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	<title>Ale Santos, Autor em Mundo Negro</title>
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		<title>Afropessimismo: Uma teoria desconectada da realidade  brasileira?</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/afropessimismo-uma-teoria-desconectada-da-realidade-brasileira/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 31 Aug 2024 09:00:02 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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		<category><![CDATA[afropessimismo]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>É importante analisar criticamente as teorias negras que chegam ao Brasil, especialmente as provenientes dos Estados Unidos. Algumas delas podem não se alinhar com a nossa própria realidade intelectual e social. Uma dessas teorias é o <strong>afropessimismo</strong>, elaborada no livro homônimo de <strong>Frank B. Wilderson III</strong>. O afropessimismo é uma teoria crítica que analisa os efeitos contínuos do racismo, colonialismo e escravidão na vida dos negros, vendo a negritude como uma condição de &#8220;morte ontológica&#8221; e posicionando os negros como inimigos internos da sociedade civil. </p>



<p>Embora essa ideia pareça se alinhar com a intelectualidade brasileira, como os escritos de <strong>Abdias Nascimento</strong> sobre a opressão sistêmica do racismo, uma análise mais aprofundada revela que o afropessimismo nega os avanços e conquistas dos povos negros brasileiros e latino-americanos, desconsiderando a realidade social desses indivíduos. Portanto, é necessário ter cautela ao importar teorias negras de outros contextos, pois elas podem não refletir adequadamente a experiência dos negros no Brasil.</p>



<p>Em uma das respostas de sua entrevista para a Folha de São Paulo em 2021, Whindersson III acabou evidenciando como o Afropessimismo é totalmente desconectado da realidade Brasileira. Eu quero destacar aqui uma parte importante dessa entrevista. </p>



<p><em><strong>FOLHA: </strong>No início do mês, uma mulher negra que estava grávida morreu baleada durante uma ação policial em uma favela no Rio de Janeiro. Essa morte ilustra a sua afirmação de que pessoas negras não são vistas como pais, mães, filhos de alguém?</em></p>



<p><em><strong>WILDERSON III:</strong> Sim. Até 1865, a negritude era escravizada nos Estados Unidos. Aí houve uma guerra civil, emancipação, e as pessoas passaram a andar “livres”. Como a interpretação psíquica a respeito das pessoas negras poderia ter mudado da noite para o dia? Que evidências existem para sugerir isso? As pessoas me dizem: “prove”. Eu digo: “Não, você prove o oposto”. Você me prove que uma guerra aconteceu, correntes foram retiradas e, do nada, negros passaram a ser vistos como cidadãos e não como recursos. [<a href="https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/06/negros-nao-sao-vistos-como-humanos-mas-objetos-diz-autor-de-afropessimismo.shtml" target="_blank" rel="noreferrer noopener">https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2021/06/negros-nao-sao-vistos-como-humanos-mas-objetos-diz-autor-de-afropessimismo.shtml</a>]</em></p>



<p>Essa é uma resposta escandalosa para um autor, pois trouxe uma perspectiva desleixada sobre a história, sugerindo que a psique negra não foi modificada nem pela própria ação histórica. Além disso, sabemos que o Brasil não vivenciou uma guerra civil com emancipação como foi a Estadunidense, mas sim diversas revoltas regionais e uma abolição gradual, que durou quase um século. </p>



<p>Nesse processo, houve intensa participação negra, com a formação de quilombos e movimentos como os <strong>Malês</strong>, <strong>Palmares </strong>e do <strong>Dragão do Mar</strong>. Sem contar como as matrizes africanas resistiram e mantiveram suas conexões ancestrais, deixando marcas profundas na identidade nacional brasileira. Dessa forma, o afropessimismo desconsiderado essa realidade mais ampla e diversa, caindo em uma abordagem simplista e centrada apenas no contexto norte americano.</p>



<p>Vários críticos internacionais apontam esse achatamento da história negra promovido pela visão do afropessimismo, que o Whindersson condensou na frase &#8220;<em>Nós sugerimos que a escravidão é uma dinâmica racial que não terminou</em>&#8220;.  Destaco o <strong>Prof. Michael C. Dawsonde </strong>de Ciência Política na Universidade de Chicago e diretor fundador do seu Centro de Estudos de Raça, Política e Cultura:</p>



<p>&#8220;<em>Eles subestimam as conquistas das lutas pela liberdade negra. Até a própria biografia de Wilderson é um testemunho de mudanças críticas na experiência negra nos EUA. As mudanças positivas que são omitidas no trabalho de muitos afropessimistas — como a formação da moderna sociedade civil negra e uma grande expansão de uma política negra robusta e frequentemente revolucionária — servem para apagar as lutas frequentemente heróicas dos ativistas negros; lutas que muitas vezes falharam tragicamente em trazer progresso substancial, mas que também às vezes alcançaram vitórias na luta pela libertação negra.&#8221; [</em><a href="https://www.ideology-theory-practice.org/blog/against-afropessimism"><em>https://www.ideology-theory-practice.org/blog/against-afropessimism</em></a><em>]&nbsp;</em></p>



<p><strong>Afropessimismo ou Lélia Gonzalez</strong></p>



<p><strong>Angela Davis </strong>já alertou para a necessidade de olhar para a intelectualidade Negra Brasileira, principalmente de mulheres como <strong>Lélia Gonzalez</strong>. O afropessimismo contrasta com a visão de Lélia sobre a identidade negra, Lélia era bastante consciente de como alguns autores estadunidenses mantinham essa abordagem centrada em si mesmos, segundo que Lélia trouxe pro centro da discussão o impacto cultural que as mulheres pretas e indígenas tiveram na construção das nossas identidades, da própria língua, inclusive, sem cair no pessimismo nilista que tira a existência negra da própria história humana. </p>



<p>A construção da identidade proposta por Lélia, chamada de <strong>Amefricanidade</strong>, nasce de uma proximidade direta com os povos nativos da floresta, os ameríndios. Considerando também o peso da opressão sobre sua existência. Enquanto o afropessimismo encara os povos indígenas como uma parte do sistema anti-negro e parceiro da opressão supremacista contra descendentes de africanos. </p>



<p>Na mesma entrevista o Whindersson afirmou &#8220;A coalizão multirracial impõe uma certa limitação acerca do que é permitido falar&#8221; e em sua obra ele encara que a luta central do mundo é dos brancos e seus &#8220;parceiros juniores&#8221; não brancos contra todos os negros, não importa sua posição. </p>



<p>O que ele chama de &#8220;parceiros juniores&#8221; é praticamente todas as comunidades não brancas do mundo, da asiática, a palestina, indiana, latina e etc. Porque basicamente sua leitura de mundo é formada apenas pelos negros e o sistema anti-negro. Não é incomum você encontrar afropessimistas atacando outras minorias nas redes sociais, principalmente a comunidade LGBTQIA+, que pra afropessimistas são um dos maiores aliados do sistema anti-negro global. </p>



<p>Quem critica esse ponto de maneira punjante é a<strong> Gloria Daisy Wekke</strong>,  afro-surinamesa, professora  e escritora que se concentrou em estudos de gênero e sexualidade na região e diáspora afro-caribenha. Ela foi a vencedora do Prêmio Ruth Benedict da American Anthropological Association em 2007</p>



<p><em>A facilidade com que Wilderson agrupa todos os outros que não são negros, sem aplicar nenhuma diferenciação, é surpreendente. Os brancos e seus parceiros juniores, que são subordinados e desfavorecidos, mas pertencem à humanidade, fizeram causa comum entre si em sua negrofobogênese, ou negrofobia. Com essa declaração, fica claro mais uma vez que Wilderson não pensa interseccionalmente, mas em termos singulares. Como é possível pensar sobre todas essas categorias de pessoas sem considerar as sobreposições entre elas? (-[<a href="https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7982355/mod_resource/content/0/wekker-2020-afropessimism_review.pdf">https://edisciplinas.usp.br/pluginfile.php/7982355/mod_resource/content/0/wekker-2020-afropessimism_review.pdf</a>] </em></p>



<p>Enquanto Wilderson e outros afropessimistas trabalham com a demonização da interseccionalidade, Lélia foi reconhecida como uma das primeiras intelectuais a trabalhar de maneira sistemática com o feminismo interseccional no Brasil. Ela analisou os fenômenos sociopolíticos que afetam a comunidade negra, destacando como as opressões de gênero e raça se entrelaçam e impactam a vida das mulheres negras da América-Latina, configurando a identidade que chamou de amefricanidade:&nbsp;</p>



<p><em>Cabe aqui um dado importante da nossa realidade histórica: para nós, amefricanas do Brasil e de outros países da região – assim como para as ameríndias – a conscientização da opressão ocorre, antes de qualquer coisa, pelo racial. Exploração de classe e discriminação racial constituem os elementos básicos da luta comum de homens e mulheres pertencentes a uma etnia subordinada. (GONZALEZ, 1988)</em></p>



