Mundo Negro

BTS NO BRASIL: a herança da black music no álbum ARIRANG

Foto: Divulgação/ HYBE/ Big Hit Entertainment

Novo álbum do grupo sul-coreano retoma suas raízes no hip-hop e abre espaço para discutir como o rap, o R&B e outras linguagens musicais negras atravessaram fronteiras e foram reinterpretadas na Coreia do Sul.

A música negra atravessou fronteiras influenciando sonoridades ao redor do mundo, e ganhando novas expressões em diferentes contextos culturais. Esse intercâmbio cultural está em evidência no álbum ARIRANG do grupo sul-coreano, BTS, cuja identidade cultural dialoga com linguagens musicais que têm raízes na produção cultural negra, especialmente no hip-hop e no R&B. Com a chegada do grupo ao Brasil para a tão esperada turnê mundial, essa relação oferece uma oportunidade de olhar para além do fenômeno do K-pop e compreender a trajetória de referências que circulam pelo mundo sem perder suas origens.

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O próprio BTS reconhece essa conexão. Em entrevista à Bloomberg em março de 2026, o rapper e produtor musical integrante do grupo, SUGA afirmou que as raízes do grupo estão no hip-hop e que muitas faixas de ARIRANG mantêm uma presença expressiva do gênero. Mas como linguagens criadas e desenvolvidas por comunidades negras chegaram à Coreia do Sul e passaram a integrar a sonoridade de um dos grupos mais populares do século XXI?

Em entrevista ao Mundo Negro, Érica Imenes, jornalista, comunicadora, head de estratégia cultural da Chimera Media e apresentadora do K-Bill, quadro da Billboard Brasil dedicado à música e à cultura sul-coreanas, analisa essa circulação cultural. Para ela, reconhecer a contribuição negra é fundamental para compreender essa relação sem reduzir a trajetória do hip-hop e de outros gêneros à simples reprodução de referências estrangeiras.

“Eu acho que é praticamente impossível contar a história do K-pop como conhecemos hoje, sem reconhecer a música e a cultura negra como uma de suas matrizes fundamentais. E gosto de fazer essa distinção porque, muitas vezes, usamos termos genéricos como ‘influência ocidental’ ou ‘influência americana’ e acabamos apagando a racialidade dessas referências. Hip-hop, R&B, soul, funk, jazz, gospel e house, por exemplo, não são simplesmente gêneros ‘americanos’: são linguagens profundamente construídas a partir da experiência e da criação negra”, afirma Érica.

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A circulação internacional da música negra foi impulsionada por diferentes meios, como a indústria fonográfica, o rádio, a televisão, os discos importados e, posteriormente, a internet. Essas trocas ajudaram a levar o hip-hop e o R&B a diferentes países, onde artistas incorporaram essas linguagens às próprias experiências culturais e musicais.

Na Coreia do Sul, o processo ganhou força no início dos anos 1990, período associado à consolidação do K-pop moderno. O grupo Seo Taiji and Boys tornou-se um marco dessa transformação ao combinar rap, hip-hop e outras sonoridades contemporâneas com letras em coreano, em um momento de mudanças na música popular do país.

Uma das heranças do hip-hop no legado musical do BTS é a valorização da comunidade e do orgulho local, relacionados à cultura, à cidade e ao país. Nascido no Bronx, em Nova York, na década de 1970, o hip-hop foi construído a partir da criação cultural de comunidades negras, latinas e caribenhas, em um contexto de desigualdade social. Desde o início, a cultura hip-hop também foi uma forma de indivíduos contarem suas histórias, expressarem suas vivências e se reunirem como coletivo.

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Na Coreia do Sul, essas linguagens ganharam novos significados ao serem incorporadas por artistas que encontraram no rap e na cena underground outras possibilidades de expressão em meio às transformações culturais do país.

A internet ampliou esse movimento ao acelerar o acesso a músicas, videoclipes, performances e referências culturais que antes dependiam de canais mais limitados de circulação. O resultado não foi uma reprodução idêntica da música norte-americana, mas a criação de novas linguagens a partir do encontro entre diferentes tradições.

