O South by Southwest (SXSW), maior festival de inovação do mundo, nos lembra que o futuro não é um destino fixo, é um campo de possibilidades. Essa mesma perspectiva orienta o recém-lançado Dossiê da HSM Management sobre a fusão entre Inteligência Artificial (IA) e Inteligência Ancestral. Uma leitura provocadora, que aponta: não há futuro possível sem sabedoria ancestral.
“A ancestralidade é viva”, diz Paula Harraca no Dossiê. Mas me leva a duas perguntas necessárias: de qual ancestralidade estamos falando? Por que a África, berço da humanidade e epicentro de inovações invisibilizadas, segue ausente desses debates? Enquanto o mainstream da tecnologia segue orbitando o Norte Global, a África já escreve um novo capítulo: regenerativo e cheio de lições, principalmente, para o Brasil. A ausência de qualquer menção a países africanos, mesmo quando o Japão é apresentado como referência em “sociedade 5.0”, não é mero esquecimento. É reflexo de um olhar ainda viciado na associação do continente à escassez, quando o que a África oferece é abundância de soluções.
Notícias Relacionadas

Por isso, este texto é um complemento, um addendum necessário e respeitoso ao que vem sendo apresentado em documentos e eventos de inovação. Trata-se de um convite ao aprendizado decolonial! Enquanto o Ocidente debate ética, a África já implementa IA regenerativa. Enquanto o mundo discute “futuro da tecnologia”, a África vive o presente com inteligência artificial inclusiva, culturalmente situada, treinada em seus próprios contextos. Uma IA não apenas afro, mas afrofuturista, nos ensinando constantemente que inovação e ancestralidade não se opõem, são paralelos que se encontram.
O Masakhane, projeto pan-africano que utiliza IA para traduzir e preservar idiomas africanos, promove inclusão digital e descolonização algorítmica, tendo como lema “De pessoas africanas para pessoas africanas”. Isso é ancestralidade como tecnologia viva! Um bilionário do Zimbábue, Strive Masiyiwa, que já atua de forma ativa no continente no quesito combate as desigualdades, anunciou planos para construir uma “Fábrica de IA”. Esse ousado projeto visa transformar o continente africano em um hub global de desenvolvimento de inteligência artificial, aproveitando talentos locais e promovendo soluções adaptadas às necessidades regionais, onde a tecnologia será treinada em datasets africanos, combatendo, também, o viés colonial dos modelos globais.
E há muito mais! Países africanos já lideram iniciativas tecnológicas que integram IA em setores como saúde, agricultura e educação. Quando olhamos para a África como um polo de novas economias e tecnologias, rompemos com a visão distorcida de atraso e acessamos respostas que o Brasil precisa:
- Na África do Sul, o African Institute for Mathematical Sciences usa IA para prever secas com base em padrões climáticos ancestrais, uma versão africana do “design ancestral” proposto pela maravilhosa Grazi Mendes no Dossiê da HSM.
- No Camarões, comunidades estão transformando resíduos vegetais em energia limpa por meio de processos biológicos inspirados em saberes tradicionais. Um modelo regenerativo, barato e replicável no semiárido brasileiro.
- O Quênia é referência em fintechs que usam machine learning para inclusão financeira e liderou o tema muito antes do nosso pix com seu sistema M-PESA.
Se você tem interesse em inovação real, prepare-se para desaprender. Desaprender a ideia de que ancestralidade é passado. Desaprender o mito de que tecnologia só nasce no norte.
Como lembra Amadou Hampâté Bâ, escritor nascido no Mali, “quando um ancião africano morre, uma biblioteca inteira queima”. Hoje, essa biblioteca está viva, digitalizada, conectada e pronta para nos ensinar a imaginar futuros mais sustentáveis. A África não é o futuro. A África é o presente e o Brasil precisa se conectar com essa revolução ancestralmente futurista.