Mundo Negro

Brasil encara hoje a primeira república negra independente do mundo

Foto: reprodução/ Patrick Noze

O Haiti chega à Copa do Mundo 2026 com uma história que poucos conhecem; entenda quem é o adversário do Brasil hoje em Filadélfia.

O Haiti entra em campo nesta sexta-feira (19), às 21h30, horário de Brasília, para enfrentar o Brasil pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo 2026, no Lincoln Financial Field, em Filadélfia. A partida marca apenas a segunda participação haitiana em um Mundial, 52 anos depois da primeira. A memória dessa história foi resgatada nesta sexta-feira pelo comentarista e apresentador Marcos Luca Valentim, dos canais Globo e do perfil @ubuntuesporteclube, em vídeo publicado em suas redes sociais no dia do jogo, lembrando que a trajetória do Haiti é uma das mais singulares do continente americano.

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No século XVIII, a ilha de Saint-Domingue, atual Haiti, era a engrenagem mais lucrativa do sistema colonial europeu. Sob domínio francês, a ilha produzia sozinha mais da metade do açúcar e do café consumidos no mundo ocidental, tornando-se a possessão colonial mais rentável do planeta. Essa riqueza era extraída de uma estrutura demograficamente insustentável: em 1789, a população era composta por aproximadamente 500 mil pessoas escravizadas, 40 mil mulatos livres e apenas 30 mil brancos. A violência necessária para manter esse sistema era proporcional à desproporção que o sustentava.

Em agosto de 1791, numa cerimônia religiosa conhecida como Bois-Caïman, lideranças escravizadas do norte da ilha organizaram o início de uma revolta que se espalharia por todo o território. O que começou como levantes fragmentados ganhou coesão com a ascensão de Toussaint Louverture, um ex-escravizado que havia obtido a liberdade em 1776 e desenvolvido por conta própria um domínio notável de estratégia militar e política. Toussaint organizou a população rebelde num exército disciplinado, capaz de enfrentar tropas coloniais profissionais, e conduziu o movimento com uma habilidade que desconcertou as potências europeias que tentaram, sucessivamente, suprimir a revolução.

Foto: reprodução / wikipedia

Toussaint navegou pelas contradições geopolíticas da época com precisão calculada, aliando-se inicialmente aos espanhóis da parte oriental da ilha para fortalecer suas forças, e mudando de lado quando a França revolucionária promulgou a abolição da escravidão em 1794, tornando-se rapidamente a principal liderança militar do território. Em 1801, com o controle consolidado sobre toda a ilha, redigiu uma constituição que aboliu formalmente a escravidão e estabeleceu a autonomia do território, enviando uma cópia diretamente a Napoleão Bonaparte, que havia assumido o poder na França com planos de reestabelecer o controle colonial.

A resposta de Napoleão foi uma expedição de mais de 20 mil soldados veteranos das campanhas europeias. Toussaint foi capturado por meio de uma armadilha diplomática em 1802, deportado para a França e morreu preso no forte de Joux em abril de 1803, sem ver o desfecho do processo que havia estruturado. Antes de morrer, teria alertado que a França havia cortado apenas o tronco da árvore da liberdade, e que ela voltaria a crescer porque suas raízes eram profundas. Jean-Jacques Dessalines assumiu o comando, derrotou os franceses na Batalha de Vertières em novembro de 1803 e proclamou a independência em 1º de janeiro de 1804. O novo país recebeu o nome de Haiti, palavra de origem taína que significa “terra das montanhas”, em homenagem aos povos originários que habitavam a ilha antes da colonização. A derrota francesa na ilha também contribuiu para a decisão de Napoleão de vender o território da Louisiana aos Estados Unidos em 1803, alterando de forma permanente a configuração política da América do Norte.

O Haiti se tornou a primeira república negra e independente do mundo, o primeiro país do hemisfério ocidental a abolir definitivamente a escravidão e a única nação cuja independência resultou de uma revolta vitoriosa de pessoas escravizadas. O impacto desse evento atravessou fronteiras e décadas. No Brasil, onde cerca de 40% de todos os africanos escravizados trazidos às Américas haviam desembarcado, o temor de uma revolta similar marcou o debate político por gerações e esteve presente no contexto da Revolta dos Malês, na Bahia, em 1835.

Foto: reprodução / wikipedia

A seleção haitiana chegou pela primeira vez a uma Copa do Mundo em 1974, na Alemanha Ocidental, após vencer as eliminatórias da CONCACAF disputadas em Porto Príncipe. No Grupo D, os Granadeiros enfrentaram Itália, Polônia e Argentina. No dia 15 de junho de 1974, no Olympiastadion de Munique, o atacante Emmanuel Sanon marcou contra a Itália de Dino Zoff, que não sofria um gol havia mais de 1.100 minutos. Por seis minutos, o Haiti liderou sobre os italianos. A Itália reagiu e venceu por 3 a 1, mas o gol de Sanon atravessou décadas. Ele marcaria novamente contra a Argentina na última rodada, tornando-se até hoje o único jogador haitiano a marcar em Copas do Mundo. O Haiti perdeu os três jogos e foi eliminado na fase de grupos, mas deixou uma marca que meio século não apagou.

A volta ao Mundial em 2026 chegou de forma surpreendente. O Haiti terminou na liderança de um grupo considerado difícil nas eliminatórias da CONCACAF, superando seleções mais tradicionais da região como Costa Rica e Honduras, e garantiu vaga direta para o torneio. A campanha foi disputada integralmente em campos neutros porque a grave crise de segurança provocada por gangues que controlam partes significativas do território haitiano impediu a realização de jogos no país. Cerca de 80% da população vive na pobreza, e grupos armados detêm controle territorial suficiente para paralisar estradas e impedir o funcionamento de instituições. Classificar-se para um Mundial nessas condições é um resultado que extrapola qualquer tabela de pontos.

Brasil e Haiti acumulam três confrontos anteriores: o amistoso de abril de 1974 em Brasília, vencido pelo Brasil por 4 a 0 numa preparação para a Copa daquele ano; o amistoso de agosto de 2004 em Porto Príncipe, disputado durante um conflito armado que havia derrubado o governo haitiano e que ficou conhecido como o Jogo da Paz, com vitória brasileira por 6 a 0; e o jogo da Copa América Centenário de 2016, nos Estados Unidos, com goleada de 7 a 1. O confronto desta sexta-feira em Filadélfia é o quarto da história e o primeiro em uma Copa do Mundo. Para o Haiti, é a segunda vez em 52 anos que chega a esse palco, representando uma nação que construiu sua identidade na resistência e que hoje escreve mais um capítulo dessa história.

Fontes: InfoMoney, Agência Brasil, FIFA, Trivela, Flashscore, Haitian Times, Wikipedia

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