Quem vem de uma realidade pobre, periférica provavelmente já ouviu ou reproduziu a seguinte frase: “agora que ficou rico, não fala mais com pobre”. A ironia do próprio título mora aí: comemora-se a conquista mas existe a cobrança do pertencimento. Em uma passagem do livro Um Defeito de Cor” em um momento que a personagem central do livro depois de ter vivido duros anos de escravidão, contrói e conquista uma realidade mais próspera e ela diz “minha vida seguiu um caminho e fui me deixando levar para muito longe do que tinha imaginado. E isso foi bom para mim, que tinha conseguido coisas com as quais os pretos nem sonhavam, não porque sonhassem pequeno, mas porque não sabiam que tais sonhos eram possíveis”.
E esse é um momento em que se nota um outro olhar sobre a personagem, a mediadora de um clube do livro do qual faço parte diz que é aí que vai se instaurando um “ranço” da kehinde. Esse incômodo de Kehinde surge porque para prosperar após a violência do cativeiro, Kehinde precisou adotar novos hábitos, ser pragmática e ter certa distância da vulnerabilidade que a cercava. Isso pode até ser lido como soberba, mas foi também uma estratégia de sobrevivência. O que leva diretamente para a seguinte questão: como se passa por mudanças significativas na própria vida, mudanças essas que são consequência de um misto de atitudes que foram tomadas justamente para alcançar determinados objetivos, sem permitir também ser transformado? A verdade é que não se passa ileso, a transformação é o preço da entrada. Em ‘Ensinando a transgredir Bell Hooks aborda esse assunto e nos explica que: ‘a educação vem como uma prática da liberdade’, a intelectual aborda toda a complexidade sobre quem vem de lugares de vulnerabilidade social e finalmente ocupa novos espaços, geralmente essas pessoas se encontram na situação que a autora pontua quando diz que “o preço da entrada costuma ser o abandono da nossa linguagem e costumes originais”, escancarando que a travessia altera inevitavelmente o sujeito.
Logo, como manter uma “essência” que era resultado de uma outra realidade?
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A gente cresce tentando sobreviver, depois tenta conquistar para em algum momento conseguir de fato, viver. E nesse caminho vamos pelos recursos disponíveis, seja através do estudo, trabalho, empreendedorismo, arte, comunicação, qualquer habilidade que possa abrir uma porta que sempre esteve fechada vai ser usada como arma para esse corpo com sede de mudança. Mas existem algumas nuances que precisam ser levadas em consideração, cada passo dado, é uma nova experiência, cada caminho vai exigir algo de você e as pequenas transformações vão acontecendo, até se tornarem grandes demais para quem não te acompanhou no processo, estranhar.
No caminho para a conquista,é comum que alguns lugares deixem de fazer sentido, pode ser que algumas conversas já não te despertam tanto interesse e até velhos hábitos acabam ficando incompatíveis com a rotina, e você os deixa para trás. No caminho a gente vai fazendo outras descobertas, e até o que era visto como a meta pode acabar ficando pequeno e as mudanças de estratégias vão acontecendo simultaneamente pois agora você tem acesso a outras informações e entendeu que coisas ainda maiores também são possíveis.
E, inevitavelmente, algumas pessoas ficam para trás. Se você é uma pessoa que está vivendo constante transformação, como faz para manter na sua vida pessoas ou hábitos que já não tem nada em comum com a pessoa que você se tornou? Já que estão vivendo momentos e experiências completamente diferentes? Como se divide em 2 e mantém o melhor dos dois mundos, como não se perder no caminho, manter a admiração de pessoas próximas que foram importantes em outros momentos e também sem decepcionar pessoas que estão presentes e sendo importantes agora? O mais importante é entender que o afeto e a gratidão continuam ali, independente de quem você se tornou ou está se tornando, mas o dia a dia exige um assunto e um ritmo em comum que a mudança de vida acaba afastando. E a grande ironia do “a preta venceu” é essa: se você tentar se desdobrar em duas para agradar todo mundo, acaba não sendo inteira em lugar nenhum.
