Conheça dez mulheres negras que criaram as bases do rock and roll, de Sister Rosetta Tharpe a Tina Turner.
O rock and roll nasceu da mistura entre gospel, blues e rhythm and blues, gêneros criados pela população negra nos Estados Unidos muito antes de o rótulo “rock” virar produto de mercado branco. A guitarra distorcida, o balanço do ritmo e a energia vocal que hoje definem o gênero vêm diretamente dessa tradição musical, construída em igrejas, bares e estúdios frequentados majoritariamente por artistas negros.
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Ainda na década de 1930, uma cantora e guitarrista do Arkansas já misturava gospel com guitarra elétrica distorcida, técnica que décadas depois se tornaria assinatura do rock and roll. Historiadores da música apontam Sister Rosetta Tharpe como uma das responsáveis diretas por moldar o som que Elvis Presley populariza vinte anos mais tarde, quando o gênero passa a ser associado quase exclusivamente a artistas brancos.
Ao longo das décadas seguintes, outras mulheres negras deram continuidade a essa construção, muitas vezes sem o reconhecimento que caberia ao trabalho que fizeram. O padrão se repete tantas vezes na história do rock que virou quase uma regra não escrita, a artista negra cria e inova, a versão branca vende mais e entra para os livros. A seguir, a trajetória de dez dessas mulheres e o que cada uma representa na construção do gênero.
Sister Rosetta Tharpe
Nascida em 1915, no Arkansas, começou a cantar dentro da igreja ainda criança e foi quem primeiro combinou letras espirituais com guitarra elétrica distorcida, antecipando o rock em quase duas décadas. A gravação de “Strange Things Happening Every Day”, de 1944, é apontada por parte da crítica musical como uma das primeiras do gênero, mas o reconhecimento oficial só veio em 2018, quando ela entrou para o Rock and Roll Hall of Fame, 45 anos depois de morrer.
Big Mama Thornton
Quatro anos antes de “Hound Dog” estourar nas rádios na voz de Elvis Presley, a música já existia numa versão mais crua e mais próxima do blues, gravada por ela em 1952. O crédito histórico e o retorno financeiro maior ficaram com a versão que veio depois, e a cantora seguiu carreira ativa até os anos 1980 sem nunca receber o mesmo reconhecimento pelo hit que ajudou a criar.
LaVern Baker
Poucas semanas separaram o lançamento de “Tweedle Dee” de uma cópia nota por nota feita pela cantora branca Georgia Gibbs, que vendeu milhões de cópias em rádios que não tocavam artistas negros. O episódio, em 1954, virou um dos casos mais conhecidos de apropriação racial da música popular americana, e em 1991 Baker se tornou a segunda mulher a entrar para o Rock and Roll Hall of Fame.
Etta James
Uma voz cheia de nuances e tensão emocional, capaz de transitar entre blues, gospel e rock com a mesma intensidade, marcou sua carreira desde a adolescência. Discos como “At Last” a consolidaram como uma das grandes intérpretes de sua geração e viraram referência direta para cantoras de rock e soul que surgiram depois dela.
Tina Turner
Ao lado de Ike Turner, começou nos anos 1950 a construir uma das carreiras mais marcantes da história do rock, e explodiu na década seguinte com o duo Ike & Tina Turner, responsável por hits como “Proud Mary”. Depois de deixar um casamento marcado pela violência, reconstruiu a carreira sozinha nos anos 1980 e se tornou uma das artistas mais bem-sucedidas do gênero.
The Blossoms
Centenas de gravações dos anos 1960 tiveram a voz de mulheres negras que o público nunca soube identificar. O grupo, que teve Darlene Love entre suas integrantes mais conhecidas, sustentou vocais de apoio em hits hoje creditados apenas aos artistas principais dos discos, um trabalho de bastidor essencial para o som da época.
Merry Clayton
Um dos vocais mais intensos já registrados em estúdio pertence a ela, que gravou a parte que sustenta “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones. Seguiu carreira como cantora de apoio e também solo ao longo das décadas seguintes, mas aquele vocal segue sendo a marca mais lembrada de sua trajetória.
Aretha Franklin
Do gospel ao posto de uma das maiores vozes da música popular americana, sua trajetória atravessou soul, R&B e rock com a mesma autoridade. Em 1987, tornou-se a primeira mulher a entrar para o Rock and Roll Hall of Fame, reconhecimento que carregou também um peso simbólico numa indústria que historicamente tratou artistas negras como coadjuvantes do próprio gênero que ajudaram a criar.
Betty Davis
Nos anos 1970, escreveu, produziu e cantou seus próprios discos de funk-rock experimental num período em que era casada com o trompetista Miles Davis, a quem também influenciou musicalmente. Sua postura sexualmente livre e o som cru de seus álbuns foram empurrados para as margens do mercado pela indústria da época, mas décadas depois sua obra foi redescoberta e passou a ser reconhecida como pioneira.
Alice Coltrane
A harpa e uma sonoridade espiritual profunda entraram para o experimentalismo sonoro dos anos 1970 pelas mãos dessa viúva do saxofonista John Coltrane, que cruzou jazz, rock e música devocional em discos que romperam com qualquer categorização fácil, influenciando gerações posteriores de músicos.