A negritude da Europa nas olimpíadas 2020

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A negritude da Europa nas olimpíadas 2020
Portugal registra o melhor desempenho em olimíadas e ainda assim, tem racista que não quer reconhecer a participação do portugueses negros.

Sou um eventual telespectador esportivo. Mas, quando acompanho, acompanho sem desligar a chavinha da observação sociológica. Então, desde a Euro 2020, quando jogadores negros de seleções europeias foram alvos de racismo em seus países, sobretudo na Inglaterra, fiquei positivamente surpreso. E preocupado. Com o que ainda viria – e virá – por aí. Pois bem, veio olimpíada Tóquio 2020 e uma quantidade enorme de negros espalhados por países europeus despontou para resultados expressivos.

E, nesse meio, Portugal. Antes de mais nada, vale mencionar que esta já é considerada a melhor campanha de Portugal em jogos olímpicos. Ué, Saga, tá falando de Portugal porquê? Porque a partir da delegação daquele país e a consequente reação de uns e outros, vai começar a reflexão. Sobre como o negro sempre vai ser visto como negro, mesmo que nunca tenha pisado na África. Como se nos negassem qualquer outra cidadania que não a de negro, entende?

Dito isto, voltemos ao foco esportivo. Notei que um perfil, denunciado pela Revista Abreolhos, intitulado O Bom Europeu no Instagram, propaga esse mesmo ódio que vemos forte no Brasil. Mas sobre compatriotas deles, portugueses. Em suas postagens, afirmam preferirem zero medalhas, se for pra aceitar que o português vitorioso seja uma pessoa negra. Partem para a ofensa direta, criticam os que se relacionam com brancos, insinuando que “até os negros reconheceriam” as brancas como mais bonitas.

Ok, esse é o princípio da palmitagem, mas há uma questão de construção do conceito, que vem justamente dos antepassados deles e é complexa. A ironia é que eles reclamam de algo que os orgulhosos antepassados deles – e até nossos, né, valeu, miscigenação colonial – provocaram em mundo e meio. E até conteúdos desqualificando a humanidade do negro, que nem vale a pena citar. Inclusive, ficam espalhando discurso de ódio sob o pretexto de defender uma pureza étnica a Portugal.

Se buscassem alguma lógica, estariam contestando como foi que tantos negros chegaram a falar Português; e estudariam pra saber que não foi por Telecurso 2000. Isso, gostando ou não, é um legado deles próprios, afinal, que nação soberana de raça pura foi essa que permitiu tantos filhos ilegítimos e de pele retinta? Sinal que nem eles mesmos eram tão firmes assim na ideia de que o negro é uma subespécie.

Me parece mais a velha questão que ainda assombra a sociedade, sobretudo a mulher negra: Negras pra trabalho e cama, mas não pra assumir. Confesso que eu acreditaria no mito da miscigenação festiva colaborativa que tanto pregam, mas esse passado os condena. Quem acha que um grupo não é gente de verdade, nem se relaciona. Agora, se relacionar e não assumir depõe mais sobre o que foi feito do que pelo que foi pregado.

Lembro do fazendeiro vivido por Michael Fassbender em 12 Anos de Escravidão. Em determinada cena, depois de mais um estupro de sua cativa (vivida por Lupita – maravilhosa – Nyongo), ele parece ressentido com algo, a agride com um soco e se retira. Fica claro que ele tem sentimentos por ela, mas a sociedade o compele a viver essa clandestinidade. O soco era a frustração dessa idiossincrasia do cara que age como acha que deve, mas às escondidas, age como gostaria e não pode mudar o sistema, só seguir. Nada de diferente de hoje em dia, né? Mas estou desviando.

Bem, o perfil está lá, pra quem quiser denunciar. Procure o nome, porque não vou sujar estas elaboradas linhas digitais com aquele ranço. A conclusão óbvia é que trata-se de mais um canal supremacista, hipócrita e que se vale de um orgulho quatrocentão pra defender o que nem seus ancestrais praticaram. Pregam tanto contra a miscigenação… Aqui também tem, mas o resultado é mais pra Bacurau, quando os gringos confrontam o casal de forasteiros metidos a superiores e os põem em seus lugares.

No mais, que venham mais e mais atletas de todas as cores. Bem sabemos o quanto negros atletas são valorizados apenas quando estão ganhando medalhas e troféus. E uma maior quantidade dos nossos vencendo pode, um dia, desmistificar isso e mostrar que além do folclórico vigor físico, também somos cidadãos lutando pra vencer.

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