A Head de Perfumaria, Presentes e Cuidados Pessoais da Avon no Brasil construiu uma trajetória de mais de 20 anos no mercado da beleza, e destaca a importância das referências, da autenticidade e da presença de mulheres negras nas mesas de decisão.
A construção de uma carreira também passa pelas pessoas que nos ensinam, pelas oportunidades que encontramos e pelos caminhos que conseguimos abrir para quem vem depois. Para Valéria Conceição, esse ensinamento acompanha sua trajetória de mais de duas décadas na Avon (marca adquirida pela Natura em 2020) e orienta o trabalho de mentoria que desenvolve com profissionais em início de carreira como Head de Marketing de Perfumaria e Cuidados Pessoais.
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Em entrevista ao Mundo Negro, a executiva falou sobre as mulheres que a inspiraram, a importância de preservar as próprias origens no ambiente profissional e os desafios para ampliar a presença de mulheres negras em posições de liderança. A conversa também abordou como a diversidade nas decisões de negócio pode influenciar a criação de produtos e a relação das marcas com as consumidoras.
Nascida e criada no Parque Santo Antônio, na periferia de São Paulo, Valéria foi a primeira pessoa de sua família, formada por cinco irmãos, a chegar à universidade. Ela conta que a curiosidade pelas pessoas, seus comportamentos e suas histórias já fazia parte de sua vida antes mesmo de encontrar na publicidade um caminho profissional.
“Eu já havia aprendido a enxergar pessoas. Então, a publicidade foi só o canal para que isso pudesse ser materializado”, afirma.
A relação com a beleza ganhou força quando ela percebeu como o setor se conecta à autoestima, ao comportamento e às possibilidades de expressão individual. Na Avon, encontrou oportunidades de trabalhar com projetos que, em sua avaliação, podem transformar a experiência das consumidoras expandindo as formas de expressar identidade.
As referências que também constroem lideranças
Ao refletir sobre as pessoas que contribuíram para sua formação, Valéria destaca que suas referências não se restringem a profissionais que ocupavam cargos de liderança, mas também a mulheres de sua família e outras pessoas que cruzaram seu caminho e influenciaram sua visão de mundo, seu repertório, e a maneira como passou a compreender o trabalho.
“Quando eu olho para as lideranças da minha vida, que foram lideranças ali do dia a dia, das mulheres que estavam muitas vezes levando as famílias e construindo com força, com autoridade, eu carrego isso de uma maneira muito forte”, relata.
Essa compreensão se reflete na forma como ela exerce a liderança atualmente. Ela conta que realiza mentorias personalizadas com profissionais em início de carreira, considerando desafios específicos, como posicionamento, influência e planejamento profissional.
A orientação que procura transmitir aos novos profissionais é preservar a própria identidade durante a construção da carreira. “Carreguem suas origens com muito orgulho, porque é isso que nos faz chegar onde a gente chega”, diz.
Para a executiva, a mentoria também envolve responsabilidade entre gerações. Quem já percorreu parte do caminho pode contribuir para que outras pessoas encontrem oportunidades e tenham condições mais favoráveis de desenvolver suas trajetórias.
Diversidade também precisa estar na mesa de decisão
A experiência de Valéria no mercado da beleza é marcada pelo debate acerca da representatividade no desenvolvimento de produtos. Ela esteve à frente de um projeto de hidratante desenvolvido para peles pretas e pardas, resultado de dois anos de pesquisa na América Latina.
Ao comentar o trabalho, a executiva chama atenção para a importância de compreender as necessidades específicas das consumidoras e transformar esse conhecimento em soluções concretas. Para ela, a diversidade precisa estar presente em diferentes etapas do negócio, inclusive nos espaços em que as decisões são tomadas.
A reflexão também se relaciona à experiência de mulheres negras com produtos de beleza. Valéria recorda que, durante anos, consumidoras precisaram misturar bases para encontrar tonalidades adequadas à própria pele. Segundo ela, essa realidade evidencia como a falta de opções pode impor custos adicionais e dificultar o acesso a produtos que atendam a diferentes necessidades.
No caso da perfumaria, ela observa que o perfume tem uma relação particular com a identidade e a expressão pessoal, e questiona a associação entre sofisticação e referências eurocêntricas propondo considerar outras formas de compreender a experiência de beleza, inclusive a partir das vivências de mulheres negras brasileiras.
Ao discutir o acesso à perfumaria, Valéria afirma que a questão não se resume ao poder de compra: envolve permitir que as consumidoras vivenciem experiências de qualidade e expressem quem são. Nesse sentido, a diversidade pode orientar tanto a criação de produtos quanto a maneira como as marcas reconhecem seu público.
Uma nova geração que também ensina
Na relação com profissionais mais jovens, ela fala que costuma identificar inquietude, velocidade de aprendizado e maior clareza na definição de propósitos, considerando que essas características contribuem para a construção das carreiras e também desafiam quem já está no mercado a rever práticas, e experimentar novos caminhos.
“A fórmula do passado não necessariamente serve agora”, observa.
A executiva destaca a importância de cultivar curiosidade, desenvolver senso crítico e fazer boas perguntas em um mercado marcado por mudanças rápidas, pontuando que a troca entre gerações permite combinar diferentes perspectivas, e construir respostas para desafios profissionais e pessoais.
Valéria também incentiva mulheres e homens negros a preservarem sua autenticidade e suas referências culturais durante a trajetória profissional. Essa postura, avalia, contribui para a presença e a ocupação de espaços de decisão.
Maquiagem como expressão de quem somos
A relação pessoal dela com a maquiagem ajuda a traduzir a maneira como ela enxerga o mercado da beleza: como um espaço de expressão individual, em que cada mulher pode construir sua própria imagem sem precisar se encaixar em um padrão. Usuária de cosméticos desde muito jovem, ela conta que continua apaixonada pela maquiagem e pelo que ela possibilita comunicar ao mundo.
“Maquiagem nos ajuda a expressar nossa melhor versão ”, afirma.
Para explicar essa relação de um jeito bem-humorado, Valéria conta que costuma brincar com a escolha do batom nos dias em que está cansada. “O meu nível de cansaço é inversamente à cor do meu batom. Quanto mais intenso, mais eu tô ali querendo dar um up, querendo dar uma energia”, relata.
Avanços que exigem continuidade
Ao avaliar as transformações que acompanhou ao longo da carreira, Valéria reconhece avanços na presença de pessoas negras em posições de liderança e na representação da diversidade no mercado da beleza, porém ressalta que a continuidade desse movimento depende de compromissos concretos.
“Ela precisa ser transformada de fato em compromissos reais com a sociedade, compromissos concretos”, afirma, ao defender que a diversidade esteja presente para além dos produtos e das campanhas publicitárias. Na Natura, 43% das pessoas colaboradoras se autodeclaram pretas e pardas, e ocupam 22% das posições gerenciais. A empresa tem como compromisso chegar a 30% dos cargos de gerência ocupados por pessoas negras até 2030.