Protagonizada por Camila Pitanga e Bete Coelho, a complexidade da existência humana ganha contornos poéticos e múltiplos na peça “Lia Lia”, que estreia no Centro Cultural FIESP, em São Paulo, no dia 24 de julho, com entrada gratuita, após uma circulação pelo interior do estado. O espetáculo traz um encontro raro e inédito nos palcos com as atrizes dividindo a interpretação da mesma protagonista e convida o público a um mergulho nas memórias, vulnerabilidades e contradições de uma mulher que recusa definições únicas.
Em entrevista à editora Halitane Rocha do site Mundo Negro, Camila Pitanga diz que o mergulho na história de Lia tem sido um processo de trocas profundas no palco, abordando temas como a relação entre mãe e filha, a finitude e a forma como nos relacionamos com a morte. “Não tem como eu apagar quem eu sou quando estou interpretando a Lia. Ela me convida a pensar sobre esses temas. Eu me sinto muito Lia no sentido de viver essas vulnerabilidades, de viver esses dilemas, essas dúvidas existenciais e, ao mesmo tempo, saborear o tesão pela vida, a celebração que é estar vivo”.
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Camila e Bete Coelho compartilharam suas experiências ao encenar o mesmo papel e destacam como usaram suas diferenças para se complementarem. “Somos muito diferentes. Eu sou carioca, a Bete é mineira. Eu sou expansiva, Bete é mais metódica. Mas a beleza é exatamente essa convivência de a gente não querer apagar essas diferenças. O próprio processo de pesquisa e o fato de a gente estar interpretando a mesma personagem, acho que, de alguma maneira, está fazendo com que Camila e Bete possam se fundir, possam afetar uma à outra, e que eu, de alguma maneira, incorpore algo da voz da Bete e ela, algo de mim”, conta Camila.
Segundo Bete Coelho, a construção conjunta da personagem partiu de um desejo mútuo entre ela e Camila de compartilharem o palco em uma encenação potente. “Não nos interessava fazer duas Lias ‘iguais’, porque a própria personagem é feita de tempos, estados e camadas muito diferentes. A Camila criou uma Lia muito própria e acrescentou camadas interpretativas distintas das minhas. A personagem se torna uma só não porque se fecha, mas porque comporta muitas formas de existir”, explica a atriz, que também assina a adaptação dramatúrgica do romance de Caetano W. Galindo, “Lia: Cem vistas do Monte Fuji”, e codirige a montagem ao lado de Gabriel Fernandes.
Protagonismo feminino em cena e nos bastidores
O espetáculo conta com liderança feminina na direção, na cenografia e na produção executiva, apresentando uma narrativa que toca em temas essenciais como a ancestralidade e a finitude. “Essa peça fala de uma mudança, de uma torção que nós, mulheres, estamos fazendo de potência e alegria em comunhão. Ainda que o protagonismo seja feito por mulheres, é uma peça que fala do humano e ajuda muitos homens a se olharem também”, analisa Camila.
A atriz completa ao refletir sobre como a peça sensibiliza o público de forma ampla: “Eu acho que as mulheres têm uma certa liderança de ter a iniciativa para comprar o ingresso, para se organizar, mas os homens estão indo e estão muito gratos ao que a peça convida a pensar e refletir.”
Essa dimensão ganha camadas ainda mais significativas com a presença de mulheres negras. Além de Camila Pitanga, a atriz Laís Lacôrte integra o elenco, e jovens estudantes negras de teatro participam do coro cênico ao longo da circulação. Para Camila, embora a temática racial não seja o eixo central do texto, ocupar esse espaço carrega um forte simbolismo. “O fato de a peça ter no time mulheres negras faz com que não tenhamos como não pensar nesse nosso repertório que é só nosso — só a gente sabe o que sente frente a essas questões. O fato de estarmos ali encarnando e ocupando esse papel já simboliza e comunica isso para o público”, afirma.
Acessibilidade e formação de público
A circulação da peça é viabilizada pelo SESI-SP. A cada cidade percorrida, o projeto acolhe duas alunas do Núcleo de Artes Cênicas (NAC) do SESI no coro cênico, promovendo uma vivência prática e formativa ao lado das atrizes. Camila destaca a importância de proporcionar ao público um espetáculo gratuito e de alto rigor artístico. “Temos visto pessoas que nunca foram ao teatro e que são muito gratas pelo que a peça provocou em termos de emoção, reflexão e entretenimento. É muito bonito ver a reação da plateia”, comemora.
Lia Lia, nova produção da Teatrofilme, também conta com Lindsay Castro Lima e Roberto Audio no elenco, e tem direção de arte assinada pela Daniela Thomas.
Lia Lia
Gênero: Trama existencial
Duração: 80 minutos
Classificação: 14 anos
As sessões das sexta-feiras têm tradução em Libras
Local: Centro Cultural FIESP | Avenida Paulista, 1313, São Paulo – SP
Data e horário: de 24 de julho a 9 de agosto. Quarta a sábado, às 20h; domingos, às 18h
Informações: (11) 3322-0050
Entrada gratuita – reservas de ingressos no site Meu Sesi, a partir de 20/07 (primeira semana), 27/07 (segunda semana) e 03/08 (terceira semana).