história de outros grupos, como os imigrantes italianos que chegaram no final do século XIX, e invisibiliza a contribuição de povos escravizados, cujos descendentes enfrentam barreiras estruturais para alcançar e legitimar sua própria riqueza e poder.
Michel enfatiza que o principal desafio para romper as desigualdades sociais no Brasil é superar a ideia de que “não precisa de tantas distâncias para viver com os outros”. Ele conecta diretamente essa percepção a uma sociedade estruturada sobre um passado escravocrata, onde as distâncias organizavam as relações e acabaram normalizadas.
As consequências dessas distâncias são drásticas e profundamente raciais. Pessoas negras morrem antes que pessoas brancas, meninos negros têm menos oportunidades de sonhar com o futuro e a sociedade, como um todo, bloqueia talentos e criatividade. É o que Michel chamou durante a entrevista ao Provoca, de um “capitalismozinho” que mata talentos e criatividade, evidenciando o custo social do racismo.
Apesar desse cenário, ele reconhece que houve uma transformação significativa em universidades como a USP e em espaços de poder em São Paulo, impulsionada pelas políticas de cotas e pela luta do movimento negro ao longo de mais de 50 anos. Ele, que cresceu sendo a única criança negra na escola, na natação, na aula de música e nas viagens, observa a mudança com otimismo, mas sem ilusões: ainda não é o espelho da sociedade brasileira, mas representa um avanço importante em relação à sua vivência.
Foto: Renato Parada
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