Diretora jurídica da companhia há mais de duas décadas, ela defende que olhar para o outro e dar luz a novos talentos faz parte do trabalho de quem lidera.
Esta é a primeira entrevista da série Carreiras Negras, parceria inédita entre o Mundo Negro e a Natura. A cada mês, a série apresenta lideranças negras que fizeram carreira dentro da companhia e investiga uma questão pouco explorada: o que leva um profissional negro a permanecer e crescer em cargos de decisão. A proposta é oferecer um contraponto documentado à ideia, ainda corrente, de que grandes empresas são ambientes intransponíveis para pessoas negras. A série começa com Kássia Reis, diretora jurídica da Natura.
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Kássia está na empresa desde janeiro de 2000. Entrou no departamento jurídico ainda no quarto ano da faculdade de Direito e passou por diferentes posições e especialidades até chegar à diretoria. Especialista em Direito Empresarial com ênfase em tributação, resume o próprio estilo de gestão em uma frase: “Minha atuação só é efetiva quando enalteço pessoas com talento, principalmente as pessoas negras.” É uma resposta prática a uma pergunta que ainda soa contraditória no meio corporativo: dá para exercer o acolhimento na alta liderança?
A convicção tem raízes na infância. Kássia é a caçula de quatro filhos de uma mãe que assumiu sozinha o comando de casa após a morte do pai, aos 48 anos. Ela tinha 13. A família era de origem modesta, e os filhos trabalhavam para ajudar nas despesas. “As escolhas eram mais limitadas”, lembra. Antes do primeiro registro em carteira, aos 16, ela jogou basquete e fez salgados para a lanchonete da mãe. Dos pais, de pouca instrução formal, diz ter herdado o “cuidado coletivo” e a generosidade que hoje transporta para a gestão.
Com formação técnica em contabilidade e o objetivo, desde cedo, de advogar, uniu as duas áreas. A ida da contabilidade para o jurídico de uma indústria foi uma decisão tomada ainda na graduação. Deu certo, e a permanência na Natura se estendeu por mais de vinte anos. Questionada sobre o que a manteve na empresa e em crescimento, aponta o sentido que dá ao trabalho. “O que me encanta e me move é a certeza de que posso fazer muito pelo outro”, diz. “É como se eu estivesse no mundo para ajudar quem precisa de mim.”
Esse olhar para o outro orienta também o modo como conduz as equipes. “Sempre busquei identificar o brilho [nas pessoas] e somá-lo”, afirma. Diz valorizar quem a estimula a expandir a capacidade de “criar pontes”, expressão que usa para descrever o que considera o melhor de uma liderança: aproximar pessoas e abrir caminho. É aí que, para ela, acolhimento e liderança deixam de ser opostos e passam a se sustentar.
Preparar quem vem depois é parte do que Kássia entende como sua função atual. Ela descreve a formação de novos profissionais como uma forma concreta de sucessão. “A forma mais efetiva do meu trabalho é dar luz às pessoas talentosas, principalmente as pessoas negras”, afirma. Trabalha, segundo ela, para que outros vejam ali a possibilidade de ocupar espaços antes restritos.
Ela credita parte da própria trajetória ao apoio de pessoas que chama de “anjos”, e diz manter até hoje uma rede de trocas com amigas e colegas. “Tenho a felicidade de nunca me sentir só, porque sempre tive humanos maravilhosos no meu caminho.”
A uma jovem que considere a diretoria de uma grande empresa um objetivo fora de alcance, responde de forma direta: “Jamais acreditem que não são capazes. Tudo que é para ser nosso será. Só confiar e trabalhar duro.”
Em 2025, a Natura atingiu o marco histórico de 40% de pessoas negras em seu quadro geral de colaboradores, cumprindo seu compromisso público. No mesmo período, a companhia dobrou o número de pessoas negras em posições gerenciais, resultado de iniciativas de inclusão, e registrou 0% de saídas voluntárias de talentos negros em cargos de gerência durante o ano, evidenciando a criação de um ambiente de alto pertencimento e segurança psicológica.
A entrevista integra o Julho das Pretas, mês que carrega o 25 de julho, Dia da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha. Kássia diz ter passado a olhar a data com mais atenção nos últimos anos e, a partir dessa consciência, foi “construindo espaço para ajudar mais e mais pessoas, oferecendo apoio, criando condições e ampliando oportunidades”. É esse movimento que resume o que quer deixar: “Meu legado é ampliar a consciência e a ação para que a sociedade crie mais oportunidades e espaços para todos.”
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