<p>Em vários textos da autora você consegue perceber as conexões entre povos ameríndios e amerficanos, como povos oprimidos pela colonização européia e a visão de que os ameríndios, principalmente as mulheres ameríndias, seriam parceiras da opressão anti-negro, como proposto pelo afropessimismo do Wilderson não encontra fundamentos aqui. No ensaio &#8220;Por um feminismo afro-latino-americano&#8221;, Lélia escreveu:&nbsp; &#8220;tentarei mostrar que, dentro do movimento de mulheres, as negras e indígenas são o testemunho vivo dessa exclusão. &#8220;</p>



<p><strong>Um movimento despolitizante</strong></p>



<p>Após considerar qualquer movimento histórico negro, inerente a agenda anti-negra e sem qualquer influência e resultado na condição do negro em ser um eterno escravizado, cercado de inimigos e grupos que reforçam a agenda anti-negra, o que resta ao pensamento negro mundial? </p>



<p>Como apontam alguns críticos essa análise extremamente simplificada do mundo deixa bastante turva a observação dos fatos, mantendo um relato falho da relação entre a opressão negra, a supremacia branca e o capitalismo. Sem enxergar esses aspectos como eles são no mundo, o afropessimismo, assumido como pensamento de mobilização, se torna uma ideologia despolitizante. </p>



<p>Na prática, como citei acima, é muito possível ver que a energia de afropessimistas estão mais concentrados em combater os grupos minoritários considerados antinegros, do que na própria supremacia branca, afinal, para eles a posição histórica definida pela supremacia é insuperável e sempre será.  </p>



<p>Escute a conversa sobre isso no episódio do <strong>Infiltrados No Cast</strong> para saber mais sobre relatos e comentários de afropessimistas. </p>



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		<title>Negros ou Blacks? Como a definição racial nos EUA se diferencia do Brasil</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/negros-ou-blacks-como-a-definicao-racial-nos-eua-se-diferencia-do-brasil/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 14 Aug 2024 12:38:44 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>As redes sociais se tornaram vitrine da confus&#227;o racial que ronda uma parte da comunidade negra dos EUA e ficou bastante comum, principalmente para n&#243;s brasileiros, encontrarmos questionamentos sobre a nossa &#8220;negritude&#8221; vindos daquele pa&#237;s. O caso mais emblem&#225;tico foi no Mundial de Gin&#225;stica Art&#237;stica 2023, quando v&#225;rios estadunidenses questionaram a imprensa ter divulgado Rebeca [&#8230;]</p>
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<p>As redes sociais se tornaram vitrine da confusão racial que ronda uma parte da comunidade negra dos EUA e ficou bastante comum, principalmente para nós brasileiros, encontrarmos questionamentos sobre a nossa &#8220;negritude&#8221; vindos daquele país. O caso mais emblemático foi no Mundial de Ginástica Artística 2023, quando vários estadunidenses questionaram a imprensa ter divulgado <strong>Rebeca Andrade</strong> como &#8220;Black&#8221; ou seja, negra para nós. </p>


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<figure class="aligncenter size-full"><img fetchpriority="high" decoding="async" width="746" height="516" src="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1.png" alt="" class="wp-image-82219" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1.png 746w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-300x208.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-150x104.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-218x150.png 218w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-696x481.png 696w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-607x420.png 607w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2024/08/image-1-100x70.png 100w" sizes="(max-width: 746px) 100vw, 746px" /></figure>
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<p>Mesmo em 2024, com o histórico pódio formado por Rebeca Andrade, <strong>Simone Biles e Jordan Chiles</strong>, ainda encontramos algum barulho em inglês nas redes. De onde vem esse desencontro da identidade negra? A resposta disso é mais fácil do que se imagina, mas vamos por partes. </p>



<p>Talvez você tenha assistido vários filmes, legendados ou dublados sobre a história das lutas civis negras nos EUA e como os dubladores ou tradutores frequentemente colocam a palavra &#8220;negro&#8221; no lugar de &#8220;Black&#8221; você não tenha dado conta de que são dois termos construídos de forma diferente.<strong> </strong>Já escrevi <a href="https://mundonegro.inf.br/a-definicao-do-preto-ou-do-negro-no-brasil-e-maior-que-as-pessoas-imaginam/" target="_blank" rel="noreferrer noopener"><strong>(aqui)</strong> </a>sobre a construção histórica do termo negro no Brasil, nascida nas discussões políticas dos movimentos do nosso país ao longo de décadas. O mesmo aconteceu nos EUA, porém com a palavra &#8220;Black&#8221;, que foi substituindo as outras &#8220;colored&#8221; e &#8220;negro&#8221; após a década de 60. </p>



<p>Um dos ingredientes que sempre esteve presente para algumas comunidades negras estadunidenses era um tipo complexo de nacionalismo que ajudou a definir o termo, isso porque os esforços de muitos era focado exclusivamente na sua comunidade. O presidente da <strong>African American Intellectual History Society (AAIHS) </strong>e professor de história da <strong>Claflin University </strong>escreveu: </p>



<p><em>A identidade &#8220;Black&#8221; é a identidade social mais política usada para identificar pessoas de <strong>ascendência africana nos Estados Unidos</strong>. A década de 1960 constitui um momento fundamental que recriou o que significava ser negro nos Estados Unidos, amarrando percepções depreciativas de negritude anteriores à década de 1960 como um adjetivo e o uso de black pós-década de 1960 para denotar povo, orgulho e poder. Ativistas negros nas décadas de 1960 e 70 redefiniram e recriaram o que significava ser black nos Estados Unidos. </em><strong><a href="https://www.aaihs.org/black-identity-and-the-power-of-self-naming/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(Veja aqui)</a></strong></p>



<p>Acredito que isso vai muito pela questão dos estadunidenses se enxergarem como centro de todo o mundo, então é comum que algumas definições enfatizem a comunidade interna do seu país. É isso gera essa sensação de que são uma etnia própria para a galera mais desinformada da internet.&nbsp;&nbsp;</p>



<p>Os EUA também foram alimentados de ideologias nacionalistas pretas que reforçam esse entendimento. Os negros americanos geralmente percebem duas formas de patriotismo &#8211; uma versão convencional impregnada de branquitude e uma marca pessoal que reconhece as lutas raciais. </p>



<p>A visão convencional dos estadinidenses considera os brancos os verdadeiros americanos e exclui as contribuições dos negros. A outra visão, nascida da comunidade negra, é um contraste a isso. Muitos negros nos EUA, veem sua comunidade como uma &#8220;nação dentro de uma nação&#8221; com experiências e perspectivas distintas em desacordo com a sociedade em geral. </p>



<p>A ideia de ser uma nação própria acaba se refletindo também na relação com comunidades negras imigrantes, de outras nacionalidades. Deste modo é comum vocês encontrarem na imprensa mundial termos diferentes para negros brasileiros, colombianos e etc. Somos ocasionalmente descritos como Afrolatinos, Afro-brasileiros e ainda há estadunidenses que insistem em não usar o termo &#8220;black&#8221; para uma comunidade global de descendentes de africanos.</p>



<p>Voltando, o que isso tudo nos diz é que a resposta mais direta que eu poderia dar para a pergunta inicial &#8220;de onde vem essa bagunça?&#8221; é a escravidão colonial. Ela que destruiu a conexão dos povos africanos com muitos de seus descendentes e criou denominações inconsistentes para todos. O Negro, o black ou o afro-latino são invenções humanas, marcadores sociais e não genéticos ou sanguíneos. Por isso os povos negros tentam ressignificar e construir algo para sí com essas ideias pelo mundo e é muito natural que o entendimento histórico dos termos seja modificado pelo tempo e pela consciência social. </p>



<p>Atualmente é comum encontrarmos correntes mais universais da identidade negra nos EUA. A <strong>Professora Celeste Watkins-Hayes</strong>, professora de estudos afro-americanos na <strong>Northwestern University</strong> diz: &#8220;<em>Black&#8221; é frequentemente um padrão melhor que reconhece e celebra a raça, a cultura e as experiências vividas de pessoas em todo o mundo. &#8220;O movimento que você vê agora em direção ao preto é realmente reconhecer a natureza global da negritude&#8221;.</em> <strong><a href="https://www.cbsnews.com/news/not-all-black-people-are-african-american-what-is-the-difference/" target="_blank" rel="noreferrer noopener">(Leia aqui)</a></strong></p>



<p>Ainda teremos muitas discussões sobre o assunto, pois infelizmente, na mesma proporção crescem movimentos que tentam ainda centralizar a discussão naquele país e se diferenciar das outras comunidades negras. Eu contei mais sobre essas experiências e como alguns brasileiros enfrentam elas nos EUA no episódio do meu podcast. Dá o play e fica ligado que eu volto com mais informações pra vocês em breve.&nbsp;</p>



