Mundo Negro

Capoeira: a grande roda que nos puxa de volta pra casa

Foto: gerada por IA

No Dia Mundial da Capoeira, entenda por que a roda ainda une o povo negro, ligando corpo, som e memória da população negra escravizada no Brasil.

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A capoeira nasceu no período colonial como resposta de africanos escravizados à impossibilidade de se defender com armas. Disfarçando golpes em movimentos de dança, os cativos criaram uma linguagem corporal que driblava a vigilância dos senhores de engenho e, ao mesmo tempo, preservava conhecimentos que a escravidão tentava apagar. Essa origem prática, porém, não explica sozinha por que a capoeira segue tão central para a identidade negra quase 140 anos depois do fim formal da escravidão. A resposta está em quatro elementos que estruturam a prática até hoje, a roda, a terra, a espiritualidade e a música, e que juntos transformaram uma técnica de sobrevivência em patrimônio cultural da humanidade.

A roda é o primeiro desses elementos e talvez o mais importante. Diferente de uma arena de combate com hierarquia vertical, a roda de capoeira organiza os praticantes em círculo, todos voltados para o centro, todos responsáveis por sustentar o canto, o ritmo e a ética do jogo, enquanto apenas dois jogadores se revezam na disputa central. O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional descreve a roda como elemento estruturante da capoeira justamente por reunir, ao mesmo tempo, canto, toque, dança, jogo e ritual de herança africana recriados em solo brasileiro. Ao anunciar o reconhecimento da roda como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade, em 2014, a então presidente do órgão, Jurema Machado, resumiu o motivo desse reconhecimento em uma frase direta. “A roda de capoeira expressa a história de resistência negra no Brasil, durante e após a escravidão”, afirmou. Essa organização circular, sem topo nem base fixos, onde qualquer participante pode ser chamado ao centro, reproduz de forma corporal um modelo de comunidade horizontal que a escravidão tentava impedir a todo custo entre pessoas negras, mantidas isoladas e vigiadas justamente para não se organizarem coletivamente.

A relação com a terra é o segundo elemento, e talvez o mais silencioso. A escravidão foi, antes de qualquer outra coisa, um processo de arrancar populações inteiras de seus territórios de origem, jogando-as em um continente estranho sem nenhuma ligação ancestral com o solo. O filósofo congolês Kimbwandende Kia Bunseki Fu-Kiau, especialista em cosmologia bakongo, esteve no Brasil em 1997 para uma palestra em Salvador, e chamou atenção justamente para essa dimensão ao explicar a capoeira a partir da cultura do antigo reino do Congo-Angola. “O capoeirista não pode se tornar parte se ele não conhece a terra. Porque você pode voar em cima, mas você não pode esquecer que vai voltar à terra”, disse, segundo transcrição da palestra cedida por Daniel Mattar, treinel da Fundação Internacional de Capoeira Angola. Manter viva essa relação com o chão, mesmo em território imposto pela violência do tráfico negreiro, funcionou como forma de recriar um vínculo ancestral que a escravidão havia rompido à força.

A espiritualidade constitui o terceiro pilar, e é onde a capoeira mais se aproxima de outras tradições religiosas afro-brasileiras, como o candomblé e a umbanda. A roda é entendida por muitos praticantes como espaço sagrado, onde saudações, cânticos e toques específicos do berimbau não apenas conduzem o jogo, mas também evocam ancestrais e canalizam energias, segundo pesquisas sobre a dimensão simbólica da prática. Fu-Kiau associou essa espiritualidade à cosmologia bantu, que compreende a existência como ciclo contínuo entre nascimento, vida e morte, sem tratar a morte como fim absoluto. “Nós aprendemos mais com os mortos do que com os vivos. Os bantu falam: escutem mais os mortos que os vivos, porque os mortos se tornaram pedras, e os vivos são capim”, afirmou, numa imagem em que os vivos, frágeis como o capim, podem ser destruídos com facilidade, enquanto os mortos, transformados em pedra, seguem como base permanente de conhecimento. Essa cosmovisão explica por que mestres mais tradicionais tratam a capoeira como prática espiritual e não apenas física, e por que a transmissão de saberes de mestre para aprendiz carrega peso quase religioso.

A música completa o conjunto, funcionando como memória viva de tudo o que a escravidão tentou silenciar. É o toque do berimbau que determina o ritmo e o estilo do jogo dentro da roda, enquanto cantigas, corridos e ladainhas narram histórias de resistência, liberdade e luta que atravessaram gerações pela tradição oral, já que a maioria dos africanos escravizados era proibida de aprender a escrever. Essa musicalidade preservou, dentro da capoeira, um repertório de palavras, ritmos e ensinamentos que sobreviveram justamente porque foram cantados, não registrados em papel, resistindo tanto à repressão física quanto ao apagamento cultural.

Juntos, esses quatro elementos explicam por que a capoeira segue ocupando um lugar tão específico na cultura negra brasileira, distinto de outras artes marciais e distinto também de outras manifestações culturais isoladas. Ela nasceu como resposta a uma violência extrema, mas se estruturou em torno de uma organização comunitária horizontal, de uma relação de pertencimento com a terra, de uma cosmovisão que recusa o apagamento da morte e de uma música que funciona como arquivo vivo de memória ancestral. É esse conjunto, e não apenas a luta em si, que o Dia Mundial da Capoeira, celebrado em 3 de agosto, convida a reconhecer.

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