Érica Imenes destaca que o contexto sul-coreano precisa ser compreendido a partir de sua própria história, pois a juventude que encontrou no hip-hop novas possibilidades de expressão vivia um diferente contexto histórico que não pode ser equiparado diretamente à experiência das comunidades negras nos EUA.

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“Na Coreia do Sul isso ganha uma característica própria, porque o hip-hop chega a uma sociedade que estava passando por profundas transformações políticas, econômicas e culturais. A juventude coreana dos anos 1990 encontra no rap, na dança e no hip-hop possibilidades de expressão diferentes das formas anteriores da música popular do país, tomada pelo Trot na década de 1980 (e que foi a solução, na época, para começar a reencontrar a própria identidade sul-coreana num pós-guerra e libertação da colonização japonesa). Aí depois a internet acelera novamente esse processo. O que antes dependia de discos importados, televisão, rádio ou circulação física passa a acontecer quase simultaneamente. E o K-pop nasce e cresce justamente dentro dessa intensificação das trocas culturais globais”, explica.

O que a música negra acrescentou à linguagem do K-pop?

A influência da música negra no K-pop não se resume à presença do rap ou de determinados ritmos. Ela também está na maneira como elementos musicais são incorporados e transformados em novas produções.

Na obra “Soul in Seoul: African American Popular Music and K-pop” (2020), a pesquisadora Crystal S. Anderson, doutora em Estudos Americanos e especialista em cultura afro-asiática, analisa essa relação a partir do conceito de hibridização musical. Segundo a autora, artistas sul-coreanos retomam elementos do R&B, como instrumentação e técnicas vocais, e os articulam a estratégias próprias da música coreana, ampliando as possibilidades dessa tradição musical. Anderson também destaca o papel dos fãs internacionais, que identificam, interpretam e discutem essas referências, participando da construção do discurso crítico sobre o K-pop.

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Essa perspectiva ajuda a compreender o intercâmbio cultural sem apagar a origem das linguagens envolvidas: a música negra participa da formação sonora do K-pop, enquanto artistas sul-coreanos a reinterpretam a partir de suas próprias referências. No caso do BTS, essa discussão ganha outra dimensão em ARIRANG, álbum que coloca em diálogo a trajetória musical do grupo e sua identidade coreana.

A relação entre essas matrizes não torna a identidade do BTS menos coreana. Ela evidencia como a música se desenvolve por meio de encontros culturais e como reconhecer essas trocas também significa reconhecer as comunidades que criaram e difundiram as linguagens incorporadas nesse processo.

Entre apreciação cultural e apagamento

Reconhecer a circulação da música negra pelo mundo também exige discutir como essas referências são utilizadas e apresentadas. A troca cultural pode envolver pesquisa, colaboração, reconhecimento e transformação criativa, mas também pode reproduzir estereótipos ou apagar as comunidades responsáveis pela criação de determinadas linguagens.

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Segundo Érica, não é possível classificar toda a indústria do K-pop de maneira uniforme nessa discussão. A relação entre apreciação e apropriação cultural depende das práticas de artistas, produtores e empresas, assim como da maneira pela qual as referências são mobilizadas.

“Existe apreciação quando há estudo, reconhecimento da origem, colaboração, troca e transformação daquela referência em algo que dialoga de maneira legítima com a experiência do próprio artista. Mas também existem episódios na história do K-pop em que elementos associados à negritude foram utilizados apenas como estética: penteados, roupas, gestual, linguagem, determinados estereótipos de ‘ser rapper’ ou ‘parecer hip-hop’, às vezes sem qualquer compreensão da experiência racial que produziu aqueles códigos. É aí que a discussão sobre poder, origem e narrativa precisa entrar!”, afirma.

A comunicadora ressalta que as experiências históricas sul-coreanas e negras não devem ser tratadas como equivalentes. É possível reconhecer que diferentes juventudes encontraram no hip-hop ferramentas de expressão sem apagar as condições raciais e sociais específicas em que a cultura foi criada.