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		<title>Orgulho Nerd: Como a Imaginação enfrenta o Racismo e constrói novos Heróis</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/orgulho-nerd-como-a-imaginacao-enfrenta-o-racismo-e-constroi-novos-herois/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 21 May 2024 17:03:42 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Antigamente eu diria que pessoas negras não tinham motivos para se orgulhar de uma identidade Nerd. Quem cresceu nos anos 90 tinha poucas opções de personagens negros na TV aberta ou na cultura pop que representassem bem qualquer criança ou adolescente negro na fase escolar. Era bem pelo contrário, os que existiam reforçam os estereótipos em nós. Essa falta de representação era especialmente evidente para mim. Vocês devem lembrar daquele coitado que era o Cirilo na versão original de Carrossel ou pior, do Saci no Sítio do Pica Pau Amarelo e eu ainda tive a infelicidade de viver essa fase da adolescência na cidade do Monteiro Lobato, onde até hoje você encontra as apresentações dos textos racistas em peças teatrais nas escolas. </p>



<p>Pra quem nasceu nas últimas décadas, vale ressaltar que não existia <em>internet</em> e os conteúdos não chegavam facilmente nas comunidades negras, por isso muitos ficcionistas negros famosos como <strong>Sandra Menezes</strong> e <strong>Octavia Butler</strong> tiveram experiências significativas de SCIFI com a televisão. Mesmo com as limitações, a gente dava um jeito de se divertir e o meu era jogar RPG, porém só podia contar com revistas emprestadas e alguns livros de fantasia que encontrava na biblioteca escolar, eles eram sempre os mais clássicos possíveis para quem curte obras fantásticas: <strong>H.G. Wells</strong>, <strong>Asimov</strong>,<strong> Júlio Verne</strong>, <strong>Edgar Allan Poe</strong>… autores que acabaram formando meu imaginário. Nada era sobre meu mundo, minha realidade e minha cara, mas tinha uma coisa que me aproximava demais dos Nerds, todos eram odiados na escola.</p>



<p>Filmes como &#8220;A vingança dos Nerds&#8221; mostravam como todo o grupo era visto: um bando de desajustados, bobos, fãs de videogames, quadrinhos, naves espaciais, que nunca eram convidados para as festas mais descoladas da turma. Passar a adolescência com essa turma foi muito divertido. No entanto, enquanto me divertia com meus amigos nerds, não percebia que a exclusão que enfrentávamos era diferente, meus amigos espelhavam-se nos heróis das histórias, a imagem dos personagens alimentavam seus egos. O preconceito que caia sobre eles era sobre serem &#8220;excêntricos&#8221;, por mais que fossem rejeitados e tivessem seus gostos culturais criticados pela maioria, toda exclusão vivida por essa turma poderia ser apenas uma estranheza cultural, nada comparado ao racismo que atravessa inúmeras questões do dia-a-dia. </p>



<p>Por isso, existe ainda uma parcela grande dos Nerds da minha geração que tem dificuldades em se aprofundar neste tema. Até entendo essa reação, afinal eles experimentaram uma exclusão em algum momento da vida e acabam confundindo isso, pois não perceberam que reproduziam a mesma rejeição dentro da comunidade. Historicamente, a representação de personagens negros em quadrinhos, filmes, séries e jogos tem sido limitada e, muitas vezes, carregada de estereótipos negativos. Essa escassez de representatividade não apenas marginaliza as contribuições e experiências dos nerds negros, mas também perpetua uma visão de mundo estreita e homogênea. O racismo presente no mundo todo afastou criadores negros e dificultou que histórias criadas por autores da comunidade se tornassem tão populares quanto os heróis clássicos, os brancos se tornaram o &#8220;panteão canônico&#8221;, como deuses imutáveis e qualquer alteração gera uma onda de repúdio grosseira. </p>



<p>Acontece que hoje a identidade nerd não é mais rejeitada, ser Nerd se tornou pop, a vingança dos nerds se concretizou e isso trouxe novos desafios para a comunidade. Alguns Nerds se tornaram donos de startups, empresários, escritores famosos, atores e membros influentes do mundo do entretenimento e a experiência da exclusão na adolescência parece ter desaparecido da sua mente, alguns ficaram mais insensíveis ainda à realidade de exclusão da comunidade negra. As novas gerações consomem a cultura nerd sem ter nem noção de como era difícil se identificar assim no passado, elas se agarram aos heróis canônicos de forma mais reacionária ainda, se mobilizando na internet, criando canais no youtube e conseguindo voz e visibilidade que era impensável anteriormente.&nbsp; Eu vi nesse momento um grupo bem diferente daqueles que se tornaram meus amigos, não era mais adolescentes estranhos com dados e livros nas mãos, não estavam mais interessados em criar juntos e pra piorar, não apenas ignoravam as questões raciais, mas estavam se tornando reativas a elas, se tornando agressivos a qualquer menção da discussão, acusando de vitimismo e em alguns casos extremos agredindo com ofensas racistas quem apontasse a falha da visibilidade nessa cultura.&nbsp;</p>



<p>Porém a alma da cultura Nerd é acreditar na sua imaginação, as nossas maiores histórias são sobre seres que atravessam a galáxia, os universos ou enfrentaram seres medonhos em mundos aterrorizantes porque acreditavam em si e nos seus sonhos. É isso que aproxima muita gente que ainda se sente excluída da comunidade, ativistas negros, LGBTQIA+, mulheres e todos aqueles que também acreditam na fantasia. É esse poder nerd que fez nascer e crescer personagens e produtores que passaram a me representar muito, como Blade. É importante ressaltar o ativismo do ator, <strong>Wesley Snipes</strong> em causas como violência policial e racismo; os personagens do selo Milestone, entre eles o Super Choque e o ativismo dos criadores dentro da indústria dos quadrinhos. <strong>Jordan Peele</strong> e seus filmes de terror. </p>



<p>É por conta de todos esses criadores, atores e produtores da comunidade que hoje temos várias personagens importantes que estão fazendo muito sucesso e contribuindo pra que a cultura Nerd seja mais inclusiva e representativa. Através de suas obras, esses pioneiros estão quebrando barreiras e construindo um legado de diversidade e aceitação. Personagens como Miles Morales, Riri Williams e Nubia têm inspirado uma nova geração a ver a si mesmos como heróis, não apenas nas páginas dos quadrinhos, mas também na vida real. Diretores como <strong>Ava DuVernay</strong> e <strong>Ryan Coogler</strong> têm redefinido o que significa ser um super-herói no cinema, trazendo perspectivas autênticas. Aqui no Brasil, movimentos como a Perifacon têm crescido, mostrando o poder da comunidade Nerd periférica, e nas periferias do norte têm se fortalecido a Convenção Nerd de Cultura e Tecnologia da Amazônia, trazendo o olhar de toda cultura dessa região para dentro da cultura de nerdices. </p>



<p>Infelizmente, como em todas as esferas da sociedade, qualquer pessoa que fale de diversidade e esteja ativamente discutindo os espaços de representatividade, a gente vai encontrar a reação agressiva de gente insensível ou ignorante. Apesar de tudo isso ainda é possível dizer que também tenho um Orgulho Nerd, foi essa identidade que preservou meu imaginário na adolescência e permitiu que eu sonhasse o suficiente para me transformar hoje em um escritor de ficção científica reconhecido e tento contribuir para preencher também a imaginação das próximas gerações de Nerds.&nbsp;</p>
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		<title>Sabia que outubro é o mês da Ficção Negra? Conheça autores brasileiros e suas obras</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/sabia-que-outubro-e-o-mes-da-ficcao-negra-conheca-autores-brasileiros-e-suas-obras/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 06 Oct 2021 15:06:50 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Cinema Negro]]></category>
		<category><![CDATA[Gabito Martins]]></category>
		<category><![CDATA[Lu Ain-Zaila]]></category>
		<category><![CDATA[Mês da Ficção Negra]]></category>
		<category><![CDATA[O Nó do Diabo]]></category>
		<category><![CDATA[PJ Kaiowá]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>N&#227;o &#233; muito comum aqui no Brasil, mas Outubro &#233; considerado pelos estadunidenses como o m&#234;s da Fic&#231;&#227;o Cient&#237;fica ou Fic&#231;&#227;o Especulativa Negra (Black Speculative Fiction Month). Essa data faz muito sentido quando a gente olha para o que podemos chamar de &#8220;Tradi&#231;&#227;o da Fic&#231;&#227;o especulativa&#8221; e entende que os maiores nomes dessa produ&#231;&#227;o eram [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p>Não é muito comum aqui no Brasil, mas Outubro é considerado pelos estadunidenses como o mês da Ficção Científica ou Ficção Especulativa Negra (Black Speculative Fiction Month). Essa data faz muito sentido quando a gente olha para o que podemos chamar de &#8220;Tradição da Ficção especulativa&#8221; e entende que os maiores nomes dessa produção eram apenas&nbsp; pessoas brancas, eram, porque nas últimas décadas os ficcionistas negros começaram a ocupar uma fatia muito grande do imaginário popular com livros, filmes, séries e Histórias em Quadrinhos.&nbsp;</p>



