A necessidade de autocrítica da militância

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Lumena e a necessidade da autocrítica
Lumena entrou causando no BBB21 e virou meme, de tão inacessível que se apresentou seu discurso.

A militância de Lumena no BBB21 deu o que falar, por apresentar uma forma arrogante, “de cima pra baixo”. Como se fosse um discurso de verdade absoluta, o que gerou muito julgamento de que a militante negra estaria apresentando comportamento fechado ao diálogo e troca de ideias. Tal qual o reacionário que tanto critica. Por outro lado, houve gente que amenizou as críticas, por acreditar que esse julgamento se dá de forma desigual, já que quando Paula ganhou um BBB recente, o fez tendo deixado clara sua postura preconceituosa em várias frentes, por exemplo. Paula é branca, Lumena é preta. E eu digo logo que tem um pouco dos dois, analisando friamente.

Sim, Lumena usou seu discurso engajado como quem leva um machado pra repartir um bolo, causou desconforto quando poderia usar a mesma ideia apenas sendo informativa, mas cedeu ao impulso da reação, da militância, da defensiva extrema, que muitos de nós não resiste e corre pra treta. E, também, sim, muitas acusações, como supremacista negra, fascista ou mesmo o “clássico” negros são os mais racistas/racismo reverso nasceram de quem só queria um pretexto pra verbalizar o racismo e machismo que já traziam de criação antiga. Justifica? Não. Mas explica o contexto social em que vivemos e o programa a que nos referimos.

Militância sem filtro

Mas não é sobre Lumena, diretamente, que venho falar. Sua participação no reality foi barulhenta, mas agora que passou, é a vida seguindo seu curso, até porque, não demora muito e as lembranças do programa já vão esmaecer antes do meio do ano, convenhamos. O assunto aqui é como Lumena apenas expôs um lado que muitos têm, em qualquer âmbito, quando tem acesso a um conhecimento muito esperado, mesmo sem saber. Tudo faz tanto sentido, que a militância pode ficar exacerbadamente intelectual, acadêmica e com traços de imposição, mais do que informação. É uma conversa unilateral, um discurso que parte de quem obteve um determinado conhecimento e sente a responsabilidade de repassar. Talvez, de forma afobada e reativa, mas uma necessidade legítima. Um soldado recém engajado que já quer correr pelo campo de batalha atirando.

E isso nasce de forma bem mais natural do que se imagina. Muito militante se impressiona quando acessa textos, discursos, depoimentos, etc. São fontes de informação que mostram um mundo que estava ali, mas parecia errado. De fato o é, mas com a possibilidade de solução. O conhecimento de como o sistema funciona e de como está tudo interligado abre portas na mente de quem passa a entender e reconhecer os personagens, ou melhor, os atores sociais. Só que muita gente apenas aprende e sai repassando. Aí, eu volto um pouco na – agora – ex-BBB baiana pra exemplifica, por estar mais em alta na lembrança desse tema.

A comunicação e o basculho

Lumena usava termos na casa que muita gente, tanto dentro quanto fora da casa, simplesmente não entendia. Ou seja, sua informação descia cachoeira a baixo, mas não estava sendo absorvida. Apenas pagando de chata, coisa que o militante já tem mistificado no subconsciente da sociedade, talvez até por outros com o mesmo comportamento. Isso não agrega, apenas se dispara. Mas nem sempre quem está do outro lado da conversa, branco ou preto, vê desse jeito e nisso, muita gente menos agressiva também age assim. Expõe o conhecimento, mas não transmite pra quem está ouvindo. Como brincaram muitos internautas, tem que estudar o dicionário antes de ter uma discussão dessas. Pocah não soube o que era o tal basculho que Gilberto a chamou, imagine termos científicos, sociológicos e essas bossas?

A necessidade de autocrítica

É isso, Lumena virou meme, causou, fez e aconteceu no BBB21. Sim, criticaram muito por ser uma mulher preta militante discursando. Também errou, por exemplo, ao apontar o dedo pra Lucas Penteado. Ele só queria um conselho sobre como lidar com a sexualidade. Aquilo o defenestrou moralmente da casa muito antes de desistir do jogo. Enfim, o jogo reflete as pessoas daqui de fora e muitas são as Lumenas em maior ou menor grau, mas estamos todos aqui, sob o risco de acharmos que uma informação nossa é tão importante que não interessa se querem ouvir ou se vão sequer entender nossas palavras. Veja bem, não estou aqui como alguém que passa pano pelo receio de errar igual lá na frente.

Até porque, se eu tivesse que cair para esse lado, seria mesmo na idade que ela tem hoje. No meu tempo, representou justamente o contato com a militância. O discurso, a sociologia e a ciência política. Eu também já fiquei deslumbrado com a gama de informação que eu angariava em minha experiência. Admito até que disparei uns discursos por aí, contra trolls da internet, mas sempre tive o filtro de não fazer disso minha única identidade. Óbvio, muita gente ainda acha que vai me encontrar e eu vou ficar falando de como o racismo isso ou aquilo, e mal sabem que eu adoro descontrair, falar de histórias do samba e curiosidades de filmes, séries e desenhos animados, entende? Mas estou divagando.

As nuances de lidar com a militância

Ser militante não precisa significar travar um conflito em cada conversa, ainda mais num jogo, onde claramente, há a regra, por exemplo, de não se falar em política. A importância que tem falar, é pra que entendam, não só falar pra impor o conhecimento, como quem lança uma bomba. A informação processada corretamente por quem ouve é que é a bomba. Quando vem o “tai, Saga, não tinha visto por esse lado” é muito mais recompensador. Melhor do que deixar alguém triste ou revoltado por ter achado que era uma conversa e descobre que foi uma bronca, sem necessidade.

Não que não existam diversos momentos em que precisamos ser combativos e não arredar o pé, mas muitas vezes, é só uma conversa pra resolver e dar exemplo. Estamos numa espécie de guerra, com muitas frentes. Precisamos ponderar quando e onde vão ser as armas pesadas do discurso e da denúncia, e onde é só falar com eloquência desconcertante. Como Babu Santana fez, serenamente, ano passado, quando questionado, em tom de deboche, o porquê de seu pente garfo e cabelo Black. Ele falou que era uma afirmação e se saiu. Não foi pretexto de reaça, racistas, machistas e fascistas pra nos desqualificar por impulsividade e estratégia.  Até porque, já diria o sábio: “há que endurecer, mas sem perder a ternura jamais”.

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