Mundo Negro

Aos 11 anos, Dandara Freitas transforma sonhos, vivências e pertencimento em livro infantil

Dandara é autora e sua mãe é coautora do livro "Brincando de Sonhar"/Foto: Divulgação

Aos 11 anos, Dandara Freitas manifestou sua vontade de escrever um livro à mãe, Isa Freitas, de 32 anos. Criadora de conteúdo e atriz conhecida como Isa Black Woman, ela logo se animou com a ideia e incentivou a escrita da filha que, mais tarde, se tornaria no livro “Brincando de Sonhar”, lançado pela editora Afeto. A história é baseada nas vivências da própria autora.

De São Gonçalo, mas morando em Maricá, no Rio de Janeiro, Isa sempre foi uma entusiasta da educação e da leitura. Segundo ela, incentivou a filha a ler desde criancinha, criando um hábito e um gosto na menina, que hoje se tornou autora de sua própria obra. Dandara até brinca que, quando não ia bem na escola, a mãe lhe obrigava a ler algum livro e depois apresentar a história, como se fosse uma peça de teatro. 

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“Para mim sempre foi importante incentivar a leitura nos meus filhos, é algo que eu queria que minha mãe tivesse feito comigo”, conta Isa. “A Dandara, aos 11 anos, tem um repertório e uns gostos que são muito diferentes das crianças da idade dela, muito porque eu a coloquei para ler desde cedo, dando livros e visitando bibliotecas”. 

Dandara diz que sentiu vontade de escrever o livro depois de ver um vídeo na internet em que uma menina de sua idade também fazia um livro, e que a animação da mãe a incentivou. A temática e narrativa sobre sonhos e o poder de sonhar veio da menina: “Eu queria mostrar que todas crianças mais simples e sem muita condição financeira também podem sonhar alto, não precisa sonhar tão baixo quanto a gente acha e aprende a achar”, diz Dandara. 

Mesmo com pouca idade, ela entendeu que meninas negras, assim como ela, que não possuem tantos recursos, por vezes acabam deixando seus sonhos de lado. Ela revela que, apesar de ter realizado alguns sonhos particulares, como viajar de avião, ir à um parque aquático e ter um carro, ela ainda sonha com coisas que quer alcançar: “Ir à Disney, Itália e Paris, além de viajar com toda a minha família”.

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O processo de escrita

A ideia e a escrita do livro começaram em meados de maio. O incentivo e ajuda de Isa foram primordiais para que Dandara finalizasse suas páginas. Ela escreveu a maioria do livro, mas foi a mãe que o finalizou. 

Ao final, apesar de contrariada, o nome de Isa também está estampado na capa do “Brincando de Sonhar”, como coautora. Ela diz que Dandara insistiu para que ela aceitasse os créditos e diz que, apesar de no início negar, aceitou, porque a ação ensina uma válida lição para a menina de 11 anos: “No futuro, ela vai ter outras oportunidades de trabalhar em coletivo e, se uma pessoa participou, nem que seja de um trechinho, ela tem que dar o crédito à essa pessoa. Se eu não aceitasse ter meu nome como autora também, eu estaria ensinando errado à ela”. 

Divulgação

O processo veio como uma fase de muita união entre mãe e filha. Isa conta que ao escreverem a história juntas, as duas tinham muita conexão, a ponto de uma complementar o pensamento da outra. Além disso, a escrita do livro também trouxe uma certa autoestima para Dandara, que por anos vinha sofrendo com racismo e bullying na escola. 

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“As pessoas da minha sala começaram a me zoar. Falaram que eu era suja, falaram que eu não era bonita, que eu era feia por causa da minha cor. E isso foi me fazendo acreditar”, conta Dandara. “E o cabelo também: falavam que era de bombril. Isso fez com que eu acreditasse em tudo o que falavam, mesmo que eu sempre me arrumasse”.

Não foram anos fáceis para Dandara. Durante esses ataques, que perduraram cerca de dois anos, houve uma mudança de turma, conversas com a mãe, com as famílias e processos de autoaceitação. Os meses foram passando e Dandara deixou de ser uma menina tímida, fechada e que não se expressava muito na escola, para ser alguém com muita atitude. 

Com o livro, sua notoriedade na escola também decolou: ela recebe abraços, elogios e cumprimentos alegres dos colegas e amigos da escola, que sentem orgulho e felicidade ao saber que, agora, Dandara é uma escritora. Os professores e diretora da escola também a valorizam e reconhecem a pessoa que ela é, ainda mais com tão pouca idade. 

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Isa também relata sua satisfação ao ver como os alunos agora recebem Dandara na escola: “As crianças me veem, quando vou levá-la na escola, e dizem: ‘nossa, tia, sou fã da sua filha’. Ela é aclamada pelos amiguinhos e isso não tem dinheiro que pague”.

Dandara conta que, apesar de não ter sido uma jornada fácil para ela, o final é recompensador: “No início eu estava muito feliz com a participação da minha mãe na escrita do livro. Depois, foi surgindo um medo”, conta Dandara, sobre o processo de construção do livro. “Aconteceu de eu ‘nem ligar mais’ para o livro, e fui jogando [a responsabilidade] para minha mãe. Porém, no final, eu lembrei que o livro ia dar muitos benefícios legais, que eu ia gostar muito dele. Eu sabia disso e fiquei muito feliz de novo”.

Dandara espera que seu livro impacte positivamente as meninas como ela: “Eu acho que muitas meninas não vão entender no início, mas depois elas vão compreender que isso é normal, que toda pessoa deve sonhar”. 

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Sobre o livro

“Brincando de Sonhar” conta a história de Dandara, uma menina preta, de 11 anos, que transforma suas experiências em histórias sobre sonhos, desejos e descobertas de sua infância. No livro, Dandara sonha com viagens, conhecer o mar, andar de avião e viver momentos ao lado de sua família, mas aprende que esperar por essas realizações também faz parte da trajetória. 

Enquanto isso, Dandara vivencia questões como amizade, bullying, racismo, ancestralidade, coragem e pertencimento.

O livro é voltado para crianças e adolescentes e está em fase de pré-venda, pelo site da editora Afeto, por R$ 49,90.

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O lançamento deve ocorrer na FLIM (Festa Literária Internacional de Maricá), de 30 de outubro a 8 de novembro, com sessão de autógrafos com Dandara Freitas.

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