<p>Nos últimos anos você deve ter assistido no mínimo uma das produções de Jordan Peele, como os filmes &#8220;Corra&#8221; ou &#8220;Nós&#8221;, acompanhou o sucesso estrondoso do filme Pantera Negra, viu as obras de Ficção da Octavia Butler traduzidas por editoras Brasileiras e assistiu produções afrofuturistas como a produção do Spike Lee na Netflix, &#8220;A Gente Se Vê Ontem&#8221; ou de heróis como Luke Cage e Raio Negro.&nbsp;</p>



<p>Se você já conhece algumas dessas obras então entendeu que a Ficção Especulativa Negra só tem crescido como tendência cultural e audiência. Claro que a produção Negra Brasileira não fica de fora, por isso eu vou indicar algumas obras e autores nacionais pra você compartilhar nesse mês da Ficção Especulativa Negra.&nbsp;</p>



<p><strong><a href="https://www.pjdraw.com/product-page/eu-sou-lume">Eu Sou Lume</a> de PJ Kaiowá</strong></p>



<p>Essa HQ conta a história de Ludmila, uma jovem com um talento sem igual para dança, aos poucos vai descobrindo outras habilidades das quais podem trazer problemas aos invés da fama e sucesso. Sua vida muda totalmente quando seus poderes eclodem ao se deparar com seres poderosos e perigosos chamados TREVAZ. Agora Mila vai lutar para manter seu lado humano e como LUME, assume a missão de trazer luz onde a sociedade insiste em manter na escuridão</p>



<p>O roteiro e as ilustrações são do artista PJ Kaiowá, ele é uma das minhas maiores referências quando penso no poder de um ficcionista negro brasileiro, o cara simplesmente já trabalhou com alguns das maiores editoras de quadrinhos e games do mundo:&nbsp; Legendary Comics, Capcom, Warner, Dark Horses Comics e Devils Due Comics. Alguns trabalhos de destaque com quadrinhos foram PACIFIC RIM: TALES FROM YEAR ZERO, HOW TO PASS HUMAN.&nbsp;</p>



<p><strong>Ìségún de Lu Ain-Zaila</strong></p>



<p>Não dá pra falar de fantasia e ficção negra no país sem citar a Lu Ain-Zaila. Em 2015, após uma visita a Bienal do Livro do Rio de Janeiro, a autora percebeu que não haviam livros em que poderia ser identificar, resolveu então criar uma história de ficção científica semi-distópica na Duologia Brasil 2408, composta pelos romances In) Verdades (2016) e (R) Evolução (2017), lançados de forma independente, os romances contam a história de uma heroína negra chamada Ena, que luta contra a corrupção no Brasil do século 25.&nbsp; Essa parte da história da Lu é muito parecida com a mãe do afrofuturismo, a Octavia, que começou a escrever após assistir um filme e pensar que poderia fazer melhor e mais próximo a realidade dela.&nbsp;</p>



<p>No livro Ìségún a autora constrói uma literatura ousada que já considera uma evolução na sua própria produção afrofuturista: &#8220;Ìségún é meu passo além no afrofuturismo à brasileira, no campo da literatura especulativa negra, que mescla entre abebés e ofás pensadores negros e encruzilhadas epistemológicas, literatura periférica e poética social, pessoas negras que entendem o poder contido em suas raízes ou estão a conhecer”&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-wp-embed is-provider-monomito-editorial wp-block-embed-monomito-editorial"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<blockquote class="wp-embedded-content" data-secret="jDhX7PO2Dq"><a href="https://monomitoeditorial.com/produto/isegun/">Ìségún</a></blockquote><iframe class="wp-embedded-content" sandbox="allow-scripts" security="restricted"  title="&#8220;Ìségún&#8221; &#8212; Monomito Editorial" src="https://monomitoeditorial.com/produto/isegun/embed/#?secret=jDhX7PO2Dq" data-secret="jDhX7PO2Dq" width="600" height="338" frameborder="0" marginwidth="0" marginheight="0" scrolling="no"></iframe>
</div></figure>



<p><strong>O Nó do Diabo com Gabito Martins</strong></p>



<p>Esse filme traz cinco contos de horror com histórias que se entrelaçam em um período em que a escravidão ainda era vigente no Brasil e uma série de fenômenos estranhos passam a acontecer e cenas de morte passam a ser evidentes.&nbsp; São Vários diretores nesse longa: Ramon Porto Mota, Ian Abé, Gabriel Martins e Jhésus Tribuz. Aqui gostaria de destacar o Gabriel Martins, o Gabito Mineiro que é um dos sócios da produtora Filmes de Plástico. Sua trajetória no cinema tem ganhado bastante reconhecimento com produções como &#8220;No Coração do Mundo&#8221;. &nbsp; <a href="https://www.filmesdeplastico.com.br/no-coracao-do-mundo">https://www.filmesdeplastico.com.br/no-coracao-do-mundo</a></p>



<p>Junto com os outros diretores ele consegue entregar uma obra realmente assustadora em Nó do Diabo. Se você tiver estômago para horror sobrenatural e colonial, dá o play que não vai se arrepender.&nbsp;</p>



<figure class="wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio"><div class="wp-block-embed__wrapper">
<div class="youtube-embed" data-video_id="EKMKTQhPrEA"><iframe title="O Nó do Diabo | Trailer Oficial" width="696" height="392" src="https://www.youtube.com/embed/EKMKTQhPrEA?feature=oembed&#038;enablejsapi=1" frameborder="0" allow="accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture" allowfullscreen></iframe></div>
</div></figure>



<p>Foram apenas três nomes aqui, mas fica o convite pra você vasculhar as redes sociais e encontrar outros ficcionistas negros pra celebrar com a gente este mês.</p>
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		<title>É preciso se unir para evitar o colapso da educação no país</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/e-preciso-se-unir-para-evitar-o-colapso-da-educacao-no-pais/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Fri, 30 Apr 2021 15:23:21 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[educação]]></category>
		<category><![CDATA[Kelly Baptista]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Por Kelly Baptista, especialista em gest&#227;o de pol&#237;ticas p&#250;blicas e coordenadora geral da Funda&#231;&#227;o 1Bi, apoiada pelo Grupo Movile Passado mais de um ano de pandemia, a Educa&#231;&#227;o continua em estado grave no Brasil. Para quem acompanha o setor, esse cen&#225;rio n&#227;o &#233; novo &#8211; apesar de espantoso. Embora haja investimentos, os recursos n&#227;o chegam [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[
<p><em><strong>Por Kelly Baptista, especialista em gestão de políticas públicas e coordenadora geral da Fundação 1Bi, apoiada pelo Grupo Movile</strong></em></p>



<p>Passado mais de um ano de pandemia, a Educação continua em estado grave no Brasil. Para quem acompanha o setor, esse cenário não é novo – apesar de espantoso. Embora haja investimentos, os recursos não chegam a todos. A Educação formal, até então centrada na relação entre aluno e professor na sala de aula, precisou se adaptar e crianças e adolescentes de todas as regiões do país tiveram de seguir com os estudos de forma remota. Para muitos, a falta ou escassez de acesso à internet e de aparelhos, como smartphones e computadores, trouxe um desafio extra àqueles que já sofriam com um ensino precário.</p>



<p>Ainda assim, mesmo com dificuldades, foi registrado um crescimento na quantidade de domicílios com acesso à internet no país, principalmente na região Nordeste, de acordo com a PNAD Contínua TIC 2019, divulgada pelo IBGE, que estudou o acesso à Tecnologia da Informação e Comunicação.</p>



<p>Os dados da PNAD evidenciam que a desigualdade no acesso ao recurso afeta, de forma mais severa, as escolas públicas. De todos os estudantes sem internet no país, 95,9% estavam em escolas públicas em 2019, número que correspondia a cerca de 4,1 milhões de alunos. Com a pandemia e o aumento da pobreza, esperamos impactos ainda maiores nesse acesso, visto que muitas famílias sequer conseguem garantir a subsistência. Assim, as desigualdades se sobrepõem, aumentando o abismo entre crianças e jovens brasileiros na área da Educação.</p>