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“A experiência que está sendo narrada passa a ser coreana; a genealogia da linguagem utilizada para narrá-la continua sendo negra”, resume Érica.

ARIRANG, identidade coreana e alcance global da cultura negra

O título do álbum e da turnê mundial do BTS é estratégica e intencional. Arirang é uma canção folclórica tradicional coreana transmitida e recriada por gerações, com numerosas versões regionais e reconhecida pela UNESCO como patrimônio cultural imaterial, sendo associada à expressão de sentimentos, à união e à transmissão de memórias coletivas.

Ao escolher esse nome, o BTS coloca a identidade cultural coreana no centro de seu retorno como grupo. A decisão não elimina as referências musicais que participaram de sua formação; permite pensar como elas convivem com uma tradição profundamente ligada à história do país.

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Érica observa que essa combinação também abre espaço para que o público reconheça as diferentes camadas presentes na produção musical. Para ela, o trabalho de fãs e jornalistas é importante para contextualizar essas referências, em vez de reuni-las sob expressões genéricas como “música ocidental”.

A cultura de fãs também participa desse processo, pois eles são os grandes responsáveis por traduzir conteúdos, compartilhar informações, contextualizar e atribuir referências produzindo análises que ajudam a conectar artistas e públicos de diferentes países. No caso do fandom negro brasileiro, essa circulação pode trazer leituras próprias sobre a presença do hip-hop, do R&B e de outras linguagens musicais negras no K-pop.

“Enquanto uma mulher negra e brasileira, que consome e trabalha com K-Pop há 13 anos, é fascinante o fenômeno de que essas linguagens atravessaram o planeta até serem reinterpretadas por artistas sul-coreanos e depois chegarem a milhões de pessoas no Brasil. Isso é, para mim, uma demonstração extraordinária do alcance da cultura negra. E acredito que o fandom negro ocupa uma posição muito interessante nessa conversa, porque pode experimentar simultaneamente identificação e tensão. É possível amar o K-pop e reconhecer-se musicalmente em determinados elementos dele, ao mesmo tempo em que se questiona apagamento, estereótipo ou apropriação quando eles aparecem.[…] já que arte é política, nada mais político do que consumir algo que nos faz questionar, investigar, pensar e devolver pro mundo com novos olhares.”, destaca a jornalista.

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Se você ainda não conhece o grupo sul-coreano, preparamos uma seleção de dez músicas, incluindo solos dos integrantes, para quem ama a cultura hip-hop dar o play e ouvir junto com a tradução e de olho nas referências: 

  1. Hip Hop Phile — declaração de admiração pelo hip-hop, com referências a artistas e à história do gênero.
  2. UGH! — faixa de rap interpretada por RM, SUGA e j-hope, marcada por versos intensos.
  3. MIC Drop — destaca a força do rap na discografia do BTS.
  4. Change — parceria de RM com o rapper norte-americano Wale.
  5. on the street (with J. Cole) — colaboração de j-hope com o rapper J. Cole.
  6. Neva Play — parceria entre Megan Thee Stallion e RM.
  7. Standing Next to You (USHER Remix) — colaboração de Jung Kook com Usher, referência do R&B norte-americano.
  8. Hooligan — faixa de ARIRANG que integra a nova fase musical do grupo.
  9. Aliens — faixa de ARIRANG com produção de Mike WiLL Made-It, produtor negro norte-americano conhecido por trabalhos no hip-hop e no trap.
  10. 2.0 — outra faixa de ARIRANG produzida por Mike WiLL Made-It, reforçando a conexão entre o álbum e a trajetória do produtor no hip-hop.

Fontes: https://www.bloomberg.com/news/features/2026-03-20/exclusive-bts-on-new-album-arirang-creative-process-upcoming-world-tour

https://academic.oup.com/mississippi-scholarship-online/book/38395/chapter-abstract/333414999?utm_source=chatgpt.com

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