A realidade da vida de pessoas pobres no Brasil às vezes tenta encaixar todos em uma mesma caixinha, existe a romantização da ideia do crescer junto, e essa é a intenção, mas a realidade ainda é muito dura. Nem todo mundo quer o mesmo futuro, nem todo mundo pensa em viver de outra forma, nem todo mundo está insatisfeito com a própria realidade, ainda que seja uma realidade mais simples e nem todo mundo enxerga oportunidade onde você enxerga. E no meio dessa busca existem também muitos códigos que pessoas pretas precisam aprender para conseguir ocupar alguns espaços, frequentar novos lugares, construir novas redes e novos hábitos e fazer constantes adaptações de vida. E ainda assim pode ser que aos poucos, você entenda que não pertence completamente ao lugar de onde veio, mas também nunca pertence totalmente ao lugar onde chegou.
A pessoa negra buscando ascensão possivelmente vive entre mundos. E pode parecer uma piada “tadinha, está enfrentando dificuldades porque agora tem alguns acessos e um pouco mais de dinheiro”, mas é basicamente isso, esse não lugar, o “entre mundos” pode sim ser solitário e prejudicial para uma pessoa que provavelmente cresceu em vínculos expansivos, longos e acolhedores. O que você tem agora? Com quem se identifica? Como os “seus” te olham, o que mudou? Você quer provar que pertence aos dois mundos, mas para qual mundo você mais precisa provar coisas? A escritora Chimamanda Ngozi Adichie, em ‘O perigo de uma história única’, conta que, mesmo sendo de classe média e filha de professores universitários, sua colega de quarto na faculdade nos Estados Unidos sentia uma pena antes mesmo de conhecê-la, ‘‘Sua postura preestabelecida em relação a mim, como africana, era uma espécie de pena condescendente e bem-intencionada” ficando chocada só de ver que ela falava inglês bem.
Na prática, quando a pessoa preta ocupa um novo ambiente, ela sente essa pressão de precisar romper com o estereótipo e provar que a sua capacidade é real. É aí que a ascensão exige uma virada de chave: você precisa assimilar novos códigos e linguagens para garantir seu espaço. Só que a ironia é dupla: de um lado, você precisa provar para o novo mundo que merece estar ali; de outro, precisa provar para o seu mundo de origem que o seu letramento não virou soberba.
E, no meio dessa maratona para provar algo para todo mundo, acontece uma limitação.
Talvez por não ter medido esforços para mudar a própria realidade não tenha sobrado muito tempo para olhar para a própria realidade que te construiu com os olhos de quem você era, e acaba caindo no erro de olhar para esse lugar com as lentes das limitações que você teve.
Você esquece que aquilo também construiu você, você esquece que o repertório, a linguagem, a criatividade, a forma de existir e até a força para chegar tão longe nasceram justamente daquele lugar. E a ascensão não tem o direito de apagar essas memórias e sim reverenciá-las. Que ninguém continua o mesmo depois de transformações sequenciais, já é um fato, mas agora é entender que existe um desafio, e o desafio não é continuar “o mesmo de antes” e sim continuar reconhecendo a potência do lugar que você saiu sem tentar modificá-lo ou diminuí-lo. Porque esse lugar também é igualmente importante, essa antiga realidade foi o que te impulsionou, isso não diminui a sua trajetória, na verdade, conta a sua história, o que torna igualmente importante. É realmente uma contradição.
Também não se sobrecarregue achando que o seu dever é carregar todo mundo nas costas, isso pode te adoecer. Recentemente ouvi a frase “se a porta tá querendo fechar e eu passei, vou ficar entre ela, deixando meio aberta até todo mundo chegar”. Crie também movimentos que geram mais oportunidades, já que você agora tem alguns acessos facilitadores. Indique um nome, compartilhe conhecimento, capine o caminho assim como capinaram um pouco antes o seu, assim outras pessoas não precisarão começar exatamente do mesmo ponto em que você começou.
Já que agora você tem um repertório incrível, de coletividade, criatividade, sagacidade e ginga, você pode viver na ponte, justamente sendo um agente que facilita os trajetos, quem sabe? Talvez o “a preta venceu” seja conseguir sempre voltar com dignidade e ser bem recebido sem precisar deixar de ir também.
Porque muitas vezes a solidão da pessoa preta em ascensão nasce justamente dessa raridade, não é o “lugar comum”, pode ser que você também se encontre perdido nesse espaço e buscando uma identificação e como ainda existem poucas pessoas negras ocupando determinados espaços de poder, quem chega lá frequentemente deixa de ter pares. E é uma solidão política.
por: gaby ferraz e victoria moura