<p>Outro dado alarmante vem do relatório do Banco Mundial sobre a Educação. O documento aponta estimativas espantosas em relação ao impacto do fechamento das escolas na região da América Latina e do Caribe. Em média, estima-se que quase dois terços dos estudantes do Ensino Fundamental podem não ter a capacidade de ler ou compreender um texto para a sua idade. No caso do fechamento das escolas por 10 meses, a estimativa é da perda de 1,3 ano de escolaridade ajustada pela aprendizagem, segundo o mesmo relatório. Esse período terá grande impacto no futuro dos jovens, porque não será recuperado. E sem políticas públicas para todo o Brasil, a desigualdade aumentará.</p>



<p>Enquanto os estudantes que têm recursos financeiros e acesso à internet avançam nos estudos e conseguem manter uma rotina de aulas consistente, grande parte dos estudantes de escolas públicas sofre sem acesso à tecnologia e sem o direito de acompanhar as aulas. Mesmo na área urbana, como em Parelheiros, bairro em São Paulo, ainda há dificuldade no acesso à internet. As pessoas que fazem o uso dela precisam pagar caro para terem bons planos de internet wifi.</p>



<p>Mas, então, qual a saída para um cenário tão desolador? O que podemos fazer para que essas previsões não se concretizem? Como é sabido, a desigualdade educacional que o Brasil vive não é de agora; apenas se intensificou com a pandemia. Pensando nisso, iniciativas encabeçadas pela sociedade civil organizada passam a ter papel central para tirar a Educação desse papel de coadjuvante que até então foi relegada. E a tecnologia tem o potencial de compartilhar informação e promover uma educação inclusiva e de qualidade, se os investimentos corretos forem feitos. Sem o olhar focado e estratégico dos governos para a educação, ONGs e empresas buscam contribuir com a mudança desse cenário.</p>



<p>No entanto, com o agravamento da crise, as ONGs estão enfrentando um momento delicado. Muitas contam com poucos recursos e doações e estão deixando de lado alguns projetos para dar prioridade a alimentar a população que atendem e que passa fome. Infelizmente, resta pouco recurso para que as entidades desenvolvam iniciativas tão importantes em outros setores, como educação, cultura e esporte.</p>



<p>Tornam-se então ainda mais necessárias políticas públicas que levem mais antenas de internet para as periferias e regiões ainda marginalizadas dos rincões de nosso Brasil e investimentos para melhorar a qualidade do ensino público. Este será o início de uma história em que todos os jovens brasileiros terão oportunidades iguais para disputar vagas nas melhores universidades e concorrer em pé de igualdade às melhores oportunidades profissionais.</p>



<p>Não sabemos quando o isolamento social acabará e, mesmo em um cenário mais seguro à saúde das crianças, o ensino híbrido dá indícios de ser o modelo educacional para os próximos anos.</p>



<p>Precisamos do investimento privado e de parcerias com o governo para a retomada de uma educação continuada para os estudantes de escolas públicas em todo o Brasil. Sem isso, teremos uma geração perdida e repetiremos todo o ciclo de exclusão e miséria que já é repetido hoje. O mercado de trabalho tem dado cada vez mais atenção à diversidade e inclusão nas empresas, mas ainda enxerga pouco o início de carreira dessas pessoas, que está lá na educação de base desses jovens na periferia. É preciso se unir para evitar o colapso da Educação no país.</p>
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		<title>Maria Rita Kehl, neta de um dos pais do racismo científico brasileiro ainda não entendeu a sua posição na discussão antirracista</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/maria-rita-kehl-neta-de-um-dos-pais-do-racismo-cientifico-brasileiro-ainda-nao-entendeu-a-sua-posicao-na-discussao-antirracista/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Wed, 12 Aug 2020 23:50:33 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Maria Rira Kehl]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Maria Rita Kehl est&#225; sentindo o desconforto de viver em um mundo onde vozes de pessoas diferentes, principalmente negras t&#234;m maior impacto na sociedade. O desconforto grita na escolha do t&#237;tulo &#8220;lugar de cale-se&#8221; e desce a ladeira ao longo de par&#225;grafos que tentam construir a ideia de que os movimentos chamados identit&#225;rios est&#227;o promovendo&#160; [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p>Maria Rita Kehl está sentindo o desconforto de viver em um mundo onde vozes de pessoas diferentes, principalmente negras têm maior impacto na sociedade. O desconforto grita na escolha do título <a href="https://aterraeredonda.com.br/lugar-de-cale-se/?utm_source=rss&amp;utm_medium=rss&amp;utm_campaign=lugar-de-cale-se&amp;utm_term=2020-08-10" target="_blank" rel="noreferrer noopener">“lugar de cale-se” </a>e desce a ladeira ao longo de parágrafos que tentam construir a ideia de que os movimentos chamados identitários estão promovendo  linchamentos virtuais. </p>



<p>Várias personalidades como o Emicida já abordaram isso em entrevistas recentes: nas décadas passadas quando uma dessas colunistas ou jornalistas escrevia sua versão da história não existia um espaço de debate tão massivo quanto hoje para poder provocar uma reação diferente sobre o tema. Isso que estão chamando de “cancelamento” não passa desse questionamento natural sobre um posicionamento, que hoje temos voz para cobrar.&nbsp;</p>



<p>Maria Rita Kehl precisa ter muito cuidado ao utilizar termos como linchamento virtual porque parece grande vitimista em um país que as pessoas que chama de identitários são as verdadeiras canceladas dos espaços de discussão e poder. Estou falando da maior parte do Brasil que ainda é impactada pelos estereótipos e estruturas racistas dos séculos passados e pode atravessar a linha da pobreza ao perder o emprego; Daquele entregador de Ifood que leva sua comida e se receber avaliações ruins no aplicativo vai ver a família passar fome ou daquele caixa do supermercado que enfrenta a Covid-19 e pode ter a luz cortada se alguém resolve reclamar com o gerente &#8211; isso sim é cancelamento.&nbsp;</p>



<p>Não é cancelamento quando a dona da maior editora brasileira é criticada na internet ou quando alguém que finge que o sobrenome da família não abriu portas na sociedade e que está longe de cair no esquecimento das elites com a mesma velocidade que o país se esquece de Ágatha Félix, João Pedro e Rafael Braga.&nbsp;</p>



<p>Realmente nós somos iguais ou parecemos “em direitos, em dignidade”, mas se engana quem acredita que somos iguais em “Liberdade de expressão”. Como igualar essa liberdade o veículos mais importantes do país, que alcançam milhões de pessoas, tem apenas 2% homens negros e 2% mulheres negras em suas redações?&nbsp;</p>



<p>Esse é o fracasso da “capacidade de empatia” da autora, que tenta se igualar à um negro escravizado e enforcado, utilizando a música Strangefruit como alegoria. Argumento de quem tenta empurrar pra baixo do tapete a estrutura racista do país que permitiu que pessoas como ela recebessem algumas vantagens, aliás que seu avô ajudou a construir.&nbsp; Maria Rita kehl é neta do chamado Pai da Eugenia brasileira, Renato Kehl, o cara que conseguiu institucionalizar as teorias racistas organizando congressos, publicações e discussões políticas como a esterilização dos considerados “degenerados” &#8211; crença da ciẽncia da época que considerava a herança da mestiçagem e do sangue africano inferior na escala da humanidade.&nbsp;</p>



<p>Claro que ela não carrega nenhuma culpa por isso, como a própria descreveu no texto <em>“Entendi, na adolescência, que ele a defendia supremacia da “boaraça”. Que conceito desprezível, para dizer o mínimo.”</em></p>



<p>Agora não dá para dizer que, mesmo sem culpa, sua posição na sociedade brasileira não recebeu o prestígio desse nome. Afinal, Renato Kehl fez carreira com o ódio à miscigenação, assessorou governos, se reuniu com políticos, foi diretor de multinacional (Bayer) durante 23 anos, fundou revistas farmacéuticas, escreveu no jornal “A Gazeta” de São Paulo, também, por duas décadas e até hoje é médico emérito da <a href="http://www.anm.org.br/conteudo_view.asp?id=660&amp;descricao=Renato+Ferraz+Kehl+(Cadeira+No.+93)">Academia Nacional de Medicina</a></p>



