Vídeos mostram usuários espancando e furando o brinquedo. Versão negra é a mais atacada, enquanto tons claros ficam de fora das cenas de violência.
Um boneco antiestresse em formato de bebê negro se transformou em alvo de conteúdo violento e sexualizado nas redes sociais chinesas ao longo das últimas semanas, gerando repercussão internacional entre comunidades negras na Ásia, nos Estados Unidos e na Europa. Batizado de Natasha, o brinquedo de borracha é vendido como um item de alívio de estresse, mas passou a protagonizar vídeos em que usuários o espancam, perfuram, pisoteiam, esfaqueiam e até despejam água fervente sobre ele, segundo reportagens do Hong Kong Free Press, da CNN e do site especializado Bored Panda.
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A tendência começou de forma acidental, segundo a agência de notícias estatal chinesa Xinhua. Um vlogger tratava o boneco como se fosse sua própria filha e, ao deixá-lo cair no chão, filmou o momento em que o brinquedo se deformou. O vídeo viralizou e deu origem a uma onda de imitadores, que passaram a produzir cenas cada vez mais violentas em busca de engajamento. A partir daí, o produto passou a ser vendido em três tonalidades de pele, branca, marrom e preta, mas é a versão de pele mais escura, com traços faciais exagerados, a mais reproduzida nos vídeos de agressão, segundo o site OkayAfrica.
Uma explicação que circulou entre usuários chineses e foi reproduzida por veículos internacionais soma mais um elemento à controvérsia. Segundo esse relato, a versão de pele clara seria evitada nos vídeos de destruição por parecer humana demais e despertar mais empatia quando danificada, o que teria feito a versão escura se tornar a preferida para as cenas de violência.
Em Hong Kong, moradores negros classificaram a tendência como desumanizante. Innocent Mutanga, da ONG Africa Center Hong Kong, afirmou que a febre corre o risco de normalizar a desumanização de corpos negros. A atriz e cantora sul-africana Londiwe Ngubeni relatou ter visto uma criança maltratando o boneco em um supermercado local, dizendo se tratar de um “alívio de estresse”, e questionou publicamente a naturalização do gesto.
Nos Estados Unidos, a repercussão chegou a veículos como o Washington Informer, que ouviu profissionais de saúde mental. O psiquiatra Allan Cofield afirmou que não deveria haver comerciante disposto a carregar esse brinquedo obsceno e racista. Psicólogos citados pela reportagem alertaram ainda que o hábito de socar e destruir figuras com formato humano pode reforçar respostas agressivas em vez de ensinar regulação emocional saudável, sobretudo entre crianças e adolescentes expostos aos vídeos.
A controvérsia em torno do boneco Natasha reabriu comparações com uma longa tradição de brinquedos que caricaturaram e desumanizaram pessoas negras ao longo dos séculos 19 e 20, como os golliwogs britânicos, as bonecas mammy e as figuras pickaninny, hoje preservadas como artefatos históricos em instituições como o Museu Nacional de História e Cultura Afro-Americana e o Jim Crow Museum of Racist Memorabilia, nos Estados Unidos. A escritora e editora Monique Franz declarou que nenhum design é criado, fabricado e vendido isoladamente de intenção e propósito
Reguladores chineses reconheceram o problema, mas trataram o caso oficialmente como uma questão de violência e vulgaridade, sem mencionar o componente racial apontado por críticos internacionais. A Associação de Consumidores da China e a Administração Estatal de Regulação de Mercado intervieram para retirar vídeos considerados violentos das plataformas, e escolas do país passaram a proibir a posse do brinquedo. Inspeções em fábricas também identificaram irregularidades, como ausência de laudo técnico e origem desconhecida do material usado na fabricação, levando à retirada de alguns lotes das prateleiras físicas.
Apesar dessas medidas, o boneco seguia disponível em plataformas de comércio eletrônico como o Taobao até o fechamento desta reportagem, com preço médio inferior a R$ 10. Poucos vendedores oferecem outras cores quando o comprador busca pelo termo “boneco antiestresse” nos aplicativos, o que mantém a versão escura como a opção predominante nas prateleiras virtuais do país.
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