Amor afrocentrado e a sociedade

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Ron (John David Washington, filhão do Denzel Washington) e Patrice (Laura Harrier) em cena do filme "Infiltrados na Klan"

Desde a escravidão que o europeu usou de todas as formas possíveis de desqualificar o negro, reduzindo-o a uma mera máquina de servir, sem autoestima e, pior, desejando o padrão branco como se fosse a última fatia de pizza numa noite sem jantar. Quando isso não acontece, tem choradeira do lado do opressor, pois não faz bem pra autoestima deles ver a pretaiada empoderada, saca?

Então, vamos ao assunto: Relacionamento afrocentrado. Apesar do nome legal, não é um tema tão simples de se explicar, pois, possui algumas camadas de significados e motivações. Vou tentar ser bem sucinto, mas precisamos começar a falar desse sistema racista que se iniciou na escravidão. Como eu já disse, o padrão de sociedade ideal martelado no nosso subconsciente é o do europeu, o branco. O que faz muita gente preta almejar esse padrão.

Nas mulheres, já reparei que esse padrão se dá na autoimagem e no homem, na visão da mulher branca como passaporte para um degrau mais alto na sociedade. Não que não haja mulheres que almejem “clarear” a raça ou homens que não queiram os traços físicos do homem branco, mas vou me ater aos grandes grupos e não nas exceções ou menores incidências.

Se você juntar um homem preto que só almeja brancas com uma negra que odeia seu cabelo natural, por exemplo, vamos ter um casal preto, mas que não é afrocentrado, sacou? Ele vai largar ela assim que uma branca “der mole”. Não precisa nem atender padrões de beleza, pois a beleza está na branquitude dela  (lembre o Latrell Spencer, de As Branquelas). E ela, a preta, vai seguir sem entender o que aconteceu, desnutrindo sua autoestima.

Agora, imagine que o cara é um preto consciente, sabe como agir de forma imponente e vê a extensão de sua luta por espaços e direitos que lhe são negados na sociedade racista. Esse cara junta com uma preta que já aprendeu a gostar de seu cabelo natural, não liga para os padrões da TV e entende que por ser mulher, o peso da cobrança vem até maior. Esses dois juntaram por se gostarem e se apoiarem numa luta onde sabem que juntos são mais fortes. Isso é o relacionamento afrocentrado.

Peço perdão para a diversidade, pois só exemplifiquei o caso hipotético de um homem e uma mulher, até porque é o meu caso, não podendo falar de realidades que não vivo, por mais próximas que sejam. Mas relacionamento afrocentrado é a união afetiva de negros que lutam juntos, independente de gênero ou orientação sexual. Mas achei importante dar meu ponto de vista pessoal, porque sou homem hétero cis e é nítido que esse meu grupo fala muito menos do que o das mulheres.

Lembro logo de Lázaro Ramos e Taís Araújo, Kenia Maria e Érico Brás e alguns outros não tão famosos, mas casai afrocentrados. Entenda, não é uma união de pessoas negras, é um ato político onde você vai sentir representatividade, vai servir de exemplo por seu posicionamento, por sua desconstrução. Já esbarrei com gente que me conhecia apenas de redes sociais que, ao me verem com minha companheira, me mandavam mensagens imediatamente surpresos com nossa afrocentricidade.

O mais comum seria um preto com uma branca. A síndrome do preto que enriquece e sente que o próximo passo na melhora de sua condição social é colar com alguma branca, que provavelmente não lhe daria bola sem sua posição. Aí, tudo passa batido e em duas gerações o que o preto conquistou volta pra elite branca e o herdeiro ainda vai dizer lá na frente “não sou racista, meu avô era preto”, mas já falei sobre isso aqui mesmo no site, então, não preciso voltar no assunto.

A conclusão é que precisamos cada vez mais de mais relacionamentos afrocentrados. Caso contrário, em algumas gerações, negros serão apenas um resquício da história, como bem queriam todos os grupos abastados da história da colonização deste país. A cada clareamento, é o Brasil admitindo que tem vergonha do negro nessas terras. Como quem diz que foi bom ter sua força de trabalho, mas você não é convidado da festa. Mas, lembrando, que sempre falo em termos de sociedade e não de individualidades, certo? Relacionamentos afetivos precisam ter, em primeiro lugar, afetividade.

E afetividade não escolhe cor, né? Claro que escolhe e esse amor é branco. Se preto só se relaciona com brancos, alguma coisa tá estranha. O coração não escolhe a cor, mas você não sai dos lugares onde só tem uma cor. Dificilmente vai rolar uma afrocentricidade. Mas, o importante é amar, não adianta um casal se juntar se não tiver os elementos básicos de companheirismo e amor.

Enfim, afrocentrados, a questão é que por mais que um branco possa dar todo apoio ao se relacionar com uma pessoa negra, quando negros fazem isso, isso tem mais força e mais peso em nossa sociedade. Assim, somos mais fortes, percebemos que não estamos sozinhos nem nas lutas e nem no amor. O valor social aumenta muito com um relacionamento desses, pois empatia é bom pra todos, mas negrxs conscientes e desconstruindo-se,  sabem o que outrxs negrxs passam. É uma luta com união, empatia e amor no coração.  

Fontes:

https://www.almapreta.com/editorias/o-quilombo/relacionamento-afrocentrado-nao-e-conto-de-fadas-da-disney

https://medium.com/@jessicarosa1996/apropria%C3%A7%C3%A3o-cultural-relacionamentos-afrocentrados-e-genoc%C3%ADdio-o-que-isso-tem-a-ver-c227ec0867c7

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