<p>Repito, ninguém carrega culpa dos seus ancestrais, o que carrega é mesmo dinheiro, reputação e acesso às estruturas de um país desigual.&nbsp; Falar de igualdade dessa posição que se ocupa é muito confortável. Questionar os movimentos negros e chamá-los de identitários por criticar essa posição e por reivindicar para si um espaço de discussão que não existia antes é uma tentativa de reforçar seu privilégio. Tenho a infeliz certeza de que ninguém tem o poder de silenciar sua obra, seu trabalho e atuação. Só que o mundo mudou bastante e agora estamos aqui e ali, discutindo na internet, mantendo a memória viva de quem são e como surgiram as pessoas que estão se sentindo ameaçadas com a ascensão da intelectualidade negra ao debate público nesse país.</p>
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		<title>É questão de tempo para os monumentos de escravagistas serem tombados</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/e-questao-de-tempo-para-os-monumentos-de-escravagistas-serem-tombados/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 09 Jun 2020 23:03:52 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Em novembro de 1844 o ex&#233;rcito brasileiro promoveu a maior vergonha de sua hist&#243;ria, traindo um grupo de negros que havia de aliado com a revolta farroupilha. Com uma carta, o bar&#227;o de Caxias resolveu pacificar tudo assassinando todos os negros e resolvendo, assim&#160; um impasse entre o Imp&#233;rio e a revolu&#231;&#227;o. Ele escreveu: &#8220;Poupe [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[
<p> </p>



<p>Em novembro de 1844 o exército brasileiro promoveu a maior vergonha de sua história, traindo um grupo de negros que havia de aliado com a revolta farroupilha. Com uma carta, o barão de Caxias resolveu pacificar tudo assassinando todos os negros e resolvendo, assim&nbsp; um impasse entre o Império e a revolução. Ele escreveu: <em>“Poupe o sangue brasileiro o quanto puder, particularmente da gente branca da Província ou dos índios, pois bem se sabe que essa pobre gente ainda pode ser útil no futuro&#8221;</em></p>



<p>Fica evidente que, ao dizer “sangue brasileiro”, o barão não estava falando dos negros. Este homem, conhecido como pacificador recebeu posteriormente o título de Duque de Caxias, por conta de outro genocídio que promoveu para reprimir uma revolta no Maranhão.&nbsp;</p>



<p>Estátuas de figuras como Duque de Caxias foram erguidas por esse “sangue brasileiro” que não representa os negros. Precisamos lembrar que esse projeto de exclusão não findou com a abolição da escravatura, mesmo após os descendentes de africanos eram chamados de “degenerados” pela elite que queria branquear a nacionalidade. Enquanto falavam de higienizar a raça brasileira eles ergueram estátuas e monumentos para quem interessava, escravagistas, comandantes de guerra que assassinaram índios e pretos e fundaram cidades com nomes de eugenistas.&nbsp;</p>



<p>Mesmo que eles não queiram a sociedade mudou, pela luta dos próprios “selvagens” como eles chamavam. Temos mais negros nas universidades, mais negros como advogados, mais gente se educando e não apenas absorvendo conhecimento, mas criando conhecimento. Jornalistas negros estão ocupando espaço no dia-a-dia da população, professores negros estão ensinando nas escolas e o que tudo isso significa é que tomamos o espaço que nunca nos foi oferecido fácilmente e agora que estamos nessas posições o país vai ter que respeitar nossa intelectualidade e nossa memória. Somos a maioria da população, mais de 56% e cada vez mais gente está cansada de ver homenagens para quem, em vida, tratou pretos como animais desalmados. Não precisamos disso.&nbsp;</p>



<p>É questão de tempo. Dias, semanas, décadas. Esses escravagistas serão derrubados e a nossa memória vai preencher também a história do Brasil.&nbsp;</p>



