Escritora revela ao New York Times que a morte do filho de 21 meses mudou sua relação com a Nigéria, enquanto inquérito sobre o caso segue suspenso na Justiça.
A escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie afirmou não querer mais retornar à Nigéria após a morte do filho Nkanu, um dos gêmeos que tem com o marido, o médico Ivara Esege. A declaração foi dada em entrevista ao New York Times, publicada em 10 de setembro e assinada pela jornalista Veronica Chambers. Questionada se o país ainda ocupava um lugar próximo ao coração, Adichie respondeu: “Meus sentimentos em relação à Nigéria mudaram. Eu não quero voltar para a Nigéria.”
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Segundo o relato da autora ao jornal, a família passava as férias de fim de ano em Lagos quando Nkanu, então com 21 meses, apresentou sintomas de resfriado. Com a febre persistente, o casal levou a criança a um hospital infantil e, em seguida, ao Euracare Multi-Specialist Hospital, em Victoria Island, para exames complementares exigidos antes de uma transferência médica planejada para os Estados Unidos. Durante uma ressonância magnética, Nkanu foi sedado com propofol e sofreu uma parada cardíaca. Morreu no dia seguinte, em 7 de janeiro de 2026.
Três dias após a morte da criança, advogados da família protocolaram notificação legal acusando o Euracare e profissionais envolvidos no atendimento de violação do dever de cuidado. A Justiça de Lagos autorizou a abertura de um inquérito conduzido por um tribunal de legistas, com audiências iniciadas em fevereiro. Nos meses seguintes, o Conselho Médico e Odontológico da Nigéria apontou indícios de negligência contra três profissionais ligados ao caso, entre eles o diretor médico do Euracare e o anestesista responsável pelo procedimento.
Em junho, no entanto, o hospital obteve na Justiça Estadual de Lagos uma liminar suspendendo o inquérito. A defesa do Euracare argumenta que o corpo de Nkanu foi cremado antes de o tribunal de legistas assumir jurisdição sobre o caso, o que inviabilizaria uma autópsia, e nega as acusações de negligência médica. A liminar transferiu a discussão para revisão judicial e adiou a próxima data de audiência para 8 de outubro. Até a publicação da entrevista ao New York Times, o processo seguia sem decisão de mérito sobre responsabilidade.
Adichie e Esege afirmam que o objetivo é fazer o inquérito avançar, como forma de pressionar por mudanças estruturais no sistema de saúde nigeriano. Segundo o relato ao jornal, esse é o único caminho que o casal decidiu seguir até agora. “É a única coisa que podemos tentar fazer para ajudar”, disse Esege, acrescentando esperança de que outras famílias não passem pela mesma experiência.
O país é presença constante na obra de Adichie, incluindo o romance “Americanah”, em que a protagonista Ifemelu deixa a Nigéria para estudar nos Estados Unidos e vive um processo de exaustão e alienação. Segundo a reportagem do New York Times, a autora descreve hoje um sentimento de desenraizamento que associa diretamente à perda do filho, definida por ela como a primeira ruptura irrevogável em sua vida, seguida da ruptura com o próprio país de origem.
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