<p></p>
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		<title>Sérgio Camargo quer homenagear a Princesa Isabel e dá mais uma prova do desmonte que o governo quer promover na Fundação Palmares</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Mon, 11 May 2020 17:29:10 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
		<category><![CDATA[ÚLTIMAS NOTÍCIAS]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>Os ataques a mem&#243;ria e a cultura do povo negro brasileiro n&#227;o cessam no governo Bolsonaro. O atual presidente da Funda&#231;&#227;o Palmares, S&#233;rgio Camargo, &#233; a figura &#8220;Clara&#8221; de um desmonte da intelectualidade que constru&#237;mos no pa&#237;s. Como j&#225; citei, inclusive em um epis&#243;dio do meu podcast, n&#227;o tenho problema algum com ele ser um [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p>Os ataques a memória e a cultura do povo negro brasileiro não cessam no governo Bolsonaro. O atual presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, é a figura “Clara” de um desmonte da intelectualidade que construímos no país. Como já citei, inclusive em um episódio do meu podcast, não tenho problema algum com ele ser um <em>“negro de direita”</em>, mas com o fato dele ser um homem tão limitado dentro do pensamento bolsonarista que nem reconhece como os movimentos negros sempre foram plurais na história brasileira &#8211; <em>aliás, ele é tão incapaz, que ainda cita movimento negro como um grupo uníssono, é um orgulhoso desconhecedor da história e da realidade negra do país.</em></p>
<p>De certo, acredita que Palmares, em pleno século XVII, era liderado por membros do PT e tinha seus mocambos distribuídos para o PSOL. Essa dicotomia política não cabe na nossa história, mas é utilizada para proselitismo de ambos os lados, obviamente o extremismo de Sérgio Camargo tira toda razoabilidade da sua atuação, sua única função dentro da instituição é desmontar e tentar desmoralizar os movimentos que lutam por isso, rotulados de &#8220;esquerdistas vitimistas&#8221;.</p>
<p><img decoding="async" class=" wp-image-18910 aligncenter" src="https://mundonegro.inf.br/mundonegro/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-06-11-08-19-300x105.png" alt="" width="497" height="174" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-06-11-08-19-300x105.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-06-11-08-19-150x53.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-06-11-08-19-533x187.png 533w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-06-11-08-19.png 534w" sizes="(max-width: 497px) 100vw, 497px" /></p>
<p>Em nova empreitada, após anunciar que gostaria de mudar o nome da Fundação Palmares para Fundação André Rebouças, ele afirmou que vai homenagear a Princesa Isabel no dia 13 de Maio (dia da Abolição da Escravatura) e que se recusa a celebrar o dia da Consciência Negra em Novembro &#8211;<em> não sou jurista, mas acredito que isso possa abrir um debate sobre desvio de função, já que a instituição que ele preside foi construída como materialização da luta representada por Ganga Zumba, Aqualtune, Dandara e Zumbi.</em></p>
<p>Gostaria que você, leitor, entendesse algo importante e pudesse se afastar do obscurantismo, da ignorância e da baixeza de pensamento que ele tenta construir: <strong>Não existe comparação entre Zumbi e Rebouças, Palmares e Isabel</strong> ou qualquer outra que o populismo e extremismo partidário venda.</p>
<p><img decoding="async" class=" wp-image-18912 aligncenter" src="https://mundonegro.inf.br/mundonegro/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-11-11-03-03-300x163.png" alt="" width="509" height="277" srcset="https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-11-11-03-03-300x163.png 300w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-11-11-03-03-150x81.png 150w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-11-11-03-03-534x292.png 534w, https://mundonegro.inf.br/wp-content/uploads/2020/05/Captura-de-tela-de-2020-05-11-11-03-03.png 538w" sizes="(max-width: 509px) 100vw, 509px" /></p>
<p>A princesa Isabel tem um papel, verdadeiramente, importante na abolição da escravatura brasileira. Ela estava, de algum modo, confrontando um sistema patriarcal e nutria sentimentos abolicionistas reais. Tanto que era próxima de grandes nomes abolicionistas como o próprio <strong>André Rebouças</strong>. Quem dera se houvesse nomes como os dele liderando a atual Fundação Palmares. Todavia, a abolição da escravatura é um processo complexo, cheio de contradições e que foi sendo construída ao longo de décadas por tanta gente em posições diferentes. Elevar um único nome como “Salvador” do povo negro é, no mínimo, um atestado de burrice.</p>
<p><strong><em>Nenhum historiador sério, professor de caráter ou jornalista empenhado conseguiria descrever todo o processo que findou com a escravidão em nosso país utilizando apenas um ou dois parágrafos sem fazer justiça a nomes como Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e, evidentemente, lembrando da “outra abolição” que vinha dos Quilombos. </em></strong></p>
<p>Só em 1830 em Salvador foram duas ou três dezenas de revoltas que pressionaram o sistema escravagista, a última grande revolta, protagonizada por <strong>Manuel Congo e Mariana Crioula</strong> (1838) deixou marcas tão profundas que alguns fazendeiros concederam certas liberdades para evitar novos motins, a escravidão estava sendo flexibilizada com leis como Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários <em>(podemos inclusive discutir sua efetividade)</em>.</p>
<p>Pelo calor das emoções e pela sua proximidade, após a assinatura da Lei Áurea, <strong>o lendário abolicionista José do Patrocínio</strong> montou uma guarda negra, um movimento de capoeiristas e partidários da monarquia que se prestavam a defesa de Don Pedro II e da Princesa Isabel, o culto a princesa ficou conhecido, então, como <strong>Isabelismo</strong>. Não durou muito, com a ascensão da República e isso pode ser uma predição do trabalho de Sérgio Camargo à frente da Fundação.  Em toda história do povo negro brasileiro, um título temporário não é suficiente para desmontar séculos de trabalho árduo. Principalmente quando suas contribuições não passam de grosserias e ideias fundamentadas na idolatria à figura do atual presidente da República.</p>
<p>Nesse contexto, nem mesmo a Isabel será o verdadeiro alvo das homenagens. No Isabelismo de 2020, a coroa da princesa dada por Sérgio Camargo é direcionada para a cabeça exclusiva de Jair Bolsonaro.</p>
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		<title>Brancos que se ofendem com discussões raciais são os maiores inimigos da busca pela igualdade</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/brancos-que-se-ofendem-com-discussoes-raciais-sao-os-maiores-inimigos-da-busca-pela-igualdade/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 16 Apr 2020 15:55:06 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Artigos]]></category>
		<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>&#160; Esse assunto vai parecer bastante indigesto, mas se voc&#234; &#233; um homem ou mulher branca que evita entrar no assunto de discrimina&#231;&#227;o e que nega a todo custo discutir como o passado de sua fam&#237;lia (por mais dif&#237;cil que seja) foi melhor que o passado da maior parte dos negros, provavelmente voc&#234; &#233; racista, [&#8230;]</p>
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										<content:encoded><![CDATA[<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse assunto vai parecer bastante indigesto, mas se você é um homem ou mulher branca que evita entrar no assunto de discriminação e que nega a todo custo discutir como o passado de sua família (por mais difícil que seja) foi melhor que o passado da maior parte dos negros, provavelmente você é racista, mesmo que não queira. Você não tem escolha, a sociedade brasileira é assim e você faz parte dela. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A socialista Robin DiAngelo passou 20 anos estudando o que ela chama de “fragilidade branca” nos EUA, essa mulher ajudou o Starbuck após o incidente racista com dois homens na cidade de Filadélfia, nos Estados Unidos e vem ajudando outras empresas a entender suas dificuldades</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Para DiAngelo brancos são extremamente previsíveis, seus padrões incluem que &#8220;foram ensinados a tratar todos da mesma forma&#8221;, que não enxergam cores&#8221;, que &#8220;não se importam se você é rosa ou etc…” e em alguns casos vão evocar um familiar negro para justificar que não é racista. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A sociedade segregada se preparou para isolar o branco da discussão racial. Um branco não precisa definir sua raça e sua cor, ele se interpreta como o cidadão padrão, como um “ser humano”. Se olharmos para a história da abolição brasileira podemos entender como isso impactou nossa sociedade, o país criou vários termos para definir as variações de ser negro (mulato, cabra…), mas não temos eufemismos para as variações dos brancos &#8211; </span><i><span style="font-weight: 400;">imaginem: ah esse não é tão branco, é só um mustardinha ou um bezerro. </span></i></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Quando a Lei Áurea foi assinada a maior parte dos negros já havia se libertado através de revoltas e lutas abolicionistas, isso em 1888, agora quem dera se o racismo tivesse sido apagado através de uma caneta e do papel. Ele continuou por um bom tempo. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Entre 1910 e 1930, as elites brasileiras estavam empenhadas na criação de uma raça nacional. A eugenia falava de pureza racial, entidades governamentais e universidades queriam clarear a nacionalidade brasileira para curar a “fealdade” trazida pelos “povos selvagens”.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Durante a ditadura o governo promoveu o discurso da Democracia Racial, uma teoria baseada na obra de Gilberto Freyre, com o argumento que a mestiçagem resolveu os problemas raciais do Brasil. Foi contestada depois por nomes como Florestan Fernandes e Virgínia Bicudo</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Todos esses eventos nos trouxeram aqui. Onde muitos brancos descendem de homens que defenderam ideais eugenistas, racistas e promoveram uma crueldade brutal contra pretos e índios. É infantil acreditar que, ao menos seu bisavô, não cresceu acreditando em todas as diferenças que a ciência da época defendia. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses ideais não foram diluídos no imaginário coletivo do nosso país e ainda estão presentes, inclusive, na mente de pessoas negras, mas quem se beneficia desses estereótipos são as pessoas da “raça branca” sonhada pelos eugenistas tupiniquins. A pesquisadora brasileira Lia Vainer Schucman, doutora pelo Instituto de Psicologia, afirma que brancos, muitas vezes, são racistas sem saber que o são. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Brancos reproduzem o racismo de forma inconsciente, quando projetam na sua mente uma imagem pejorativa do negro e de suas características. Se pensar na figura de um médico, por exemplo, a primeira imagem que vem a cabeça é um homem branco. Nunca de um negro. Para o Prof°. Dr. Kabengele Munanga &#8220;nós temos uma grande dificuldade, na sociedade brasileira, para entender e decodificar as manifestações do nosso racismo, porque tem peculiaridades que diferenciam das outras manifestações do racismos (nos países estrangeiros)</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">A fragilidade branca aqui criou uma ideologia, a democracia racial funciona como uma crença, uma ordem, uma verdadeira realidade. Assim fica difícil arrancar do brasileiro comum a confissão de que ele também é racista.  </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Estudos da ONU mostram que a cor da pele é componente central na estruturação das desigualdades no Brasil, afetando o acesso ao emprego e a maiores níveis de desenvolvimento. No país, negros vivem, estudam e ganham menos do que brancos.</span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Isso porque na hora de contratar alguém, sua mente prefere outro branco. É da natureza do nosso cérebro buscar padrões conhecidos para resolver problemas, então quando entra em uma empresa de um negro sua mente diz que não é confiável. Todo o sistema racista dos séculos passados deixou estereótipos cravados na população. Colocando negros em uma situação em que, mesmo diante do esforço de elevar seu status educacional e profissional, pretos encontram restrições no meio dos brancos. Que  ainda insistem em não aceitar seu racismo. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Os brancos de hoje não criaram o racismo, mas além de propagar ele, de forma impensável ou inconsciente são responsáveis pela manutenção do status racial. Se você nunca pensou sobre isso, então ainda propaga o racismo. Quem já pensou tem sempre duas escolha: ser responsável e ajudar a sociedade a exterminar esse problema ou fechar os olhos e se tornar parte do racismo brasileiro, se apropriando dos privilégios que ele concede à pessoas brancas. </span></p>
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		<title>A definição do preto ou do negro no Brasil é maior que as pessoas imaginam</title>
		<link>https://mundonegro.inf.br/a-definicao-do-preto-ou-do-negro-no-brasil-e-maior-que-as-pessoas-imaginam/</link>
		
		<dc:creator><![CDATA[Ale Santos]]></dc:creator>
		<pubDate>Thu, 02 Apr 2020 18:50:16 +0000</pubDate>
				<category><![CDATA[Destaque]]></category>
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					<description><![CDATA[<p>O querido Babu Santana conseguiu movimentar as redes sociais com uma grande discuss&#227;o no dia de ontem, gra&#231;as a uma explica&#231;&#227;o sobre sua prefer&#234;ncia pelo termo preto e n&#227;o, Negro. O volume exagerado das discuss&#245;es e de pessoas tomando para si o entendimento apresentado em um programa popular de televis&#227;o reflete uma triste realidade: a [&#8230;]</p>
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]]></description>
										<content:encoded><![CDATA[<p><span style="font-weight: 400;">O querido </span><b>Babu Santana</b><span style="font-weight: 400;"> conseguiu movimentar as redes sociais com uma grande discussão no dia de ontem, graças a uma explicação sobre sua preferência pelo termo preto e não, Negro. O volume exagerado das discussões e de pessoas tomando para si o entendimento apresentado em um programa popular de televisão reflete uma triste realidade: a maior parte das pessoas do nosso país não tem conhecimento algum sobre a realidade de pessoas pretas no país. É um exército de gente que passa a vida absorvendo conhecimentos variados e até se formaram em universidades, mas não tomam ciência que existe uma experiência de vida distinta da chamada “padrão”. </span></p>
<p>https://twitter.com/GuxtaSantoss/status/1245516243311964161</p>
<p><span style="font-weight: 400;">As contradições sobre o uso de Negro ou Preto não são novas. Porém, quando alguma dessas pessoas são confrontadas com um tipo de explicação como a de Babu, elas podem reproduzir um comportamento problemático: o único amigo negro. Basicamente eles se confortam na única, talvez a primeira, explicação que aprendem como se fosse uma máxima da sociedade e continuam ignorando o desconhecimento sobre toda a discussão. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A gente vẽ esse comportamento, por exemplo, com o vídeo do Morgan Freeman sobre a consciência humana, levado ao pé da letra por gente como um escudo rígido para proteger sua preguiça e má vontade de entender a questão de forma mais ampla ou também com um vídeo, bem difundido, de Nabby Clifford falando como eram pejorativas, as expressões que encontrou no Brasil “lista negra, magia negra… mercado negro”  </span></p>
<p>[embedyt] https://www.youtube.com/watch?v=fkb29JLmEuU[/embedyt]</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Nabby não está errado em sua observação, mas reparem que no início do vídeo ele declara sua identidade dizendo “eu sou Africano, de Gana”. Ocasionalmente, se você chama alguém assim de negro ele retorna com “minha cor não é negra, minha cor é preta”, todavia a discussão não é, explicitamente, sobre a cor de alguém.</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Como bem lembrado por Babu, antes, e até hoje, em alguns lugares na África, o termo Negro não faz sentido, pois eles são Yorubás, Nigerianos, Egípcios, Axantes, Dogons, Khoisan… ou seja, eles não precisam de um termo étnico, pois já estão compreendidos dentro de uma identidade africana. Identidade que foi negada para os seus descendentes em diáspora. Sem conexão com o país ou grupo étnico original, alguns movimentos têm trabalhado por décadas para abraçar essas pessoas que estavam no limbo da auto-afirmação. Por isso a gente parte para uma discussão que vai além da etimologia e chega ao campo da semântica. Um exemplo simples da diferença entre esses conceitos é a palavra macaco, a etimologia descreve que o vocábulo se refere à uma espécie de primatas. Então porque ela se tornou ofensiva aos negros? A resposta disso reside na construção histórica do racismo que comparava o crânio de pessoas pretas com esses tipos de animais, chegando ao cúmulo de aprisionar um homem em um zoológico na jaula de um chimpanzé (Ota benga) para validar a teoria racial da época. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Agora, o princípio do Negro é a palavra latina Niger, que significa “escuro ou preto”, o mesmo radical que deu origem ao nome da Nigéria (Nigerianos são, basicamente “nigririanos”). Como lembra a psicóloga e escritora Grada Kilomba em seu livro </span><b>“Memórias da plantação: Episódios de racismo cotidiano”</b><span style="font-weight: 400;">, apesar de ser essa a sua gênese, logo nos primeiros séculos após as colonizações, passou a ser utilizado nos EUA e na Europa como ofensa para “pessoas de cor” que foram escravizadas. Um entendimento, provavelmente irrigado pela visão cristã que antagonizava a luz e sombra como símbolos de Deus ou o Demônio. Kilomba afirma que o significado atribuído carrega uma “cadeia de termos associados à palavra em sí: primitividade, animalidade, ignorância, preguiça, sujeira…”. Uma construção conceitual que demorou séculos e sofreu diversas variações, como neger, negro, nigger, nigrum, noir, nègre &#8211; os dois últimos sendo as definições francesas que compartilhavam a mesma compreensão norte-americana que resultou na palavra Nigga, a N-Word. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A história da escravidão em solo estadunidense atribuiu violência à palavra negro, por isso a intelectualidade preta do país construiu sua identidade como Black people ou Afro-Americanos &#8211; a lei de uma gota de sangue permitiu que isso funcionasse, pois o país materializou em leis segregacionistas qualquer pessoa descendente de um africano, mesmo que seus traços não sejam tão aparentes. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enquanto aqui em nosso país, isso se mostrou complexo demais, pois existem muitas pessoas pobres, lidas como brancas, que podem ter uma descendência (mesmo que distante) de um negro.  As definições que surgiram de sociólogos e antropólogos racistas na época do império e durante o movimento eugenista trabalharam para impedir a construção de uma maioria dentro do país. Era comum que uma pessoa escravizada, mesmo com pele escura, assumisse a identificação de parda ou, quando os traços africanos não eram intensos, de branco para se afastar da classe social mais preterida. &#8211; Vale lembrar aqui de Joaquim Nabucco que descreveu seu amigo Machado de Assis como um branco, tipo grego. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">A negação da negritude em solo brasileiro foi absurda, o país não queria vender a ideia de que aqui existia um número exorbitante de Africanos e pretos, nossa sociedade partiu ora da descendência, ora da marca para determinar que essas pessoas seriam “cabras, mestiças, cafuzas, crioulas, boçais, mulatas…”, algumas dessas palavras, usadas como eufemismos para negar aqui a existência de povos africanos, ganharam maior utilização na hierarquização da sociedade que as utilizadas em outras sociedades escravocratas (neger, negro, nigger, nigrum, noir, nègre &#8211; aliás aqui, o relativo à ofensa Nigga é Crioulo). Os brasileiros podiam ser qualquer coisa, menos negros, como escreveu um dos maiores propagadores do racismo científico no país, Raimundo Nina Rodrigues: “A supremacia imediata ou mediata da Raça negra” era considerada nociva à nacionalidade brasileira. Para isso, as oligarquias e a elite que estava no poder implantou o projeto da consciência eugênica e vendeu a ideia de que os mestiços não eram negros. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">“Negro era sujo, eu era limpa; negro era burro, eu era inteligente; era morar na favela e eu não morava e, sobretudo, negro tinha os lábios grossos e eu não tinha. Eu era mulata, ainda tinha esperança de me salvar” &#8211; Relato encontrado no livro Tornar-se Negro. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Foi a partir desse contexto que os movimentos negros criaram uma tensão contrária, trabalhando não apenas para ressignificar o sentido de ser negro no país, mas abrangendo todos os descendentes de africanos que eram chamados por vários termos racistas no passado. Essa era a forma de pesar na balança e “mostrar o peso econômico da massa negra organizada”, como escreveu José Correia Leite, um dos mais importantes nomes da história negra brasileira.  Eu sempre, sempre trago o trecho de um dos livros mais importantes da intelectualidade preta brasileira, “O Genocídio do negro brasileiro: Processo de um Racismo Mascarado”. Nele o autor nos ensina: </span><b><i>Um brasileiro é designado preto, negro, moreno, mulato, crioulo, pardo, mestiço, cabra &#8211; ou qualquer outro eufemismo; e o que todo mundo compreende imediatamente é que se trata de um homem de cor, um negro não importa a gradação da cor da sua pele. </i></b></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esses cabras, pardos, mulatos seriam os equivalentes aos descendentes de Yorubás, Nigerianos, Egípcios, Axantes, Dogons, que perderam sua identidade na escravidão brasileira. Assim as lutas dos movimentos nacionais de igualdade racial assumiram o termo negro como um Ideal de Ego, um conceito evidenciado por Neusa Santos Souza no livro que é um marco para a psicologia social negra em nosso país, Tornar-se Negro. </span></p>
<p>&nbsp;</p>
<p><span style="font-weight: 400;">Esse foi um entendimento coletivo, construído há muitas mãos e por décadas. Nomes como Isildinha Baptista e Virgínia Bicudo, fizeram as bases para o estudo da perspectiva sobre a realidade dos negros brasileiros e trouxeram evidências que os padrões fenotípicos (os traços) são decisivos no nosso plano das relações interpessoais. </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Em algum momento outros grupos em outros países também estabeleceram um significado para sua própria negritude. No Senegal e em outros países que foram colonizados pela França, surgiu o movimento literário Négritude que negava a colonização e ressalta a cultura negra. Também há o episódio emblemático da libertação do Haiti e sua constituição de 1805 que determinava “todos os cidadãos haitianos, de aqui em diante, serão conhecidos pela denominação genérica de negros” (les Haïtiens ne seront désormais connus que sous la dénomination génériques de Noirs.)</span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Enfim, a construção da identidade negra, a negritude que discutimos é um conceito brasileiro diante de todo o contexto vivido pelos movimentos em nossa longa história. Agora vamos voltar ao ponto mais importante da discussão, desenhada pela cena em que Babu discorre sobre o tema com as participantes do BBB. Quanto dessa e de outras histórias sobre os negros do nosso país você conhece? Quanto disso tudo que conversamos você aprendeu na escola ou nos debates políticos da sua emissora preferida? </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Negros vivem em dois mundos: nós conhecemos a realidade que uma sociedade racista nos impõe e também observamos a realidade que os brancos ao nosso redor vivem, nós lemos e estudamos seus filósofos, ouvimos suas músicas, assistimos seus pontos de vistas em programas de TV, conhecemos a história de momentos dramáticos dos povos brancos, entendemos de mitologia grega, nórdica, sabemos da linhagem da rainha da Inglaterra e mesmo assim temos que explicar coisas tão triviais do tipo “posso chamar alguém de preto?” </span></p>
<p><span style="font-weight: 400;">Agradeço imensamente ao Babu, pois se você leu esse texto e descobriu coisas que nem imaginava que existia, foi por conta da discussão que ele começou. Sobre a resposta da pergunta, ela varia. Tem gente que gosta de ser chamada de preta, tem gente que prefere ser identificada como negra. Na dúvida, faça como a gente faz com qualquer pessoa branca, só chama pelo nome. </span></p>
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